Do YouTube para o Cinema: a nova geração de diretores de terror

A chegada da internet e das plataformas de compartilhamento deu voz a muita gente. O que antes exigia grandes recursos para alcançar público, hoje depende principalmente de algo muito mais imprevisível: o engajamento.

Essa nova dinâmica de visibilidade acabou revelando talentos que antes permaneceriam no anonimato. Criadores que estavam à margem encontraram nas plataformas digitais um espaço para se expressar, testar ideias e construir audiência. Com isso, o YouTube se consolidou como uma verdadeira porta de entrada para artistas e aspirantes a profissionais; não é à toa que estamos vivendo uma fase em que cineastas surgem diretamente da internet.

O caso mais emblemático é o do diretor David F. Sandberg. Em 2013, ele publicou em seu canal no YouTube o curta “Lights Out”, cuja proposta simples — uma criatura que aparece apenas quando a luz se apaga — rapidamente viralizou. O sucesso chamou a atenção da Warner Bros., que produziu a versão em longa lançada em 2016, conhecida no Brasil como “Quando as Luzes se Apagam”.

A partir daí, Sandberg consolidou sua carreira dirigindo outros projetos dentro do estúdio, como “Annabelle 2” e até o blockbuster “Shazam!”. Seu sucesso abriu caminho para algo que hoje começa a se desenhar como tendência. Outros nomes seguiram trajetórias semelhantes. Parker Finn, por exemplo, transformou um curta viral no longa “Sorria”, reforçando como ideias simples, quando bem executadas, podem atravessar a barreira entre internet e cinema.

Mais recentemente, os irmãos Danny Philippou e Michael Philippou, conhecidos pelo canal RackaRacka, foram convidados pela A24 para dirigir “Fale Comigo” e, depois, dirigiram “Faça Ela Voltar”. Também surgem casos como o de Chris Stuckmann, conhecido por seu canal de críticas de cinema, que lançou, em 2025, “Terror em Shelby Oaks”, e Markiplier, criador de conteúdo focado em jogos, que dirigiu e estrelou “Iron Lung”, adaptação do jogo homônimo. Outro exemplo que chama atenção é o de Kane Parsons, que começou a publicar curtas sobre Backrooms no YouTube ainda adolescente e agora dirige a adaptação cinematográfica da história, também produzida pela A24.

Esses casos podem ter aspectos em comum que levaram produtores e grandes estúdios a olhar para esses criadores de conteúdo. O primeiro aspecto que me vem à mente é que estão acostumados a fazer muito com pouco. Querendo ou não, o terror sempre foi um gênero de nicho; por este motivo, nunca foi viável investir grandes quantias de dinheiro nos filmes. Mas, acostumados a fazer filmagens caseiras e com poucos recursos, a criatividade de um curta bem feito que se encontra no YouTube demonstra que não existe necessidade de um orçamento multimilionário para eles darem o melhor de si.

Outra característica importante é que quase todos os projetos que fizeram sucesso começaram com ideias muito simples, mas muito fortes. Conceitos fáceis de explicar em poucas palavras, como uma entidade que aparece quando a luz apaga, uma mão que permite falar com espíritos, uma entidade que aparece em pessoas que estão sorrindo, alguém preso em um submarino em um oceano de sangue ou uma pessoa perdida em corredores infinitos. Esse tipo de ideia funciona muito bem na internet, onde o público precisa ser impactado rapidamente, e essa lógica acabou influenciando o próprio cinema de terror atual.

Além disso, conforme o tempo passa, temas e estéticas precisam ser renovados. Então, nada melhor do que alguém que saiu da internet para falar sobre a internet. Em “Fale Comigo”, existe uma crítica central sobre filmar tudo o que ocorre com pouca seriedade, como se viralizar fosse mais importante que a própria vida.

Sobre a estética, entender de onde os diretores vieram é entender o motivo de hoje em dia termos muita câmera parada, ângulos próximos, poucos cenários, ruídos ambientes e atmosferas mais puxadas para a pressão do terror psicológico. Estamos chegando a uma época em que pessoas que cresceram com creepypastas, analog horror, gravações falsas de VHS e histórias de fórum estão contando suas próprias histórias, com um terror que desafia a realidade, além de mostrar monstros e espíritos.

Mas talvez o ponto mais interessante seja o impacto cultural por trás disso tudo. O terror sempre refletiu os medos da época em que foi produzido. Em outras décadas, o medo vinha da guerra, de invasões, de assassinos, do satanismo ou da violência urbana. O terror desta geração parece refletir outros tipos de medo: o isolamento, a tecnologia, a sensação de estar sendo observado, o vazio de grandes espaços urbanos, a perda de controle da realidade, o trauma psicológico e a solidão. Não por acaso, muitos desses filmes são mais psicológicos, mais atmosféricos e, muitas vezes, mais tristes do que apenas assustadores.

O que está acontecendo agora é que a internet deixou de ser apenas um lugar onde as pessoas assistem a vídeos e passou a ser um lugar onde novos cineastas estão sendo formados. O YouTube, sem necessariamente ter essa intenção, acabou se tornando uma espécie de escola informal de cinema, onde criadores aprendem na prática, recebem retorno imediato do público e desenvolvem uma linguagem própria antes mesmo de entrar na indústria.

Sabemos muito bem que existem diversos exemplos em que essa mesma dinâmica não deu certo. Influencers apresentando programas, protagonizando novelas e obras querendo usar a linguagem da internet sem entender profundamente como ela funciona. Mas, nesses casos, eu penso que ocorreram situações diferentes.

Querer tirar uma pessoa da internet para um outro formato é o segredo do fracasso, assim como querer falar sobre a internet sem embasamento, por não conhecer a sua essência. Diretores vindos do YouTube são mais do que uma tendência moderna a se seguir. São um processo natural de modernidade e de diferença geracional que movimenta a indústria. E, se isso se concretizar, o terror provavelmente continuará sendo o gênero em que essas mudanças aparecem primeiro, como sempre aconteceu ao longo da história do cinema.

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