Diferente do que se possa imaginar, o terror é um gênero composto por diversos elementos. Esses elementos formam o que chamamos de subgêneros. Talvez você goste de vários, ou apenas de um tipo de terror. Mas, hoje, vamos explorar suas diferenças, entender como funcionam e conhecer seus principais aspectos.
Antes de monstros, maldições ou entidades invisíveis, o found footage trabalha com uma ideia mais básica: a de que aquilo que estamos vendo é real. Não há trilha sonora que prepare para o susto anunciado, nem enquadramentos elaborados para passar uma sensação visualmente impactante; quanto mais cru, melhor.
Ao apertar o play, a experiência imersiva é não apenas a de ser uma testemunha, mas a de ser cúmplice: estar assistindo a algo proibido e perdido, uma tragédia anunciada. A ideia surgiu como uma experiência narrativa. Conforme câmeras e vídeos caseiros foram se popularizando, as chances de alguém captar algo realmente assustador aumentaram, então o gênero surgiu como uma tentativa de borrar os limites entre ficção e realidade.

Apesar de, em 1960, um longa chamado “Peeping Tom” ter se utilizado de filmagens caseiras como um dos elementos da trama, foi em 1980 que nasceu o primeiro found footage. Dirigido por Ruggero Deodato, “Holocausto Canibal” acompanha um grupo de cinegrafistas norte-americanos que, ao gravar um documentário na Floresta Amazônica, acabam sendo vítimas de uma tribo canibal.
O surgimento do gênero não poderia ser mais impactante. Deodato utiliza a linguagem documental e, após, em um contraste bem realizado, o longa muda de tom para mostrar suas verdadeiras intenções. Com muita violência, animal e humana, o trabalho de transmitir tal veracidade foi tão bem feito que o diretor foi acusado de assassinato, precisando provar em tribunal que os atores estavam vivos.

Após o gênero mostrar sua força em 1980, ele precisou passar por um processo natural de modernização, e o pioneiro dessa reconstrução foi “A Bruxa de Blair”. Quando as pessoas foram ao cinema em 1999, não foram apenas para ver o longa, mas também para investigar o desaparecimento do trio protagonista. A campanha de marketing focou amplamente em espalhar a notícia do desaparecimento dos jovens Heather, Mike e Josh.
Criando sites virais, cartazes e outdoors de desaparecidos, a produção construiu uma experiência imersiva. Além disso, a autenticidade das cenas, com improvisos e sustos que o elenco não esperava, deu uma veracidade maior ao tema do longa.
Após isso, em 2007, tivemos dois novos expoentes do gênero. “REC”, o clássico espanhol que acompanha uma equipe de reportagem em um corpo de bombeiros, que acaba presa em um prédio após receber uma chamada. O longa tem uma pegada mais imediatista e informativa, não sendo mais tão amador, mas ganhando muito na urgência da situação.
Também em 2007 tivemos “Atividade Paranormal”. Um casal decide instalar câmeras em sua casa para registrar os eventos sobrenaturais que testemunham. Aqui, as imagens são mais estáticas, e o terror está muito mais no silêncio e na incerteza de algo que acontece enquanto você dorme.

Após muito tempo, até os dias de hoje, muitos longas se aproveitam do gênero de diferentes modos. Seja usando a câmera como testemunha, como em “Creep” ou “A Visita”, ou se aproveitando da vertente tecnológica, como em “Host” ou “Amizade Desfeita”. Mas sempre vai existir aquela parcela que não o explora com profundidade. Assim, após o sucesso de “Atividade Paranormal”, uma tendência de found footage surgiu: muitos projetos sem uma visão criativa clara, apenas tirando proveito do formato para cortar custos de produção.
O found footage sobrevive não por causa de monstros, demônios ou teorias conspiratórias, mas porque fala diretamente com a forma como vivemos hoje. Em um mundo que registra tudo, arquiva tudo e transforma qualquer tragédia em conteúdo, o gênero nos lembra que nem toda imagem deveria existir e que algumas verdades, quando gravadas, deixam de ser apenas informação para se tornarem cicatrizes.
O horror não está no que a câmera mostra, mas no fato de que ela permanece ligada quando já não há mais ninguém para segurá-la. O found footage, no fim, é o terror da testemunha: ver demais, saber demais e não poder fazer nada com isso.
