A gripe asiática de 1957: a pandemia esquecida que matou milhões

Quando se fala nas grandes pandemias da história, é comum que a memória coletiva seja dominada pela Peste Negra, pela gripe espanhola de 1918 e, mais recentemente, pela Covid-19. No entanto, entre esses acontecimentos existe um episódio que, embora tenha provocado entre 1 e 2 milhões de mortes em todo o mundo, acabou sendo praticamente esquecido pelo grande público. Trata-se da gripe asiática de 1957, uma pandemia causada por um novo subtipo do vírus influenza que se espalhou pelos cinco continentes em poucos meses e colocou à prova os sistemas de saúde de diversos países.

Apesar de sua enorme dimensão, a gripe asiática recebeu relativamente pouca atenção ao longo das décadas seguintes. Em parte, isso ocorreu porque a doença surgiu em um período marcado por acontecimentos que monopolizavam o noticiário internacional, como a Guerra Fria, a corrida espacial e as tensões geopolíticas do pós-guerra. Ainda assim, seu impacto foi profundo: além de causar milhões de mortes, a pandemia impulsionou avanços importantes na vigilância epidemiológica, na produção de vacinas e na cooperação internacional para o enfrentamento de doenças infecciosas, tornando-se um marco pouco lembrado, mas fundamental, da história da saúde pública.

Uma gripe na Guerra Fria

Em linhas gerais, a gripe asiática foi uma pandemia de influenza causada pelo vírus Influenza A (H2N2) que se espalhou pelo mundo entre 1957 e 1958. O primeiro surto conhecido surgiu no início de 1957, na província de Guizhou, no sudoeste da China, antes de alcançar rapidamente Hong Kong, Singapura e outras regiões da Ásia. Os sintomas da doença eram semelhantes aos de outras formas de influenza: febre alta, dores musculares, dor de cabeça, tosse e intensa sensação de fadiga. A maioria dos pacientes se recuperava após alguns dias, mas idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas apresentavam maior risco de desenvolver complicações, principalmente pneumonias.

Em uma época em que as viagens internacionais estavam se tornando cada vez mais frequentes, o vírus atravessou continentes em poucos meses, chegando à Europa, aos Estados Unidos, à América Latina e à África. Embora tenha sido menos letal que a gripe espanhola de 1918, a pandemia ainda provocou entre 1 e 2 milhões de mortes em todo o mundo, tornando-se uma das mais mortíferas do século XX.

Após sua identificação na China, o vírus atingiu Hong Kong em abril de 1957 e, poucas semanas depois, já havia chegado ao Japão, ao Sudeste Asiático e a diversos portos internacionais. No verão do hemisfério norte, a doença alcançou os Estados Unidos e a Europa, provocando surtos em escolas, universidades, quartéis e fábricas. Uma segunda onda, considerada ainda mais intensa em alguns países, ocorreu entre o final de 1957 e o início de 1958, elevando significativamente o número de internações e mortes, principalmente entre idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas.

Apesar da gravidade da situação, o mundo encontrava-se em condições muito diferentes das existentes durante a gripe espanhola. Os avanços da medicina permitiram que pesquisadores identificassem rapidamente o novo vírus e desenvolvessem uma vacina ainda em 1957, um feito notável para a época. Além disso, o uso de antibióticos reduziu muitas mortes causadas por infecções bacterianas secundárias, especialmente pneumonias.

Embora alguns países tenham suspendido aulas e recomendado medidas de higiene para conter a transmissão, não houve paralisações generalizadas da economia nem restrições de circulação em larga escala como as adotadas durante a pandemia de Covid-19. Ao longo de 1958, a pandemia perdeu força conforme a população adquiriu imunidade e as campanhas de vacinação avançaram. O vírus H2N2 permaneceu circulando de forma sazonal durante a década seguinte, até ser substituído, em 1968, pelo Influenza A (H3N2), responsável pela pandemia conhecida como gripe de Hong Kong.

Apesar de ter causado milhões de mortes e impulsionado importantes avanços na vigilância epidemiológica e na produção de vacinas, a gripe asiática acabou ficando relativamente esquecida na memória coletiva, ofuscada por outros acontecimentos marcantes da segunda metade do século XX, como a Guerra Fria, a corrida espacial e as crises políticas internacionais.

No Brasil

Em terras tupiniquins, a gripe asiática chegou em meados de 1957, poucos meses após o surgimento dos primeiros casos na Ásia. Favorecido pelo intenso fluxo marítimo e aéreo entre continentes, o vírus H2N2 rapidamente alcançou os principais centros urbanos brasileiros, provocando surtos inicialmente em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Em poucas semanas, a doença já havia se espalhado para outras capitais e regiões do interior.

Embora o número de casos tenha sido elevado, as autoridades sanitárias evitaram medidas drásticas de restrição e concentraram seus esforços na vigilância epidemiológica, na assistência hospitalar e em campanhas de orientação à população. Hospitais e postos de saúde registraram aumento significativo na procura por atendimento durante os períodos de maior transmissão, especialmente entre o segundo semestre de 1957 e o início de 1958.

Assim como ocorreu em outros países, a pandemia perdeu intensidade no Brasil ao longo de 1958, à medida que parte da população adquiriu imunidade e a vacinação começou a ser disponibilizada para grupos prioritários. Estima-se que milhares de brasileiros tenham morrido em decorrência da gripe asiática, embora os registros da época sejam incompletos e dificultem a determinação de um número preciso de vítimas.

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