Diferente do que se possa imaginar, o terror é um gênero composto por diversos elementos. Esses elementos formam o que chamamos de subgêneros. Talvez você goste de vários, ou apenas de um tipo de terror. Mas hoje vamos explorar suas diferenças, entender como funcionam e conhecer seus principais aspectos.
Antes de o terror psicológico ganhar prestígio e de o slasher virar fórmula, o cinema italiano já brincava com algo mais estranho: transformar assassinato em espetáculo. No giallo, o medo não vem apenas do que acontece, mas de como acontece. Cores vibrantes, trilhas hipnóticas e uma câmera que observa como se também fosse culpada.

Giallo significa, literalmente, “amarelo”, em italiano, e seu nome vem das capas de romances policiais que eram publicados desde 1929 em edições amarelas. Essas edições incluíam autores como Agatha Christie e Edgar Wallace, então o termo giallo virou sinônimo de histórias de crime, investigação e mistério.
O gênero começa a tomar forma no cinema em 1963, quando o diretor Mario Bava lança “Olhos Diabólicos”. A trama sobre uma mulher que testemunha um crime que não pode provar mistura esse clima de investigação com terror psicológico, já mostrando a marca que o gênero deixaria na indústria.
Porém, por mais que “Olhos Diabólicos” tenha sido o primeiro em misturar crime e mistério com terror, foi no ano seguinte que Mario Bava definiu a marca do giallo. “Seis Mulheres para um Assassino”, de 1964, trouxe as cores, literalmente, para o gênero. Trazendo um visual estilizado com neon, um assassino icônico e cenas de morte tratadas como coreografia, tudo isso deu uma camada surrealista e artística que acompanhou o gênero pelos anos seguintes.
Após Bava, tivemos Dario Argento com “Suspiria”, focado mais no surrealismo; Lucio Fulci, com “O Segredo do Bosque dos Sonhos”, sendo mais intenso, quase beirando o gore; e também Sergio Martino, misturando erotismo e mistério com “No Quarto Escuro de Satã”.
Cada um desses diretores, com seus elementos, consolidou a essência do giallo. O foco aqui vai além de contar uma história, mas sim de deixar o espectador desconfortável enquanto ela se desenrola. A narrativa pode ser confusa, as cores incômodas e a noção de realidade ambígua, levando ao terror psicológico — tudo de propósito para tirar o espectador da zona de conforto.
Seus temas abordados geralmente são ligados a traumas, desejo e voyeurismo. Quando as cores foram implementadas como elemento surrealista, nos anos 1970, a perda da noção da realidade ganhou força, com protagonistas que interpretam mal o que veem ou que sempre desconfiam da própria sanidade.

Com o passar do tempo, dos anos 80 em diante, o gênero foi ficando mais violento e ganhando inspiração no slasher. Em outras palavras, ele foi absorvido por movimentos mais modernos, sendo referenciado mais como apelo visual. Exemplos de giallos modernos seriam “Maligno”, de James Wan, que foca bastante na figura do assassino e no visual, mas não aproveita outros temas, como voyeurismo e desejo.
Além dele, temos um brasileiro chamado “Prédio Vazio”. Apesar de não ter um crime a ser solucionado, ele foca mais na estética e no surrealismo, sendo classificado como um “neo-giallo”, como outros que existem por aí.
No giallo, o terror nunca foi apenas sobre o medo, mas sobre a forma como ele é apresentado. Ao transformar assassinatos em espetáculo e confundir a percepção do espectador, o gênero rompe com a lógica tradicional e abraça o desconforto como ferramenta narrativa.
Mesmo não existindo mais como um movimento forte e definido, seus elementos continuam vivos, espalhados em diferentes obras que reinterpretam sua estética e seus temas. O giallo deixou de ser apenas um subgênero para se tornar uma linguagem, uma forma de filmar, de sentir e de provocar. Porque, no fim das contas, mais importante do que descobrir quem matou é entender por que continuamos assistindo.
