Como o mosquito virou o maior assassino da humanidade

Não é comum imaginar o mosquito como o animal que mais matou seres humanos ao longo da história. No entanto, é a verdade: este pequeno e irritante inseto voador, e suas doenças associadas, ceifaram mais vidas do que qualquer outra coisa. Estimativas apontam que, durante toda nossa existência enquanto espécie, pelo menos 52 bilhões de indivíduos foram mortos dessa forma.

Segundo dados levantados pela Fundação Bill e Melinda Gates, o mosquito causa uma média de 725 mil mortes por ano no mundo – o que significa que eles são até 180 vezes mais mortais do que qualquer outro animal, como serpentes, aranhas, hipopótamos e crocodilos.  

Caso soubesse o quanto esse animal era mortífero, talvez John Milton tivesse imaginado um dos demônios do inferno como “o lorde dos mosquitos” ao invés de ter idealizado um “senhor das moscas”. Contudo, ele viveu em uma época que as pessoas ainda não tinham descoberto que este pequeno inseto era o vetor de transmissão de várias doenças.

É importante traçarmos uma linha do tempo para que possamos entender melhor a relação dos mosquitos e a história da humanidade. Mas para isso, primeiro, vamos seguir o conselho de Sun Tzu e conhecer um pouco melhor este pequeno inimigo que tanto nos incomoda não só na hora de dormir.

Ficha técnica do bicho

De acordo com informações trazidas por Timothy C. Winegard no livro “O mosquito: a incrível história do maior predador da humanidade”, estimativas apontam que existe uma média de 110 trilhões de mosquitos em todo o mundo. Os únicos locais que eles não estão presentes são na Antártida, na Islândia e em algumas ilhas isoladas nos oceanos – um fator comum em todos esses locais é o ambiente pouco favorável para sua proliferação.

Os dois principais gêneros de mosquitos são o anopheles e o aedes, que são os responsáveis pela proliferação de diversas doenças, como dengue, febre amarela, zika e malária – guarde esta última na mente, pois ela vai ser importante. Vale lembrar que tanto o aedes quanto o anopheles têm um ciclo vital e atuação semelhantes, portanto, o que for explicado sobre um vale para o outro.

Os mosquitos precisam de uma certa quantidade de água limpa parada e acumulada para poder se proliferar. Além disso, como não conseguem regular sua própria temperatura corporal, necessitam de um ambiente com clima adequado, acima dos 10°C e abaixo dos 40°C. Dessa forma, os ambientes tropicais são um dos melhores locais para que eles proliferem, mas não são os únicos. O tempo médio de vida de um mosquito varia de até 10 dias para os machos e até 50 dias para as fêmeas.

E por falar na fêmea, apenas ela é problemática para os seres humanos, pois é ela que suga nosso sangue para nutrir seus ovos. Em menos de dez segundos, ela é capaz de sondar um bom vaso sanguíneo e insere duas pequenas agulhas serrilhadas que cortam a pele e em seguida introduz uma seringa que suga de três a cinco miligramas de sangue. Imediatamente, ela libera saliva com um anticoagulante, o que faz com que a gente não perceba em um primeiro que estamos sendo “roubados” e impede que a esmaguemos. Apesar de picar qualquer pessoa sem distinção, cientistas sabem há algum tempo que mosquitos têm preferência por sangue do tipo O em detrimento dos outros.

Se o problema fosse apenas ceder um pouco de sangue, talvez as coisas fossem um pouco diferentes. A grande questão é justamente o momento que a “mosquita” cospe o anticoagulante, que pode conter ou não uma doença. Cálculos estimam que o mosquito moderno é um dos animais mais velhos que existem, sendo que estão na Terra há pelo menos 190 milhões de anos – fazendo com que eles sejam contemporâneos de dinossauros. E durante este meio tempo, seguindo a teoria da evolução, diversos germes perceberam o quão vantajoso era se alojar dentro dos mosquitos e esperar pelo momento de serem “despejados” no corpo de um hospedeiro mais adequado através da saliva anticoagulante que eles excretam durante a refeição. É assim que temos diversas doenças.

Influência durante a história

Na Bíblia, um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse é a “Peste”. Isso demonstra o quanto as epidemias são um problema antigo na história da humanidade. A pandemia da Covid-19 apenas nos lembrou disso. No entanto, naquele tempo não se tinha muito conhecimento como algumas doenças eram transmitidas e causadas. E assim foi durante grande parte da história com relação as doenças transmitidas pelos mosquitos. Em especial a malária.

Mas como as doenças transmitidas pelos mosquitos tiveram um peso tão grande na história da humanidade? Explicamos, mas primeiro vamos partir de um princípio bem conhecido dentro da doutrina militar: “O que mata o soldado não é o morteiro, mas sim o pé de trincheira”. Em outras palavras, doenças e fome são mais perigosos durante um conflito do que o conflito em si. E a própria história demonstra isso.

Quando uma campanha militar é empregada, diversos fatores devem ser levados em consideração. Muitos líderes e estrategistas pensaram (e ainda pensam) apenas em questões táticas dos campos de batalha durante um confronto direto, mas se esqueceram de pensar com relação a logística, mobilidade e obstáculos. Dessa forma, exércitos poderosos eventualmente acabaram cruzando alguma região com as condições perfeitas para a proliferação de mosquitos e acabaram sendo subjugados justamente por eles.

E temos alguns exemplos disso.

Deixando de lado as lendas e mitos criados a respeito da guerra dos atenienses e espartanos contra o domínio persa, os gregos tiveram um grande auxílio dos mosquitos. Quando o exército de Xerxes precisou avançar por terra, acabou se deparando com a presença de terras pantanosas infestadas do inseto que logo se banqueteou do sangue dos soldados. No fim, isso acabou ajudando a virar o jogo a favor da delicada aliança. Logo em seguida, na Guerra do Peloponeso, da qual Atenas e Esparta foram os beligerantes, novamente o mosquito teve um peso considerável. Em dado momento, durante um período de três anos, cerca de 35% da população ateniense foi morta por uma doença conhecida como Praga de Atenas. Não há consenso acadêmico sobre a real natureza dessa enfermidade, mas existe uma forte possibilidade que tenha sido transmitida por mosquitos.

Vendo essa situação delicada entre ambos os lados, o pai de Alexandre, o Grande, o rei Filipe II da Macedônia aproveitou a oportunidade para unir o norte e o centro da Grécia e tomar toda a região grega. O domínio foi continuado e ampliado durante o reinado de Alexandre, mas ironicamente até mesmo o imperador conhecido como “O Grande” teve sua vida ceifada por um mosquito transmissor da malária aos 32 anos de idade. Provavelmente esse pequeno inseto moldou a história do mundo para sempre, mas certamente não foi a primeira nem a última vez.

No antigo Império Romano, a cidade sede do império era cercada de pântanos pontinos que acabaram protegendo os cidadãos de invasões durante muito tempo. O motivo disso era justamente o fato de que o mosquito transmissor da malária estar presente nestas áreas. Naquele momento, não havia qualquer noção de que o vetor de contágio era justamente este inseto, pois na época acreditavam que o ar do local era o responsável pela doença – não à toa que “malária” vem do latim “mala aria”, que significa “ar ruim”. Contudo, é válido lembrar que a aliança deles com o inseto era dúbia, uma vez que surtos de malária foram comuns entre a população durante os séculos que o império existiu.

Essa característica foi decisiva durante as Guerras Púnicas, pois o mosquito transmissor desta doença bebeu do sangue do exército de Aníbal, que marchava em direção a Roma, o que deixou os soldados fracos. Átila e seus hunos, apesar de terem a fama de guerreiros implacáveis e cruéis, também não foram páreos para o “General Anófeles”. Apesar de terem sido barrados pelo exército romano no norte da Itália, quem garantiu a vitória foi justamente os mosquitos, pois os hunos já estavam exauridos e doentes devido as doenças. Cerca de 40 anos antes da derrota de Átila, o exército de visigodos liderado por Alarico teve um destino semelhante. Dessa forma, não seria imprudente dizer o quanto a malária auxiliou na manutenção do Império Romano.

E não foi apenas em questões bélicas ou militares que os mosquitos tiveram peso, mas também em fatores coloniais e econômicos.

Durante a era das navegações e colonização das Américas, os colonos acabaram trazendo consigo em seus navios diversas doenças. Mas trouxeram também os mosquitos, que acabaram encontrando um novo ambiente bastante propício para proliferação. Os nativos não estavam prontos para esse tipo de doença e, portanto, não tinham qualquer tipo de defesa natural contra os germes estrangeiros. Como resultado, além da violência, uma das principais causas de mortes foi justamente doenças como malária, febre amarela e dengue. Vendo o quanto os nativos eram “inúteis” para trabalharem nas plantações de fumo e cana de açúcar, que movimentava o mercado europeu e asiático, uma alternativa encontrada foi o tráfico de escravos africanos.

Era notório desde tempos antigos o quanto os povos da África eram atléticos e resistentes a doenças, uma vez que vivem em um ambiente infestado delas – incluindo aquelas transmitidas pelos mosquitos. Por isso, eles se tornaram uma opção mais viável para trabalharem nas plantações das Américas. O resto é a história que a gente já conhece, mas é interessante pensar que, novamente, o mosquito foi um dos fatores que modificaram o curso da humanidade. E apenas pinçamos algumas delas, pois aconteceram outras, como na Revolução Americana.

Mosquito na atualidade

Foi apenas no final do século 19 que finalmente foi determinada a causa de doenças como malária, febre amarela e dengue. Antes disso, a teoria miasmática era a explicação mais aceita para determinar tanto essas doenças como outras. Dessa forma, a teoria dos germes acabou tomando o lugar para explicar as enfermidades. E como consequência, agora as pessoas tinham um mínimo de noção de como tentar se defender melhor dessas doenças: combatendo o mosquito.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos começaram a usar um composto chamado DDT como pesticida, se tornando uma das formas mais eficientes e modernas de combater a proliferação dos insetos. O uso foi largamente utilizado no mundo após o conflito, mas em 1962 foi publicado o livro “Primavera Silenciosa” pela ecologista Rachel Carson na qual expôs os riscos a longo prazo do uso da substância como pesticida. Na década de 1970, os Estados Unidos proibiram o uso do composto e, no Brasil, ele só foi abolido em 2009. O DDT é uma substância bastante polêmica e que ainda causa algumas controvérsias.

Atualmente, as doenças causadas por mosquitos são endêmicas principalmente nos países da África e do Sudeste Asiático. Pesticidas modernos e ações de conscientização da população com relação ao acúmulo de água auxiliaram muito, ao longo dos anos, a diminuição do nível de mortalidade. Mais recentemente, no Brasil, em 2015 a zika causou preocupação local e internacional depois que foram confirmados casos de microcefalia devido a transmissão do vírus da mãe para o feto durante a gestação. O assunto saiu dos holofotes ao longo dos últimos anos. Mas o fato é que a nossa guerra contra os mosquitos segue de pé e talvez siga durante toda nossa existência.

Curiosidade

Diversos remédios e tratamentos antimaláricos foram desenvolvidos e usados ao longo da história humanidade. Um deles foi o quinino, um composto extraído do arbusto cinchona que é natural das Américas. Os conquistadores espanhóis a descobriram no final do século 16 na região onde atualmente fica o Peru após ouvirem falar de uma árvore usada pelos índios para curar a febre. Em pouco tempo os europeus descobriram que o consumo do quinino era eficiente contra a malária, mas achavam o gosto demasiado amargo. Para deixa-lo mais agradável, os ingleses acrescentaram gim na mistura e assim nasceu o drinque gim-tônica – talvez uma das poucas boas heranças deixadas pelo General Anófeles.

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