Se o Grupo B apresentou diferentes formas de encarar identidade, memória e transformação, o Grupo C parece voltar seu olhar para as raízes. Aqui, o terror nasce de lendas, crenças populares e tradições que atravessaram décadas e, em alguns casos, séculos. De um dos personagens mais icônicos do cinema brasileiro às origens haitianas do mito do zumbi, passando pelo folclore marroquino e pelo paganismo rural da Escócia, os representantes desta chave demonstram como o horror pode funcionar como um espelho das histórias que cada povo conta sobre si mesmo.
Talvez nenhum outro grupo reúna tradições tão distintas. Ainda assim, todos os seus filmes compartilham algo em comum: a compreensão de que os medos mais duradouros raramente surgem do desconhecido. Eles nascem justamente daquilo que é transmitido de geração em geração, transformando cultura, religião e folclore em combustível para alguns dos pesadelos mais marcantes do cinema.
Brasil
“As Boas Maneiras“

Notas: IMDb 6,7 | Rotten Tomatoes 100% | Letterboxd 3,8/5
Sinopse: Clara, uma enfermeira solitária, é contratada para cuidar de Ana, uma mulher grávida de origem rica e comportamento peculiar. Conforme a gravidez avança, eventos estranhos revelam que algo sobrenatural está prestes a nascer.
Eu escolhi este por achar que representa o Brasil de uma forma diferente. O longa mistura horror, fantasia e drama social para moldar uma trama sobre classe social. Ao abordar elementos do folclore brasileiro, ele cria um jeito único de contar sua história, indo na contramão do terror hollywoodiano e se aproximando da realidade brasileira.
Marrocos
“Achoura“

Notas: IMDb 4,8 | Rotten Tomatoes 80% | Letterboxd 3,0/5
Sinopse: Anos após o desaparecimento misterioso de um amigo durante a infância, um grupo de adultos se reúne novamente quando a criatura responsável retorna para concluir o que começou décadas antes.
Inspirado em lendas populares marroquinas, o filme explora criaturas sobrenaturais ligadas às histórias contadas entre gerações. Seu horror nasce do encontro entre tradições do norte da África e uma estrutura narrativa próxima ao terror fantástico contemporâneo.
Haiti
“Zombi Child“

Notas: IMDb 6,2 | Rotten Tomatoes 91% | Letterboxd 3,5/5
Sinopse: Duas histórias se cruzam entre o Haiti e a França. Enquanto uma acompanha um homem transformado em zumbi durante a década de 1960, a outra segue uma adolescente haitiana estudando em um internato francês nos dias atuais.
Poucos filmes abordam de forma tão direta as origens haitianas do mito do zumbi. Antes de se tornar um monstro comedor de cérebros no cinema americano, o zumbi estava ligado à escravidão, ao colonialismo e às práticas espirituais do vodu haitiano. O filme resgata essas raízes históricas e culturais.
Escócia
“The Wicker Man“

Notas: IMDb 7,5 | Rotten Tomatoes 89% | Letterboxd 4,0/5
Sinopse: Um policial viaja para uma ilha remota da Escócia para investigar o desaparecimento de uma jovem. Durante a investigação, descobre uma comunidade que segue antigas crenças pagãs e rituais cada vez mais inquietantes.
Considerado um dos pilares do folk horror, o filme explora o choque entre cristianismo e paganismo, tema profundamente ligado às tradições rurais das Ilhas Britânicas. Sua influência pode ser vista em obras posteriores como “Midsommar” e “The Witch”. Se o Grupo A era marcado por traumas sociais e conflitos espirituais, e o Grupo B por questões de identidade e transformação, o Grupo C parece unido por um elemento comum: a tradição.
O Brasil revisita lendas populares para discutir desigualdade e maternidade. O Marrocos mergulha em histórias folclóricas transmitidas ao longo de gerações. O Haiti recupera as origens culturais do mito do zumbi, frequentemente distorcidas pelo cinema ocidental. Já a Escócia apresenta um dos exemplos mais influentes do folk horror, explorando o embate entre crenças antigas e modernas.
É um grupo em que o terror nasce menos de monstros e mais das histórias que os povos contam sobre si mesmos. E, justamente por isso, pode ser uma das chaves mais ricas culturalmente de toda a Copa do Terror.
