Ao longo da Copa do Terror, cada grupo apresentou uma identidade própria, seja por meio do folclore, da memória ou do sobrenatural. O Grupo J, porém, propõe uma reflexão diferente: nem todos os países desenvolveram o terror da mesma maneira.
Enquanto Argentina e Áustria consolidaram obras que transformam o cotidiano em fonte de medo, Argélia e Jordânia encontram no suspense psicológico, nos conflitos sociais e nas tensões históricas suas principais formas de explorar o lado mais sombrio da experiência humana. Em alguns casos, o terror aparece de forma explícita. Em outros, surge apenas nas entrelinhas, dividido com o drama e o thriller.
Mais do que reunir monstros, fantasmas ou maldições, esta chave demonstra que o medo pode assumir diferentes linguagens de acordo com a realidade de cada país. Talvez por isso o Grupo J seja um dos mais diversos da Copa do Terror, lembrando que o gênero também é moldado pela história, pela cultura e pelas oportunidades de cada cinematografia.
Argentina
“Terrified” (Aterrados)

Notas: IMDb 6,5 | Rotten Tomatoes 96% | Letterboxd 3,4/5
Sinopse: Moradores de uma tranquila vizinhança passam a testemunhar fenômenos sobrenaturais cada vez mais violentos. Diante da incapacidade da polícia de explicar os acontecimentos, especialistas em paranormalidade iniciam uma investigação que desafia qualquer lógica.
A Argentina tem se destacado no terror contemporâneo ao unir o cotidiano urbano com o sobrenatural. Aterrados evita explicações fáceis e constrói uma atmosfera de constante inquietação, mostrando como o horror pode surgir em qualquer casa comum, sem depender de grandes lendas ou monstros clássicos.
Argélia
“Abou Leila“

Notas: IMDb 6,6 | Rotten Tomatoes 100% | Letterboxd 3,6/5
Sinopse: Durante a guerra civil argelina, na década de 1990, dois amigos atravessam o deserto em busca de um suposto terrorista. Conforme a jornada avança, a violência do conflito e os traumas psicológicos passam a distorcer a realidade.
Embora esteja mais próximo do suspense psicológico do que do terror tradicional, o filme utiliza o medo e a paranoia para refletir sobre a guerra civil argelina. O deserto torna-se um espaço de isolamento físico e mental, onde os verdadeiros monstros são os traumas deixados pelo conflito.
Áustria
“Goodnight Mommy” (Boa Noite, Mamãe)

Notas: IMDb 6,7 | Rotten Tomatoes 86% | Letterboxd 3,5/5
Sinopse: Após uma cirurgia no rosto, uma mãe retorna para casa com o rosto completamente enfaixado. Seus filhos gêmeos passam a acreditar que a mulher pode não ser quem diz ser.
O filme representa uma característica marcante do cinema austríaco contemporâneo: o horror psicológico construído a partir do silêncio, da ambiguidade e das relações familiares. Em vez de recorrer a sustos constantes, transforma a desconfiança em sua principal fonte de medo.
Jordânia
“The Alleys“

Notas: IMDb 7,1 | Rotten Tomatoes 100% | Letterboxd 3,5/5
Sinopse: Em um bairro popular de Amã, um relacionamento proibido desencadeia uma sequência de chantagens, disputas e atos de violência. À medida que os conflitos se intensificam, os moradores revelam um ambiente onde o medo e a desconfiança fazem parte da rotina.
Embora não seja um filme de terror, The Alleys foi escolhido por representar uma realidade enfrentada pela cinematografia jordaniana: a quase inexistência de produções do gênero no país. Considerado um dos longas jordanianos de maior reconhecimento internacional, utiliza elementos de suspense e thriller para retratar tensões sociais, desigualdade e os códigos morais presentes na vida urbana de Amã. Sua presença na Copa do Terror funciona como uma exceção ao critério da série, privilegiando a representatividade cultural diante da ausência de um horror jordaniano de destaque.
Se alguns grupos da Copa do Terror foram definidos pelo folclore, pela memória ou pelo sobrenatural, o Grupo J parece encontrar sua força em um elemento diferente: a incerteza.
Na Argentina, o inexplicável invade uma vizinhança comum sem jamais oferecer respostas claras. A Argélia transforma os traumas da guerra em uma jornada onde realidade e paranoia se confundem. A Áustria faz do ambiente familiar um espaço de desconfiança constante, mostrando que o terror pode surgir das pessoas mais próximas. Já a Jordânia, representada por The Alleys, demonstra que, mesmo sem uma tradição consolidada no gênero, o suspense pode explorar medos igualmente universais ao retratar violência, desigualdade e as tensões sociais escondidas nas ruas de Amã.
É um grupo que evidencia como o horror nem sempre depende de criaturas sobrenaturais ou de sustos. Em diferentes culturas, o medo também nasce da culpa, da violência cotidiana, da paranoia e da fragilidade das relações humanas. No fim, a maior semelhança entre seus representantes talvez seja justamente esta: todos mostram que o verdadeiro terror costuma aparecer quando deixamos de confiar na realidade ou nas pessoas que vivem ao nosso redor.
