“A Noiva!”: amor e rebeldia em ser um monstro para a sociedade

Após uma bem-sucedida adaptação de Frankenstein pela Netflix em 2025, logo em seguida, em 2026, tivemos uma nova versão do personagem de Mary Shelley. “A Noiva!” se propôs a ser uma releitura tanto da personagem-título quanto do clássico monstro que iniciou a ficção científica.

Ambientado nos anos 1930, o filme mostra a cientista Dra. Euphronious reproduzindo o processo de reanimação de um cadáver para fazer companhia ao monstro de Frankenstein. A direção é de Maggie Gyllenhaal, e aqui ela está disposta a mostrar sua versatilidade. No que diz respeito à parte técnica, o longa se mostra impecável e irretocável. A fotografia consegue ser gótica e lúdica, enquanto a montagem transita entre momentos mais subjetivos e outros mais literais.

Temos sequências sensoriais de dança e música que conseguem transmitir o psicológico dos personagens enquanto a diretora extrai o melhor de seus atores. Christian Bale faz um monstro já cansado e veterano. É uma abordagem diferente, já que ele se mostra controlado no máximo possível e busca a peça que falta para completar suas experiências humanas, algo que demonstra a fase em que ele se encontra em sua longa jornada.

Já Jessie Buckley é o extremo oposto. A personagem é imprevisível ao mesmo tempo em que beira a ingenuidade. Buckley atua não só com a voz, mas com o corpo inteiro, como se sua personagem se montasse ao longo da história, à medida que sua personalidade se define ao longo da projeção.

Porém, apesar de visualmente bem estabelecido e com domínio dos conceitos centrais de seus personagens, o roteiro peca ao tentar amarrar tudo em uma trama maior. Falta domínio das subtramas que movimentam a motivação da dupla protagonista.

Claramente, o tema central é a rebeldia. Mais precisamente, essa rebeldia voltada para a figura feminina. Mesmo antes de sua morte, a personagem da Noiva era vista como um problema por falar demais e se intrometer demais nos assuntos de “homem”.

Tal traço de personalidade evolui na versão reanimada, ganhando contornos que podem ser vistos como uma esquizofrenia. A personagem não controla suas palavras e conversa internamente com uma Mary Shelley mental, dando até mesmo esse aspecto de metalinguagem ao longa. Mesmo que essa ideia seja interessante, o roteiro escolhe focar no caos e na rebeldia, em vez da condução deles.

Por conta disso, tramas são abandonadas, pouco explicadas ou fragmentadas. Um maior desenvolvimento de certos personagens fica para trás, assim como acertos pessoais ganham soluções simples. O impacto cultural das atitudes anarquistas da dupla é apenas citado e mostrado de maneira pontual em uma pequena cena, em vez de ter tempo para vermos o peso de suas ações.

Tudo piora, em questão de roteiro, quando surge a necessidade de expor explicitamente as pautas feministas do longa. A primeira vez que uma personagem feminina pega alguém de surpresa por sua posição superior é irônica e engraçada; a segunda vez já se torna repetitiva e forçada.

Usar uma figura masculina para subverter uma pauta definida e fazê-lo expor os problemas que as mulheres enfrentam é uma maneira criativa e curiosa de se fazer isso — se for inserido na trama como feito em “Barbie”. Não quando se faz um personagem que não carregava nada desse traço de personalidade despejar ideologias e reflexões do movimento de forma jogada e esquecer disso cinco minutos depois.

Mesmo que não consiga casar muito bem suas ideias, “A Noiva!” ainda assim é um estudo de personagem bem escrito, envolto em uma trama rasa. Um grito de rebeldia belíssimo e que chama atenção, ainda que sem muito a dizer.

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