“Ataque Brutal” tenta surfar no legado de “Tubarão”, mas afunda

Desde que “Tubarão”, de Steven Spielberg, revolucionou o blockbuster no cinema, várias obras com o mesmo tema tentaram fazer o mesmo. Entre cópias e sátiras, nem mesmo a própria franquia conseguiu repetir o feito do longa original; sendo assim, de tudo já foi feito com o gênero.

Eis então que existem duas vertentes: ou você apresenta um bom roteiro, com situações de suspense e mortes interessantes, como em “Águas Rasas” ou “Predadores Assassinos”. Ou você vai para o lado maluco do puro absurdo, sem tentar se levar a sério, como a franquia “Sharknado”. O longa “Ataque Brutal”, recentemente adicionado (ou cuspido) no catálogo da Netflix, chega com uma abordagem interessante: não fazer nenhuma das duas opções e protelar sua duração até que possa se chamar de filme.

Durante uma tempestade com um tornado categoria 5, uma cidade litorânea é inundada, e isso faz com que suas ruas sejam invadidas por tubarões. Nesse cenário, grupos de pessoas tentam sobreviver ao caos da tempestade e dos predadores que a cercam. Ao começar o longa com uma cartela escrita sobre a intensidade das tempestades com o decorrer dos anos, o diretor e também roteirista, Tommy Wirkola, parece querer fazer um comentário sobre mudanças climáticas, ou até mesmo sobre as consequências das mudanças que o homem faz na natureza.

Porém, esperar algo minimamente profundo de seu roteiro seria agir de muita boa-fé para com o projeto. Tudo começa a desandar quando percebemos que não existe nenhuma possibilidade de uma justificativa plausível para a vinda dos tubarões à cidade. A solução, então, é a mais preguiçosa possível: um caminhão de um abatedouro se choca com uma estátua, e o sangue da carne se espalha, sendo esta a desculpa para os tubarões entrarem na trama.

Tudo ainda fica muito pior e constrangedor quando percebemos a falta de preocupação — ou de habilidade da direção — em diluir o tom do longa, a fim de ao menos se aproximar dos absurdos de filmes como “Sharknado”. Ao invés disso, tudo é tratado com seriedade e com uma tentativa de tom sombrio.

Dito isso, os núcleos de personagens carregam dramas consigo para tentar ganhar o apelo do público. Dakota, vivida por Whitney Peak, sofre de agorafobia após a morte da mãe e, por isso, não conseguiu evacuar a cidade. Lisa, vivida por Phoebe Dynevor, é uma mulher grávida que se encontra presa em seu carro, que está enchendo de água. Ainda existe outro núcleo de três crianças órfãs presas na casa de seus tutores malvados.

Apenas os núcleos de Dakota e Lisa acabam se conectando. Sendo assim, a subtrama dos órfãos é apenas uma interrupção narrativa para dar mais apelo, por se tratar de crianças órfãs, e ter mais personagens para morrer nas mordidas dos tubarões — os tutores malvados.

Essa narrativa fragmentada e sem preocupação de ligação se deve ao grande problema do longa: ele possui apenas 1h25 de duração e sofre muito para chegar nela. Falta de coesão narrativa, exposição constante e cenas desnecessariamente longas evidenciam a grande deficiência que é o seu roteiro. Não à toa, trata-se de um projeto descartado pela Sony e cuspido como um original Netflix sem qualquer alarde, como uma opção para uma já depressiva noite de domingo.

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