Anos atrás, existia uma tendência de filmes sobre animais assassinos no cinema. Após o sucesso de Tubarão, de Steven Spielberg, outros animais tentaram repetir a fórmula, mas acabaram caindo no terreno dos filmes trash e de categoria B. Agora, em 2026, o diretor Johannes Roberts, responsável por outros dois longas do subgênero, “Medo Profundo” 1 e 2, traz à tona novamente o tema. Desta vez, com mais seriedade e buscando referências na essência dos filmes slasher.
Após perder a mãe e passar um ano sem voltar para casa, a jovem Lucy reencontra sua família junto a um grupo de amigos. Porém, o chimpanzé de estimação é contaminado pela raiva, transformando o grupo de personagens em reféns de sua fúria assassina. Ainda que o roteiro tente criar uma conexão emocional ao abordar o tema do abandono familiar, o verdadeiro propósito do longa ocupa a maior parte do tempo: ser um slasher violento.

Na direção, Roberts faz um bom trabalho ao transmitir a aura ameaçadora do macaco Ben. Isso se reflete tanto nas cenas de suspense quanto nas cenas de morte, que são inventivas e violentas, justificando a classificação indicativa para maiores de 18 anos e o tom mais sombrio e sério que o diretor pretende imprimir.
Existem várias homenagens e referências a outros filmes de terror, como “Cujo”, “Shakma”, filme que também apresenta um primata assassino, desta vez um babuíno, e até mesmo “O Iluminado”. Entre os vários acertos da direção, o que mais brilha é a decisão criativa de apresentar o chimpanzé Ben, interpretado pelo ator Miguel Hernando Torres Umba, por meio de uma fantasia.
A atuação de Umba contribui para a suspensão de descrença, graças a seus trejeitos e à movimentação corporal, ainda que as expressões faciais sejam limitadas. A direção, no entanto, contorna essa limitação com o uso de iluminação, cortes e enquadramentos, enquanto luta para não cair na galhofa, mesmo que deslize em determinado momento, quando o chimpanzé destranca as portas de um carro.
Os pontos negativos ficam por conta do roteiro. É possível imaginar uma versão mais dramática da história, na qual o tema do abandono parental teria mais destaque e culminaria em um sacrifício heroico da protagonista, salvando a família que havia deixado para trás.
Essa sensibilidade, porém, é apenas pincelada e nunca plenamente desenvolvida, assim como a suposta fraqueza do animal à água, que serve apenas para justificar a longevidade de alguns personagens em cena, nunca sendo utilizada com inteligência.
No fim, se o diretor Roberts buscava uma revitalização do subgênero nos moldes do slasher, ele conseguiu. Estão presentes todos os elementos esperados pelos fãs: personagens ingênuos, um vilão memorável e mortes inventivas.
“O Primata” é um clássico mediano para bom. Violento o suficiente para permanecer na memória, mas vazio o bastante para ser lembrado apenas como “o slasher do macaco”.
