Hoje em dia, não é novidade para ninguém que os Estados Unidos construíram uma das armas mais devastadoras da história durante a Segunda Guerra Mundial. O Projeto Manhattan, conduzido em Los Alamos, foi um dos segredos mais bem guardados até que tudo viesse à tona.
Porém, este não foi o único projeto ultrassecreto dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, havia um outro que recebia recursos que rivalizavam com os destinados ao desenvolvimento da bomba atômica. Essa iniciativa estava determinada a criar armas biológicas capazes de mudar o rumo de um conflito armado. O interesse norte-americano pelo tema surgiu por conta de informações de que os países do Eixo, em especial a Alemanha e o Japão, tinham desenvolvido conhecimentos avançados na área.
Contudo, após o fim da guerra, o propósito desse projeto foi deixando de existir. Mas, logo em seguida, com o mundo entrando na paranoia da Guerra Fria, a iniciativa tomou um novo fôlego e passou a ter outro objetivo: pesquisar e desenvolver substâncias e técnicas que pudessem controlar a mente de outras pessoas. Assim, nascia o que ficou conhecido como MK-ULTRA, o projeto mais secreto dos Estados Unidos da época e que deixou consequências terríveis em diversos setores da sociedade. Grande parte das informações contidas aqui foi tirada do livro “Senhor dos Venenos”, do autor Stephen Kinzer.
Guerra biológica
Para entender como surgiu o MK-ULTRA, é importante conhecer todo o contexto que veio antes de seu estabelecimento como programa de Estado. E, para isso, precisamos voltar ao auge da Segunda Guerra Mundial.
Quando os Estados Unidos entraram no conflito, um dos maiores choques de realidade foi constatar o quanto o Eixo (em especial o Japão) estava desenvolvendo avanços significativos na área de armas biológicas. O governo norte-americano perguntou a vários cientistas se seria possível produzir, em escala industrial e segura, bactérias patógenas que pudessem ser utilizadas como armas. Todos os especialistas consultados foram céticos, com exceção do professor Ira Baldwin, que afirmou que seria “possível reproduzir as mesmas condições de um tubo de ensaio em um tanque de 50 mil litros”. Em 1942, ele foi acionado para organizar uma equipe e chefiar o projeto.
Assim, foi criado um grande complexo de pesquisa em Maryland chamado Camp Detrick, que contava com uma infraestrutura impressionante e um grande número de patologistas das mais renomadas universidades dos Estados Unidos. Mais de 500 mil animais foram usados como cobaias, como camundongos, macacos, ovelhas, porquinhos-da-índia, dentre outros. A título de comparação, era quase como uma segunda “Los Alamos”, mas talvez ainda mais secreta, uma vez que poucas pessoas ouviram falar dela até hoje. Baldwin afirmaria posteriormente que, na época, não pensou muito a respeito da moralidade do que se fazia no local, pois todos os esforços estavam centrados na guerra.
E, por falar nos países do Eixo, a Alemanha nazista também produziu um conhecimento vasto (e macabro) envolvendo armas biológicas nos campos de concentração. O principal chefe dessas pesquisas foi Kurt Blome, que foi rapidamente capturado após o fim da guerra. A Justiça demandava que ele pagasse por seus crimes, mas os interrogadores dos Estados Unidos enviaram relatórios para o departamento de inteligência revelando que o nazista talvez fosse uma fonte valiosa de informações, pois, em 1943, estava estudando técnicas de guerra bacteriológica. Dessa forma, uma base do Exército em Maryland teve a ousadia de sugerir que ele fosse contratado.
Aliás, Blome não foi o único que entrou nessa lista de possíveis contratações. O Exército mandou ao presidente Franklin D. Roosevelt a proposta de conceder benefícios a espiões nazistas, pois muitos deles tinham informações valiosas sobre a União Soviética. Contudo, ele recusou a ideia, mas sua negativa foi ignorada. Dessa forma, iniciou-se a “Operação Paperclip”, que consistia em forjar novas biografias para nazistas de interesse dos Estados Unidos, para que pudessem entrar no país.
No final, a operação acabou levando cerca de 700 pessoas ligadas ao Terceiro Reich para a terra do Tio Sam. Ao menos três cientistas nazistas foram para Camp Detrick e deram palestras sobre o uso de gás sarin como arma de guerra. Contudo, Blome não estava entre eles, para a infelicidade de muitos cientistas do complexo.
Porém, é válido notar que a Operação Paperclip não passou despercebida e foi muito criticada em diversos níveis nos Estados Unidos. Um dos argumentos utilizados era que tais cientistas nazistas estarem servindo aos norte-americanos era mais seguro do que não fazer nada, uma vez que tais conhecimentos poderiam cair nas mãos da União Soviética. E, conforme a Guerra Fria avançou, as críticas começaram a se dissipar, e a presença de nazistas foi mais tolerada.
Paralelamente a tudo isso, os cientistas de Camp Detrick também voltaram suas atenções para o Japão. Com as informações sobre um local chamado Unidade 731, que fazia estudos sobre guerra biológica, houve empolgação sobre o que se poderia descobrir. A grosso modo, o objetivo com os pesquisadores japoneses era praticamente o mesmo que com os cientistas nazistas. Um dos principais líderes da iniciativa no Japão chamava-se Shiro Ishii, que ordenou a destruição do local e um juramento de silêncio de todos os envolvidos.
Cobaias humanas, sendo muitos prisioneiros de guerra chineses, mongóis, coreanos e norte-americanos, e até mesmo marginais, criminosos e doentes mentais japoneses, foram enviados para que ele fizesse testes. Ishii chegou a dizer que o objetivo da Unidade 731 era “o completo oposto do que um médico faz, que é desafiar os limites da microbiologia e desenvolver os melhores tratamentos contra doenças”.
As descrições dos experimentos são, no mínimo, escatológicas. Os prisioneiros eram infectados com doenças, queimados com lança-chamas, congelados vivos e dissecados vivos. Alguns recebiam injeções de vento e transfusões com o sangue de animais apenas para verificar os efeitos. Um relatório dos Estados Unidos afirma que um dos testes envolvia expor as cobaias a explosões com estilhaços contaminados com antraz para verificar o tempo de vida restante após a exposição — nunca mais do que uma semana.
Um cientista de Camp Detrick encontrou Ishii em 1946, na casa da filha dele, e fez diversos pedidos para que ele compartilhasse suas descobertas técnicas desenvolvidas na Unidade 731. Ele impôs a condição de conseguir algum tipo de imunidade para ele e seus subordinados e superiores. Um decreto secreto anistiando todos foi assinado, e ele se safou sem punições, mas não foi enviado para os Estados Unidos, sendo instalado em um complexo asiático.
Ishii cumpriu sua parte do acordo e forneceu vastos documentos e relatórios sobre o resultado de suas pesquisas, incluindo a dose letal de diversas substâncias, o que engordou o conhecimento de Camp Detrick. Porém, os norte-americanos não foram os únicos que fizeram isso, pois relatos apontam que a União Soviética e a China tomaram atitudes parecidas com outros cientistas da Unidade 731.
Com a Segunda Guerra Mundial encerrada, em 1949, os poucos cientistas de Camp Detrick que ainda trabalhavam no complexo receberam uma nova missão: o estudo de drogas e técnicas que pudessem controlar a mente das pessoas. As razões para isso decorreram de um depoimento feito pelo cardeal József Mindszenty, da Hungria, que havia confessado publicamente crimes extravagantes.
Os agentes da recém-criada CIA analisaram o comportamento do religioso durante o julgamento e concluíram que ele parecia estar sendo coagido e confuso. Eles pensaram que a URSS havia desenvolvido alguma forma de controle mental. Inclusive, foi nessa época que se iniciaram os procedimentos de uso coercitivo de drogas em cobaias por um pequeno grupo seleto no complexo norte-americano.
LSD
Antes de continuar, precisamos voltar um pouco no tempo para dar outro contexto envolvendo o desenvolvimento da principal substância estudada pelo MK-ULTRA. Em 1943, o dr. Albert Hofmann, do laboratório Sandoz, descobriu, meio que por acaso, os efeitos psicoativos de uma enzima chamada ergot. Após usar a si mesmo como cobaia, e posteriormente até mesmo colegas de laboratório, ele descreveu os diversos efeitos da substância que passou a chamar de LSD-25.
No final de 1949, as notícias sobre as descobertas de Hofmann chegaram a Washington, e L. Wilson Greene, diretor técnico do Laboratório de Química e Radiologia de Edgewood Arsenal, elaborou uma proposta ousada. Ele propôs o conceito de psicoguerra, um tipo de abordagem militar que usaria drogas para neutralizar a população inimiga sem a necessidade de baixas. A proposta foi aceita, e o presidente Harry Truman autorizou que os estudos começassem.
Assim, foi feito um acordo informal entre os cientistas de Camp Detrick e agentes da CIA, no qual drogas psicoativas eram desenvolvidas pelos pesquisadores, e os interrogadores utilizariam as melhores para fazer os interrogados “soltarem a língua”. Esse programa ficou conhecido como “MK-NAOMI”. De acordo com um dos pesquisadores, eram fornecidas também diversas drogas e toxinas para que alvos fossem eliminados com eficiência. Uma das mais usadas eram as botulínicas, que matavam em um período de oito a 12 horas — tempo suficiente para que o assassino estivesse bem longe. Caso precisassem eliminar alguém sem matar, doenças também eram utilizadas.
Um dos casos mais controversos desse período ocorreu em 1950, quando cientistas precisavam determinar se cidades eram suscetíveis à guerra biológica. Assim, organizaram uma operação em São Francisco, na Califórnia, na qual liberaram no ar uma bactéria “inofensiva”, mas facilmente rastreável. Porém, esse germe acabou causando a internação de 11 pessoas, e uma delas acabou falecendo. O caso não passou despercebido pelos médicos, que chegaram a escrever um artigo sobre o caso curioso de pessoas com sintomas de manchas vermelhas na urina. Porém, do ponto de vista da operação, os resultados foram bem-sucedidos para provar que cidades são vulneráveis à guerra biológica e que a bactéria não foi identificada.
Nessa época, na Alemanha, foi criado também o Camp King, que era nada mais do que um posto avançado da CIA para fazer testes no uso dessas substâncias em humanos. Em dado momento, Kurt Blome foi chamado para trabalhar no local, na área de testes de toxinas e estudo de seus efeitos em cobaias humanas.
Diversos prisioneiros eram utilizados como cobaias nesses experimentos de controle da mente por meio da administração de substâncias. Contudo, um dos primeiros a serem documentados dentro do programa (agora chamado de Artichoke) foi Dmitri Dmitrov, um jovem político búlgaro que recebeu o codinome de Kelly. Ele havia fornecido informações para a CIA, mas o serviço de inteligência temia algum tipo de venda ao serviço secreto francês. Ele foi preso em uma prisão grega, na qual foi torturado e interrogado por seis meses, e depois mandado de volta para Fort Clayton, uma unidade no Canal do Panamá. Pelo fato de ele ter desenvolvido uma grande hostilidade para com os Estados Unidos devido àquela situação, foram conduzidas experiências do programa para saber se ele poderia voltar a se tornar amigável. Ao que tudo indica, isso não rendeu frutos, pois ele acabou sendo solto após alguns anos e tentou vender sua história para diversos editores.
Lavagem cerebral e Sidney Gottlieb
No início dos anos 1950, surgiu uma paranoia pública nos Estados Unidos com a possibilidade de os comunistas chineses e soviéticos terem desenvolvido técnicas de lavagem cerebral. Isso foi tão assustador para o povo quanto a própria ideia de uma guerra nuclear. Nunca ficou muito claro quais foram as origens dessa ideia, além do já mencionado caso do cardeal Jozsef Mindszenty. Contudo, tudo isso ajuda a entender por que todo esse programa foi tão longe.
Nesse contexto, o projeto Bluebird surgiu como um programa secreto da CIA para desenvolver técnicas de controle mental, sempre partindo do pressuposto de que os comunistas já dominavam tal tecnologia. Foi no verão de 1951 que Sidney Gottlieb foi selecionado para liderar o projeto, principalmente por meio da influência de seu mentor, dr. Baldwin. Além disso, ele também tinha outro cargo: o de criador oficial de venenos para operações secretas de assassinato. Alguns registros apontam que ele era praticamente um gênio nesse campo, conseguindo produzir toxinas altamente letais que não eram detectáveis.
Gottlieb teve uma criação e juventude absolutamente normais para um jovem filho de imigrantes de classe média nos Estados Unidos. Ele nasceu em 1918, em uma família judia que veio da Europa. Enfrentou alguns problemas de deformidade nos pés, o que o impediu de andar até os 12 anos. Após cirurgias parcialmente bem-sucedidas, ele passou a conseguir caminhar, mas foi manco pelo resto da vida. Entrou na faculdade com o objetivo de estudar a área de química e agricultura e, eventualmente, acabou se casando e conseguindo uma vaga de professor universitário. Ele tentou se alistar no Exército quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, mas foi recusado devido à sua deformidade física.
Ao longo da vida, ele teve quatro filhos e conseguia manter uma rotina familiar bastante normal. Durante o dia, trabalhava no projeto mais secreto dos Estados Unidos. Já à noite, era um marido e pai exemplar. Não dá para ter total certeza se sua família sabia o que ele fazia, mas Kinzer aponta em seu livro que um dos filhos de Gottlieb teria dito para uma namorada que seu pai produzia venenos para o governo. Assim, dá para imaginar que todos tinham uma noção vaga da verdade, mas não de sua totalidade.
MK-ULTRA
Com Gottlieb liderando, em 1953 o projeto foi oficialmente renomeado para o nome mais conhecido: MK-ULTRA. Esse foi o maior segredo dos Estados Unidos da época, sendo que apenas um grupo muito seleto sabia de sua existência.
Diversas drogas foram testadas, como maconha, cocaína e heroína. Diferentes doses eram administradas em cobaias humanas para descobrir se alguma delas aumentava a taxa de confissões e a revelação de segredos em interrogatórios. Nenhuma delas se mostrou eficiente. Porém, Gottlieb tinha um fascínio peculiar pelo LSD. Ele acreditava que a droga poderia conduzir ao “soro da verdade”, mas mais cobaias eram necessárias.
Assim, um dos maiores centros de testes foi Greenwich Village, em Nova York, onde diversas pessoas desavisadas eram drogadas com a substância. Quem foi contratado para tal tarefa foi George Hunter White, um veterano do departamento de narcóticos que sabia bem como se virar no submundo.
Usando diversas histórias falsas, ele atraía pessoas e acabava aproveitando a oportunidade para despejar LSD em suas bebidas e depois conduzir interrogatórios. Segundo o autor Stephen Kinzer, o esquema era tão bem arquitetado que havia um acordo entre a CIA e hospitais de Nova York para abafar informações sobre qualquer internação envolvendo drogas.
Porém, é válido reforçar o ponto de que todas essas atitudes do MK-ULTRA não foram feitas por mero sadismo, mas sim como fruto da paranoia da época. O próprio autor afirma que todo mundo estava vivendo um momento tenso. Um episódio que acirrou ainda mais essa paranoia pública foi o armistício na Coreia, que libertou 7,2 mil soldados norte-americanos. O bizarro, porém, é que 23 deles optaram por ficar na Coreia do Norte ou na China, tecendo várias críticas aos Estados Unidos. Anos antes, havia sido lançada ao público a ideia de “lavagem cerebral” comunista, e esse episódio reforçou ainda mais essa noção.
De forma irônica, um dos principais laboratórios para experimentar os efeitos do LSD em cobaias era um centro de tratamento para dependentes químicos administrado por Harris Isbell. A maioria dos internos era negra, vinda de regiões pobres, e altas doses da substância foram administradas em muitos deles. Inclusive, grande parte acaboutendo sequelas permanentes.
Um dos experimentos mais terríveis do MK-ULTRA foi realizado por Isbell, com o aval de Gottlieb. Um total de sete internos foi isolado e, diariamente, foram administradas doses cavalares de LSD durante um período de 77 dias. Uma das cobaias desse experimento tinha 19 anos na época e relata que foi convencida a participar na esperança de receber doses de heroína como recompensa.
Em determinada parte do programa, o alergista Harold Abramson ingressou com o objetivo de estudar o LSD em diferentes frentes, sendo que Gottlieb forneceu até mesmo parte dos recursos do MK-ULTRA para sua pesquisa. Um de seus interesses era o efeito da droga em crianças. Um experimento com crianças com diagnóstico de esquizofrenia foi conduzido nessa linha, e elas receberam doses da substância diariamente durante semanas.
Nem só de LSD vive o MK-ULTRA
Em dado momento, outra coisa despertou a atenção de Gottlieb dentro do programa de controle mental: o sexo. Em 1955, foi dado início à “Operação Clímax da Meia-Noite”. Esse subprojeto consistia em avaliar como a administração de drogas, associada ao coito, poderia fazer com que homens ficassem mais propensos a se abrir e contar segredos.
Um bordel, comandado por White, foi organizado e montado em São Francisco a fim de testar essas possibilidades. O local era completamente grampeado e equipado com esconderijos para que ele pudesse observar tudo, quase como um voyeur.
Diversas prostitutas foram recrutadas para essa parte do projeto. Após o final do serviço, elas eram orientadas (e pagas) para ficar algumas horas conversando com os clientes, já previamente drogados. Isso causava uma boa massagem no ego de todos os caras, que acabavam conversando por bastante tempo sobre suas vidas pessoais e profissionais. Enquanto isso, White tomava nota de tudo.
O LSD na contracultura
Por volta de 1962 e 1963, os psicólogos da CIA que acompanhavam o MK-ULTRA se deram conta de uma coisa: “lavagem cerebral” era algo que não existia. Ou, ao menos, não da forma que os pesquisadores imaginavam que fosse possível, como por meio do uso de drogas ou de uma espécie de “soro da verdade”. Segundo as conclusões, era possível fazer algo parecido com lavagem cerebral por meio de métodos como o isolamento do indivíduo e estímulos constantes de estresse e interrogatórios. Mas não se chegava a lugar algum com o uso de LSD ou outras substâncias.
Na mesma época, Gottlieb se deu conta de algo que hoje em dia é de conhecimento geral: é impossível controlar a mente humana da forma como eles imaginavam que fosse possível. Em mais de dez anos de serviço, o MK-ULTRA não produziu nada como um “soro da verdade”. Até mesmo o LSD, o queridinho de todos, foi arquivado como as outras drogas, pois se concluiu que ele não era confiável como forma de obter informações de outras pessoas.
Porém, isso não saiu sem consequências, uma vez que o LSD acabou sendo introduzido na cultura norte-americana e teve um grande papel na contracultura. Ao contrário do que se imagina, naquele tempo, essa não era uma droga comum entre usuários civis, e seu uso era restrito às pesquisas do MK-ULTRA. Foi o programa que acabou apresentando a droga ao público como efeito colateral.
Tudo começou com pequenos círculos intelectuais de professores universitários e intelectuais, que depois chegaram aos estudantes. Paralelamente a isso, as experiências em Nova York de drogar pessoas sem que elas soubessem acabaram chamando a atenção para o LSD, o que também contribuiu para sua popularização ao longo do tempo. Em outras palavras, um dos maiores legados do MK-ULTRA foi a apresentação de uma droga alucinógena para o mundo inteiro.
O começo do fim
Em 1963, com a saída de Allen Dulles da direção da CIA, começaram a ser revisados os métodos e objetivos do programa. Gottlieb acabou tendo diversas limitações para trabalhar. Porém, como já estava desanimado com os resultados obtidos ao longo de uma década, ele aparentemente aceitou bem o fato de o MK-ULTRA estar em vias de extinção.
Só que todos dentro da CIA que conheciam a verdade sobre o projeto concordavam com a ideia de que nada deveria ser dito, uma vez que poderiam surgir problemas de relações públicas com a revelação. Após o fim da iniciativa, Gottlieb viria a ser um designer de itens feitos para agentes de espionagem.
A revelação da existência do MK-ULTRA veio como consequência do escândalo do Watergate, na década de 1970. Na esteira dos acontecimentos que se seguiram, começaram a ser investigadas ações tomadas pela CIA em anos anteriores até que, fatalmente, começaram a surgir as informações sobre o programa.
Na época em que tudo começou a vir à tona, Gottlieb estava aposentado e viajando o mundo com sua esposa, em uma espécie de aposentadoria sabática. Ele foi forçado a voltar para os Estados Unidos para depor. Mas, antes, recebeu orientações de um advogado experiente em casos de grande repercussão midiática. Seu depoimento foi dado sob um pseudônimo e, a priori, ele não teve grandes problemas com a Justiça. Contudo, seu nome acabaria ficando marcado na imprensa, que fez questão de que ninguém se esquecesse.
Um dos casos investigados que fez Gottlieb ser convocado para depor foi o envolvendo o suicídio de um dos agentes do programa. Os relatos diziam que ele estava sob o efeito de LSD no momento e que, por conta disso, havia se jogado de um prédio de 10 andares, sendo que todo o caso havia sido acobertado e abafado anos antes. O agente não havia recebido a droga de forma consensual, o que tornava a situação ainda mais delicada. Além disso, também circulou a informação de que Gottlieb havia ordenado a destruição de vários documentos relacionados ao MK-ULTRA. Isso, por si só, já seria considerado crime dentro da lei americana. Mas, como dito, ele saiu relativamente ileso, apesar de ter ficado com o nome marcado na imprensa.
Segundo algumas memórias de conhecidos e de seus filhos, tudo indicava que Gottlieb passou os últimos anos de sua vida arrependido de várias das coisas que fez. Ele chegou a dizer, contudo, que estava “guardando esse sentimento dentro de si”. Já na velhice, trabalhava duas vezes na semana como fonoaudiólogo auxiliando crianças e idosos.
