Comunistas comiam criancinhas? Não, mas também sim

Durante décadas, a ideia de que comunistas soviéticos “comiam criancinhas” circulou como uma caricatura da propaganda anticomunista, servindo mais para provocar do que para explicar qualquer fato histórico. Evidentemente, nenhum militante comunista saía por aí devorando crianças por convicção ideológica (ao menos, até onde se sabe). Mas existe um detalhe perturbador que costuma desaparecer desse debate: durante o Holodomor, a fome provocada pelas políticas do regime soviético levou milhares de pessoas a um nível de desespero tão profundo que casos de canibalismo (inclusive envolvendo crianças) foram registrados por testemunhas, sobreviventes e documentos da própria burocracia soviética. Não era propaganda. Era uma tragédia.

Entre 1932 e 1933, a Ucrânia viveu uma das maiores catástrofes humanitárias do século XX. Milhões de pessoas morreram de fome enquanto o Estado confiscava alimentos, exportava grãos e reprimia qualquer tentativa de resistência. Ao longo dos anos, o regime soviético fez um enorme esforço para esconder a dimensão da tragédia, manipulando estatísticas, censurando jornalistas e negando oficialmente que aquela fome tivesse sequer existido. Enquanto isso, famílias inteiras desapareciam, crianças morriam nas escolas e aldeias eram transformadas em verdadeiros cemitérios a céu aberto.

O Holodomor não pode ser compreendido apenas como uma grande fome. Ele foi o resultado de uma sequência de decisões políticas, econômicas e ideológicas tomadas ao longo de mais de uma década, desde a Guerra Civil Russa até a coletivização forçada promovida por Josef Stalin. Entender esse processo é compreender como um Estado que prometia construir uma sociedade igualitária acabou criando as condições para uma tragédia de proporções inimagináveis, cujas consequências ainda marcam a memória da Ucrânia e permanecem objeto de intenso debate histórico.

A primeira grande fome na Ucrânia

Embora o Holodomor tenha ocorrido oficialmente entre 1932 e 1933, suas raízes remontam ao período imediatamente posterior à Revolução Russa. Para compreender a tragédia, é preciso voltar a 1919, quando a Ucrânia se tornou palco de uma das mais violentas disputas da Guerra Civil Russa. A rebelião daquele ano foi marcada por uma sucessão de alianças improváveis, traições e massacres que evidenciaram a fragilidade do controle soviético sobre a região. Até então, Moscou enxergava a Ucrânia principalmente como uma espécie de “Rússia do Sudoeste”, valorizando sobretudo a fertilidade de suas terras.

No entanto, a revolta revelou algo muito mais preocupante para o recém-formado governo bolchevique: o potencial militar, político e ideológico do campesinato ucraniano. Ficou claro que muitos camponeses desejavam uma revolução socialista, mas rejeitavam o modelo bolchevique imposto por Moscou, transformando a Ucrânia no primeiro grande foco de uma esquerda antissoviética. A partir daquele momento, a permanência do território sob domínio soviético passou a depender, em grande medida, da repressão exercida pelo Exército Vermelho.

A situação agravou-se rapidamente nos anos seguintes. Em 1920, embora parte da Ucrânia tivesse sido pacificada, os efeitos da guerra sobre o campo foram devastadores. A escassez de mão de obra, consequência da Primeira Guerra Mundial e da Guerra Civil, somou-se às requisições compulsórias de cereais determinadas por Vladimir Lênin. Como resultado, a produção agrícola ucraniana despencou para cerca de 5% do volume habitual, provocando uma das primeiras grandes crises alimentares da União Soviética.

A fome atingiu principalmente regiões como o Sul do país, os Urais e as áreas próximas ao rio Volga, desencadeando migrações em massa e cenas de absoluto desespero. Há registros de pessoas alimentando-se de cães, gatos, ratos e até de episódios de canibalismo, além de relatos de pais que afogavam os próprios filhos para poupá-los de uma morte lenta pela fome. O jornalista norte-americano F. A. Mackenzie descreveu estações ferroviárias repletas de pessoas delirando de inanição e vivendo em condições miseráveis.

Segundo a historiadora Anne Applebaum, essa primeira onda de fome diferia significativamente daquela que devastaria a Ucrânia uma década depois. Apesar das graves falhas e da responsabilidade das políticas soviéticas na crise, o governo ainda buscava algum tipo de auxílio externo e não escondia completamente a dimensão da tragédia. Organizações internacionais enviaram alimentos para socorrer a população, enquanto o então presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover, condicionou parte da ajuda humanitária à libertação de cidadãos americanos presos em território soviético. A exigência irritou profundamente Lênin, mas, diante da gravidade da situação, o líder bolchevique acabou aceitando as condições para garantir o recebimento dos suprimentos.

Ao mesmo tempo, as próprias políticas econômicas soviéticas criavam um cenário repleto de contradições. O regime identificava os chamados “kulaks” — fazendeiros relativamente mais prósperos — como inimigos de classe e obstáculos à construção do socialismo. Contudo, essa definição era extremamente vaga e arbitrária.

O campesinato vivia um dilema permanente: produzir pouco significava enfrentar a fome e ainda sofrer com o confisco da colheita; produzir muito poderia levar à acusação de ser um kulak, tornando o agricultor alvo de perseguições, deportações ou até execução. Em muitos vilarejos, possuir dois porcos em vez de um já bastava para despertar suspeitas, enquanto rivalidades pessoais frequentemente resultavam em falsas denúncias. O medo era tamanho que, segundo diversos relatos, muitas jovens evitavam casar com homens economicamente bem-sucedidos para não se associarem a famílias consideradas “ricas”.

Foi nesse contexto que, após uma viagem à Sibéria durante o inverno de 1928, Josef Stalin concluiu que a solução para os problemas agrícolas passava pela criação de grandes fazendas coletivas. A decisão foi incorporada ao Primeiro Plano Quinquenal e marcou o início da ampla campanha de coletivização e “deskulakização”. Sob essa política, praticamente todos os chamados kulaks desapareceram enquanto categoria social. Alguns permaneceram isolados em suas comunidades, outros conseguiram fugir, mas milhões foram deportados para os campos de trabalho forçado, os famosos gulags.

Paralelamente, a coletivização provocou profundas transformações sociais. Como a propriedade privada deixava de existir, inúmeras famílias abandonaram os vilarejos em busca de trabalho nas cidades, muitas vezes deixando crianças para trás, que permaneciam sozinhas ou sob os cuidados de parentes e vizinhos, sem que seus pais jamais retornassem.

A coletivização, contudo, encontrou forte resistência em diversas regiões da Ucrânia. Muitos agricultores recusaram-se a entregar suas terras, ferramentas e animais ao Estado e optaram por destruir aquilo que possuíam antes de vê-lo incorporado às fazendas coletivas. Em 1930, multiplicaram-se os casos de camponeses abatendo deliberadamente seus próprios rebanhos ou simplesmente soltando os animais para evitar sua confiscação.

Para o governo soviético, essas atitudes constituíam atos de “sabotagem” promovidos pelos kulaks, narrativa que seria posteriormente utilizada para justificar o fracasso da produção agrícola e, em parte, as milhões de mortes provocadas pela fome que assolaria a Ucrânia nos anos seguintes. Na prática, entretanto, essas medidas aprofundaram ainda mais a desorganização do campo, preparando o terreno para o Holodomor, uma das maiores tragédias humanitárias do século XX.

“Zonzo com o sucesso”

Em março de 1930, Josef Stalin publicou no jornal Pravda o artigo “Zonzo com o sucesso”, no qual comemorava os supostos êxitos da coletivização agrícola, principal pilar do Primeiro Plano Quinquenal. No texto, o líder soviético reconhecia apenas de forma superficial alguns “excessos” cometidos durante a campanha, mas atribuía toda a responsabilidade aos dirigentes locais, isentando completamente o governo central. Não havia qualquer menção às execuções sumárias, às deportações em massa, às famílias desfeitas ou às crianças abandonadas para morrer de frio durante o processo de coletivização.

O tom triunfalista do artigo foi recebido com indignação por muitos camponeses, que conheciam de perto a realidade das fazendas coletivas. Em diversas localidades ocorreram novos protestos, rapidamente reprimidos pelo Exército Vermelho e pela polícia política, resultando em mais fuzilamentos. A instabilidade chamou a atenção de observadores estrangeiros, e relatórios das embaixadas da Turquia e do Japão registraram um clima de forte tensão na cidade de Odessa ao longo de 1930.

Ao mesmo tempo, Moscou tomou uma decisão que agravaria dramaticamente a crise agrícola. Mesmo diante da queda acentuada da produção de grãos, o governo soviético determinou que uma parcela significativa da colheita ucraniana fosse exportada para o exterior. O objetivo era obter divisas e fortalecer a moeda soviética, além de financiar o acelerado processo de industrialização promovido por Stalin.

Os dirigentes comunistas sustentavam que essa política não contrariava os princípios socialistas, argumentando que a União Soviética apenas utilizava os mercados capitalistas como instrumento para fortalecer o próprio regime. Entretanto, na prática, a exportação reduziu ainda mais a quantidade de alimentos disponível para a população local. A medida também possuía um componente estratégico na política internacional, pois contribuía para consolidar a posição da Ucrânia como parte integrante da União Soviética perante outros países.

Embora a violência da coletivização tenha desempenhado papel decisivo na deterioração do campo, os problemas não se limitaram à repressão política. Sob uma perspectiva econômica, observa-se que a substituição dos agricultores mais produtivos por estruturas coletivas administradas de forma centralizada reduziu significativamente a eficiência da produção rural. Muitos dos chamados kulaks eram justamente os produtores que dominavam as técnicas agrícolas e respondiam por parcela expressiva da produção de grãos. Com sua expulsão, deportação ou eliminação, esse conhecimento foi perdido.

Nas fazendas coletivas, os trabalhadores passaram a ter poucos incentivos para aumentar a produtividade, prevalecendo a percepção de que aquilo que pertencia ao Estado não era, na prática, responsabilidade de ninguém. Como se isso não bastasse, a safra de 1930 ainda foi prejudicada por condições climáticas desfavoráveis, com uma primavera fria e seca que afetou não apenas a Ucrânia, mas também regiões do Cazaquistão e da Sibéria.

O agravamento da crise tornou-se evidente para diversos dirigentes do Partido Comunista. Relatórios enviados a Moscou descreviam o avanço da fome tanto nas áreas rurais quanto nas cidades, alertando para o risco de um colapso social. Ainda assim, Stalin recusou qualquer recuo na política de coletivização. Além das convicções ideológicas, havia um forte componente político em sua decisão. O líder soviético havia derrotado seus principais adversários internos defendendo justamente esse programa econômico e admitir seu fracasso significaria comprometer sua própria autoridade.

Em vez de revisar a estratégia, o regime procurou encontrar culpados nos escalões inferiores da administração e alimentou a narrativa de que sabotadores, contrarrevolucionários e antigos kulaks conspiravam para destruir a economia socialista. Dessa forma, a responsabilidade pelos fracassos era constantemente deslocada para agentes locais, enquanto as decisões tomadas pelo governo central permaneciam acima de qualquer crítica.

Em 1932, porém, a situação alcançou um nível impossível de ser ignorado. A escassez de alimentos transformou-se em fome generalizada e milhares de agricultores, conscientes de que dificilmente sobreviveriam, passaram a consumir parte da própria produção antes que ela fosse confiscada pelo Estado, mesmo sabendo que poderiam ser presos ou fuzilados por isso. Muitos recorreram ao consumo de animais mortos em estado de decomposição, especialmente cavalos, cuja população havia sido reduzida drasticamente desde o início da coletivização. O colapso da pecuária agravava ainda mais a crise agrícola, comprometendo o transporte, o preparo da terra e a produção de alimentos em diversas regiões da Ucrânia.

Foi somente nesse contexto que Stalin começou a demonstrar preocupação com as consequências políticas da tragédia. Relatórios da polícia secreta informavam que membros do próprio Partido Comunista na Ucrânia estavam se recusando a cumprir integralmente as ordens vindas de Moscou diante da miséria que testemunhavam diariamente. Alguns dirigentes chegaram a abandonar seus cargos e até a deixar para trás suas credenciais partidárias, num gesto simbólico de ruptura com o regime.

Não é possível saber exatamente quais conclusões Stalin tirou dessas informações, mas os documentos indicam que ele passou a enxergar a crise não apenas como um problema econômico, mas como uma potencial ameaça ao controle político soviético sobre a Ucrânia. Essa mudança de percepção seria determinante para as medidas ainda mais severas adotadas nos meses seguintes, que culminariam no auge do Holodomor.

A grande fome

À medida que a fome se agravava, a sobrevivência passou a depender de medidas cada vez mais desesperadas. Além da escassez de alimentos, os camponeses enfrentavam uma intensa campanha de repressão conduzida por membros do Partido Comunista, que utilizavam interrogatórios violentos para forçar confissões de que grãos estariam escondidos, mesmo quando nada havia para ser entregue.

O governo também incentivava a delação entre vizinhos por meio de caixas de denúncia anônima espalhadas pelos vilarejos. Muitas acusações eram falsas, motivadas pela promessa de receber uma pequena parte dos alimentos confiscados como recompensa. Paralelamente, a caça a animais domésticos tornou-se uma prática cotidiana. Homens percorriam ruas e campos armados, abatendo cães e gatos para utilizar sua carne como alimento, numa demonstração do nível extremo de privação ao qual a população havia sido submetida.

Os efeitos da fome sobre o organismo humano eram devastadores e se refletiam no cotidiano das comunidades. Muitos sobreviventes relataram décadas depois que sequer conseguiam recordar com clareza aqueles anos, consequência tanto dos traumas psicológicos quanto dos efeitos da desnutrição severa sobre o cérebro. Professoras lembravam que crianças simplesmente desmaiavam durante as aulas e morriam sobre as carteiras antes que qualquer socorro pudesse ser prestado.

Em diversas regiões, especialmente no Donbas, as estradas ficaram repletas de corpos, em número muito superior à capacidade das autoridades de recolhê-los. Em alguns casos, pessoas que finalmente conseguiam algum alimento já se encontravam tão debilitadas que seus organismos não possuíam mais energia suficiente para realizar a digestão, levando-as à morte poucas horas depois de comer.

Foi durante a primavera e o verão de 1933 que a tragédia atingiu seu estágio mais extremo com a disseminação de casos de canibalismo. Embora o tema fosse tratado como um profundo tabu, tanto pela população quanto pelas próprias autoridades, a dimensão da fome tornava impossível impedir completamente esse tipo de ocorrência. As principais vítimas eram crianças.

Muitos pais deixaram de enviá-las à escola por medo de que fossem sequestradas, enquanto há registros de famílias que, tomadas pelo desespero absoluto, mataram os próprios filhos para utilizar sua carne como alimento. Também existem relatos de crianças que fugiram de casa após descobrirem que irmãos haviam sido assassinados com esse propósito. Até hoje, não há evidências documentais de que Moscou tenha elaborado uma política específica para enfrentar os episódios de canibalismo durante o Holodomor, apesar da existência de inúmeros relatos sobre o fenômeno.

Mesmo em meio ao colapso, alguns poucos conseguiram sobreviver graças às vacas que ainda possuíam. O leite tornou-se uma das principais fontes de alimento e também uma importante moeda de troca por outros produtos, fazendo com que esses animais passassem a ser protegidos com extremo zelo. Um dos relatos mais marcantes do período narra o caso de uma família cuja vaca foi roubada, abatida e esquartejada por vizinhos famintos; ao descobrir o crime, a mãe das crianças teria atacado o responsável e arrancado seus olhos com um ancinho.

Ainda assim, as maiores vítimas continuavam sendo as crianças. Além de sucumbirem mais rapidamente à fome, milhares ficaram órfãs e foram encaminhadas para orfanatos que rapidamente se tornaram superlotados. Nessas instituições, a escassez de alimentos era agravada pela disseminação de doenças, elevando ainda mais o número de mortes infantis durante um dos capítulos mais sombrios da história soviética.

Rescaldo e repercussão

Durante décadas, a real dimensão do Holodomor permaneceu envolta em incertezas. O próprio governo soviético manipulava os dados demográficos e pressionava estatísticos a apresentar resultados que mascarassem o impacto da fome, evitando qualquer evidência de uma mortalidade em massa causada pelas políticas do regime. Apenas após a abertura gradual dos arquivos soviéticos foi possível reconstruir um quadro mais preciso da tragédia.

Atualmente, o consenso entre grande parte dos historiadores aponta que cerca de 3,9 milhões de pessoas morreram na Ucrânia entre 1932 e 1933 em consequência direta da fome, embora durante muitos anos as estimativas variassem significativamente para mais ou para menos. A dificuldade em estabelecer um número exato é consequência tanto da destruição e manipulação de documentos quanto da política sistemática de ocultação promovida por Moscou.

O rígido controle exercido pela União Soviética sobre a imprensa dificultava que informações sobre a fome chegassem ao restante do mundo. Ainda assim, o regime não conseguia controlar completamente aquilo que era publicado no exterior. Em 1933, o jornalista galês Gareth Jones, então com apenas 27 anos, percorreu durante três semanas diversas regiões da União Soviética e testemunhou pessoalmente a devastação causada pela fome. Fluente em russo, francês e alemão, Jones já havia feito denúncias anônimas anteriormente, mas decidiu divulgar publicamente suas observações em uma coletiva realizada em Berlim. Seus relatos descreviam vilarejos inteiros tomados pela miséria, pela fome e pela repressão estatal.

A resposta soviética foi imediata: suas denúncias foram desacreditadas e tratadas como propaganda anticomunista, enquanto boa parte da comunidade internacional permaneceu em silêncio. Segundo a historiadora Anne Applebaum, esse desinteresse foi favorecido tanto pelos pactos diplomáticos que diversos países mantinham com Moscou quanto pela crescente preocupação internacional com a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha e a expansão militar do Império Japonês na Ásia. Em 1935, Gareth Jones foi morto a tiros durante uma viagem à Mongólia, aos 29 anos. Embora as circunstâncias de sua morte jamais tenham sido totalmente esclarecidas, há suspeitas recorrentes de envolvimento da polícia secreta soviética.

Dentro da própria União Soviética, o Holodomor permaneceu como um tema proibido durante praticamente toda a existência do regime. Oficialmente, a fome jamais foi reconhecida pelo governo soviético, e qualquer tentativa de discutir publicamente o assunto era reprimida. No âmbito privado, entretanto, a memória da tragédia continuou viva entre os sobreviventes. Relatos orais, diários e lembranças transmitidas entre gerações preservaram a história de milhões de pessoas que desapareceram durante aqueles anos. Uma das poucas ocasiões em que o tema apareceu de forma mais aberta ocorreu durante a invasão alemã da União Soviética, em 1941, quando a propaganda nazista explorou o ressentimento de parte da população ucraniana contra o regime de Stalin.

Inicialmente, muitos ucranianos enxergaram a chegada das tropas alemãs como uma possível oportunidade de se libertarem do domínio soviético e do trauma ainda recente da fome. Essa expectativa, contudo, foi rapidamente destruída quando a ocupação nazista revelou sua verdadeira natureza. A implementação das políticas de extermínio do Holocausto, acompanhada de execuções em massa, perseguições e novas formas de repressão, mostrou que a substituição de um regime totalitário por outro não significava qualquer perspectiva de liberdade.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o retorno do controle soviético sobre a Ucrânia, o silêncio oficial em torno do Holodomor foi novamente imposto e permaneceu praticamente intacto até a dissolução da União Soviética, em 1991. Somente a partir da independência ucraniana foi possível discutir abertamente a tragédia, abrir arquivos, ampliar as pesquisas históricas e transformar a memória do Holodomor em um dos principais elementos da identidade nacional da Ucrânia.

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