“O Drama” transforma constrangimento em terror psicológico

Mais uma vez, o cinema prova que o terror tem muitas fases. “O Drama” chegou para mostrar como situações do cotidiano podem ir do silêncio constrangedor ao terror psicológico. Dirigido por Kristoffer Borgli, acompanhamos um casal, Emma e Charlie, vividos por Zendaya e Robert Pattinson, que, dias antes do seu casamento, enfrentam uma crise causada por uma revelação sobre o passado de Emma.

Assim como em seu filme anterior, “O Homem dos Sonhos”, com Nicholas Cage, o foco de Borgli é trazer uma história de drama pessoal que vai escalando para um declínio psicológico de seus personagens. “O Drama” começa como uma comédia romântica que usa o ensaio de discurso de Charlie para apresentar seus personagens e mostrar como se conheceram. Nesse ponto, o roteiro já mostra sua força, dominando a narrativa fragmentada sem ser expositivo e nos mostrando todo o relacionamento em poucos minutos.

Esse domínio ao contar a história é acompanhado de uma montagem que brinca com a percepção, tanto de passado e presente quanto de realidade e alucinação, o que acaba dando o tom de muitas cenas e servindo até mesmo como timing de comédia em diversas ocasiões. E, falando no tom, tudo muda após o momento da revelação. Sem dúvidas, a cena mais importante do filme é esta da revelação; ela é feita de tal maneira que o constrangimento reina e o silêncio se manifesta como uma presença maligna.

Como o roteiro também é assinado por Borgli, ele o faz casando perfeitamente com o dinamismo de suas cenas. Faz uso repetitivo, mas não cansativo, desse ar de vergonha, o que deixa tudo muito mais difícil de assistir, pois faz o espectador se contorcer na cadeira ou cobrir o rosto de vergonha.

Após isso, toda situação cotidiana vira um terror à parte. Cada etapa da última semana antes do casamento é um grande sacrifício, e é nesses momentos desconfortáveis que a angústia e o terror de Borgli estão escondidos. Uma simples sessão de fotos ou a preparação para os votos do casamento, tudo vira uma cena de suspense.

E claro que, ainda assim, o longa não fica apenas no campo das promessas. Conforme a trama avança, todos os anseios e dúvidas vão afunilando até chegar ao seu clímax, e a condução para esse momento é o que faz o espectador esperar qualquer coisa dele, pois tudo é montado como um enorme barril de pólvora prestes a explodir.

Da responsabilidade emocional à indiferença (pequenos spoilers à frente)

O ponto mais baixo do longa é quando ele entra em um território sensível e delicado de se explorar. Durante a noite de prova de vinhos com os padrinhos, os quatro participam de um jogo sobre contar a pior coisa que já fizeram.

É nesse ponto que Emma confessa que planejou um massacre em sua antiga escola de ensino médio. Esse tema é sensível, ainda mais para os Estados Unidos, e, por conta disso, ao assumir a responsabilidade de lidar com ele, o que se espera é maturidade para isso.

No entanto, o roteiro fez a escolha de não desenvolver traumas ou problemas psicológicos que teriam feito Emma chegar a esse ponto, muito menos de explorar melhor o que a fez desistir. Por isso, este é o ponto mais baixo do longa: lidar com o tema que ele mesmo levantou de forma tão rasa. Ainda que eu entenda que o foco seja o constrangimento e o desconforto de não saber, ao fundo, do que as pessoas são capazes, essa parte minimamente mal explorada deixa uma sensação de vazio ao final da projeção.

No fim, o que fica não é exatamente a resolução da história, mas a sensação incômoda que ela deixa. “O Drama” é menos sobre respostas e mais sobre o peso das relações, sobre o quanto realmente conhecemos quem está ao nosso lado e, principalmente, sobre aquilo que escolhemos ignorar.

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