O terror sempre foi sobre emoções. Sejam elas boas ou ruins, o gênero explora o extremo de cada uma delas. Por conta disso, ele sempre entendeu que amar algo incondicionalmente pode levar a consequências de diversos tipos. No meio disso surge o amor materno como um dos sentimentos mais fortes já explorados no gênero. De diferentes formas, temos exemplos de obras que abordam obsessão, trauma e sacrifícios impossíveis.
Começando com um clássico absoluto de 1968. Em “O Bebê de Rosemary”, após a personagem-título descobrir sua gravidez, ela passa por uma experiência de paranoia e isolamento. Quando vizinhos intrometidos começam a querer controlar ainda mais sua vida, Rosemary perde o controle e a autonomia sobre seu corpo, o que a leva a uma degradação mental que culmina em temas como manipulação, medo da maternidade e paranoia social.
Enquanto “O Bebê de Rosemary” trata do terror psicológico, o longa francês “A Invasora”, de 2007, trata o período de gestação como sendo de extrema vulnerabilidade física. Após a perda do marido, Sarah vive sozinha em casa às vésperas de dar à luz, até que uma mulher misteriosa tenta arrancar seu bebê de seu ventre. Este, de longe, é um dos filmes mais brutais sobre este tema. Usando o gore e a violência, a dupla de diretores franceses Alexandre Bustillo e Julien Maury transforma o medo de perder um filho em algo físico, usando o luto, a obsessão e o instinto materno.
Seja pelo psicológico ou pela brutalidade física, o terror transforma a gravidez em um espaço de vulnerabilidade absoluta. O período de gestação pode funcionar tão bem no horror por se tratar de um momento de transformação: o corpo, a mente e os medos mudam, refletindo desde cedo o peso de carregar uma vida.
Se durante a gravidez o medo está no desconhecido, após o parto ele toma forma. O bebê deixa de ser uma ideia ou paranoia e passa a ser algo real, trazendo consigo dúvidas e medos de que algo errado pode acontecer.
O longa “Baby Ruby”, de 2022, traz uma influenciadora digital que acaba de dar à luz. O contraste entre sua vida nas redes e a vida real já seria perfeito para ilustrar a pressão sofrida durante a maternidade, mas o longa ganha contornos de terror mais claros quando a personagem passa a acreditar que sua bebê está tentando matá-la.

Essa ideia de estar criando um pequeno monstro também pode ser vista no clássico “A Profecia”. Claro que, ao trazer o exagero do gênero, a trama nos mostra que Damien é, literalmente, o anticristo, mas é a forma como a relação distante e paranoica com sua mãe é desenvolvida que traz esse elemento do medo da criação.
Após esse período, quando a criança cresce, esses conceitos do terror na maternidade vão ficando mais complexos, pois passam também pela formação da identidade. Ao falar desse assunto, o campo é muito mais amplo, com muitos temas e formas diferentes de tratá-los.

“O Babadook” é um dos longas mais fortes sobre o tema. Após a morte do marido, a protagonista passa por uma extrema exaustão ao criar o filho sozinha. Além da solidão e da pressão, temos a culpa e o luto sendo carregados juntos. À medida que a relação com seu filho se desgasta, o menino busca apoio na criatura do título.

Esse distanciamento e a falta de compreensão do filho também são aplicáveis em “Precisamos Falar Sobre Kevin”. Após Kevin ser preso, sua mãe passa por questões morais e psicológicas enquanto tenta compreender as ações do filho.
Porém, quando falamos da formação ou perda de identidade, o mesmo pode ser aplicado do outro lado. Em “Boa Noite, Mamãe”, dois irmãos gêmeos passam a desconfiar que estão morando com alguém se passando pela mãe deles. Tal trama explora o suspense e o medo de não reconhecer alguém amado da própria família.
Em “O Iluminado”, quando Jack já está completamente tomado pela insanidade provocada pelo hotel, tudo se resume a Wendy, sua esposa, protegendo seu filho Danny. Dinâmica que faz alusão a um lar disfuncional. No fim, o terror sempre enxergou a maternidade como um dos sentimentos mais humanos — e justamente por isso, um dos mais assustadores. Da gravidez ao crescimento dos filhos, o gênero transforma amor em paranoia, proteção em obsessão e sacrifício em dor. Porque, diferente de fantasmas ou monstros, o medo presente nessas histórias nasce de algo real: a responsabilidade de amar alguém acima de qualquer coisa.
Talvez seja por isso que filmes com esse tema permaneçam tão marcantes. Eles entendem que a maternidade não é feita apenas de afeto, mas também de culpa, exaustão, insegurança e medo constante de falhar. E, quando o terror decide explorar sentimentos tão íntimos, o horror deixa de vir apenas de monstros ou fantasmas e passa a nascer dentro das relações humanas.
