“O Condenado”: morrer primeiro, investigar depois

Bernard Cornwell é um autor que não promete nada e entrega tudo. E, por mais que seus trabalhos mais lembrados sejam as grandes sagas, com diversos volumes, é sempre possível pinçar alguma preciosidade em seus trabalhos únicos. Um dos aspectos mais curiosos de sua obra é a mistura homogênea de preciosismo histórico e sensibilidade artística para contar uma boa história. Isso tudo se encontra, como já dito, tanto em livros curtos quanto em grandes séries.

Nessa leva de filhos únicos, talvez um dos que mais chamam atenção seja “O Condenado”, publicado originalmente em 2001 e nem sempre lembrado dentro da vasta coleção de trabalhos de Cornwell. E um dos pontos mais curiosos desse livro é o fato de ser uma história de detetive inglesa, passada no século XIX, mas sem qualquer assepsia.

Pense em uma história de Sherlock Holmes, mas não sendo conduzida por um superdetetive, e sim por um homem comum, inteligente, mas sem capacidades dedutivas quase sobrenaturais — e sem o roteiro forçar a barra. Além disso, há todo o contexto social de uma Inglaterra na qual enforcamentos públicos eram vistos como entretenimento e que, na época, ainda não havia aprimorado a técnica da “queda longa”, o que tornava o momento muito mais macabro. A trama é simples, mas poderosa e funcional, e dá uma dimensão mais crua do que realmente era uma “trama policial” da época.

Contexto

O Condenado (publicado originalmente em inglês como Gallows Thief) é um romance histórico e policial de Bernard Cornwell ambientado na Inglaterra de 1817, após as guerras napoleônicas. A trama começa com Charles Corday, um jovem pintor que está no corredor da morte na Prisão de Newgate em Londres, condenado por violentar e matar a condessa de Avebury enquanto ela posava para seu retrato — crime que ele afirma não ter cometido. A uma semana de sua execução na forca, o capitão Rider Sandman, um herói veterano de Waterloo, é chamado pelo governo para reexaminar o caso, pois surgiram dúvidas sobre a culpa de Corday e indícios de que a justiça pode ter sido apressada e falha.

Sandman embarca em uma investigação que o leva a interrogar testemunhas e desafiar a versão oficial dos fatos, em meio a uma sociedade pós-guerra marcada por corrupção, desigualdade e um sistema penal implacável. Ele descobre que as evidências são circunstanciais e que motivações pessoais e segredos de membros da aristocracia podem ter influenciado a condenação de Corday. Sua busca pela verdade envolve lutas legais e dilemas morais sobre justiça, honra e pena capital, oferecendo ao leitor uma visão detalhada e crítica sobre a Inglaterra do início do século XIX.

Bernard Cornwell (nascido em 23 de fevereiro de 1944, em Londres) é um dos mais importantes escritores britânicos de ficção histórica contemporânea, conhecido por sua pesquisa rigorosa e narrativa envolvente que combina eventos históricos com personagens inesquecíveis e tramas cheias de ação e intriga. Ele já publicou mais de 40 livros traduzidos para diversos idiomas, incluindo séries famosas como “As Aventuras de Sharpe” e “A Busca do Graal”, além de romances isolados que exploram diferentes períodos da história.

Quantos condenados não morreram injustamente?

O livro é aberto com um prólogo brutal que narra o dia da execução de condenados à forca no período pós-Guerras Napoleônicas, na Inglaterra. E, quando digo “brutal”, não é no sentido de ser alguma cena visceral ou macabra, mas sim pelo peso angustiante dos condenados, que não têm nada a fazer a não ser aceitar que em breve vão morrer e que suas mortes servirão de espetáculo para um monte de pessoas.

Um detalhe curioso é que esse prólogo só faz sentido após o final do livro. Toda a trama gira em torno de Sandman, o protagonista, que foi contratado para “investigar” a culpa de um homem já julgado e condenado à execução. Isso já é absurdo por si só quando colocado em perspectiva com um processo judicial moderno em casos criminais: o réu já foi julgado e condenado, e só depois disso é que se pede uma investigação mais minuciosa. Outro detalhe aqui é que, originalmente, o protagonista não foi chamado exatamente para “investigar”, mas sim para arrancar uma confissão do condenado — outra bizarrice.

Quando tudo isso é posto em perspectiva, conseguimos entender ainda mais o quanto as primeiras páginas de “O Condenado” são brutais. Isto é: quantos daqueles que foram enforcados naquela época não receberam um julgamento injusto e enviesado? O livro não mostra, mas certamente havia muitos que realmente cometeram crimes e estavam recebendo suas punições. Porém, o que é de se imaginar é que uma parcela considerável estava sendo executada simplesmente porque sim.

Cornwell, como de praxe, explica alguns aspectos históricos de seu livro em notas de posfácio. Ele afirma que, na época histórica retratada, havia muito mais pessoas sendo condenadas à morte do que executadas de fato, expondo que em torno de 10% dos julgados eram mortos de fato. O restante, em sua grande maioria, era mandado para as colônias na Austrália — o que era visto, em muitos casos, como uma condenação ainda pior do que a morte. Esse detalhe é exposto em alguns momentos do livro, mas, como não é o foco, pode acabar dando uma imagem imprecisa da época. E é muito por isso que o autor faz questão de escrever algumas notas explicativas sempre, o que é muito positivo, dado o gênero de ficção histórica.

Além da trama e do contexto histórico muito bem construídos, outro ponto de grande destaque é a criação de personagens humanos feita pelo autor. Existem algumas pequenas inconsistências, principalmente no tocante ao protagonista, que é descrito como um homem irritadiço e com tendências violentas, mas que demonstra ser mais paciente do que a descrição sugere. Porém, isso é algo que pode ser tolerado e até compreendido como um processo de “evolução” do personagem, a depender da tolerância de cada leitor. No entanto, os coadjuvantes não deixam nada a desejar, e podemos sentir que Cornwell deu uma atenção especial a cada um deles. Desde a doçura e sensibilidade das mulheres até o jeito rude de homens violentos ou, então, ridiculamente rebuscado dos nobres… Nenhum detalhe passa despercebido nesse quesito.

Por fim, nem tudo são flores na narrativa — apesar de o conjunto da obra valer a pena. É nítido como, em muitos momentos, o autor perde a mão no ritmo da história e arrasta demais diversos trechos, tornando-os mais longos do que o aceitável. Além disso, o final é escrito em sequências apressadas e que muitas vezes não ficam claras, deixando dúvidas sobre como algumas coisas ocorreram. Isso não chega a estragar o livro, como já dito, mas é possível notar que as últimas páginas foram escritas como se Cornwell estivesse querendo “apenas terminar de uma vez”, tal como fazíamos com trabalhos de escola. Mas isso não é incomum entre escritores.

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