Terminei o ensino médio aos dezessete anos com as melhores notas de minha turma e uma das melhores do ensino médio, o que dava muito orgulho aos meus pais — e também a esperança de que eu entrasse em uma faculdade federal. Não éramos miseráveis, longe disso, mas sustentar uma universidade particular não estava em nossas condições. Já havia começado a trabalhar e a juntar algum dinheiro, mas isso não iria ajudar muito no curso de engenharia. Sempre gostei de fazer planos, pois assim tinha algum controle do que poderia vir. Aprendi isso com meu pai, que chegava a passar horas de seu tempo livre fazendo planilhas no computador — não sou obcecada por organização como ele, mas ainda assim gosto das coisas em seu lugar. E meus planos para depois da escola eram bastante simples: meter a cara nos estudos para conseguir passar no vestibular, trabalhar meio período e dormir nas horas vagas.
Tudo estava como eu planejava, até conhecer Marlon. Ele foi transferido de escola na metade do ano e foi parar na minha turma. Não era exatamente o que as meninas diziam ser um garoto bonito, mas eu fiquei estranhamente fascinada por ele. Não sabia dizer em palavras o que me chamava a atenção, mas talvez fosse seu jeito espontâneo e despreocupado com que lidava com as coisas. Não era um gênio, mas estava longe de ser burro e ignorante. Tinha a pele levemente bronzeada, os cabelos pretos e cacheados, lábios finos e um sorriso que me fazia enlouquecer em silêncio.
Ele começou a falar comigo da forma de que eu mais gosto em um garoto: sem nenhum rodeio ou vergonha. Isso me encantou mais ainda. Odeio aqueles meninos que ficam com vergonha de falar com garotas e depois vão se soltando; nada disso. O que eu gosto é de homem de atitude. Ou gostava.
Digamos que eu seja uma pessoa bem resistente a relacionamentos, mesmo os mais superficiais, mas a carne é fraca às vezes. Marlon não falava apenas comigo, o que me enlouquecia. Era como se uma corda invisível apertasse meu pescoço durante todas as aulas, mas então ele vinha até mim e parecia que eu finalmente podia respirar. Seu jeito todo sem modos, sentando-se com as pernas cruzadas e os braços abertos, com sua ginga de jogador de futebol, fazia com que algo dentro de mim se remexesse e gritasse.
Aos poucos, Marlon foi falando cada vez mais comigo, “afrouxando essa corda” por mais tempo. Com o tempo, ele foi ficando um pouco mais discreto comigo, mas não a ponto de passar despercebido. Acredito que, se ele falasse bem alto o que dizia em meu ouvido, mancharia sua reputação, e eu até entendia isso. Não era o início de um relacionamento, até porque só roubamos um ou dois beijos um do outro, mas estávamos estranhamente próximos.
Era dezembro quando aconteceu aquele churrasco com os terceiros anos. Não sei se devo chamar aquilo de churrasco, pois o que menos tinha era carne, mas álcool havia em abundância, de todas as formas que se pode imaginar. Não tenho certeza de em qual condomínio aconteceu, mas sei que era o de uma colega bastante popular.
Após algumas horas, sentia-se pouco do cheiro quente da churrasqueira, que foi substituído pelo odor azedo e forte de vômito. Acho que todos, inclusive eu, vomitaram naquela noite. Se uma ressaca fosse o problema, estava tudo bem. A questão era Marlon. Ele era completamente controlado com a bebida e parecia um cavalheiro cuidando de mim durante a festa. Vários colegas nossos foram embora e ficamos praticamente sozinhos naquele salão. Até que senti o gosto azedo na garganta, então ele me levou até o banheiro.
Quando terminei de pôr todo o álcool e os aperitivos para fora, segurei o volume de sua calça ao me levantar. Isso parece um roteiro de filme pornô, mas foi assim que aconteceu. Perdi minha virgindade bêbada e em um banheiro de salão de festas do condomínio de uma colega. Agora, quando olho para trás, vejo que deveria ter colado meu ventre com supercola em vez de fazer isso, como uma vadia que eu fui.
Não tive mais notícias de Marlon logo depois da escola, e ele mesmo parecia estar me evitando na última semana. A gente precisava conversar sobre aquilo, mas ele simplesmente sumiu do mapa. Suas redes sociais foram desativadas e nenhum de seus amigos sabia de seu paradeiro. Aí a menstruação atrasou. Bom, isso era normal, sempre acontecia comigo, mas não por mais de uma semana e meia. Aquilo estava ficando esquisito, então me lembrei. A festa, o banheiro e o vômito… Santo Cristo!
Comprei cinco testes de gravidez diferentes, todos com o mesmo resultado. Foram os cinco minutos mais longos de minha vida inteira, como um tribunal no qual eu era culpada. Depois disso, veio a minha sentença de morte. Minha condenação. Meu mundo foi desmoronando, pedaço por pedaço.
Aquelas duas marquinhas mostravam a morte de tudo o que eu planejava para minha vida. Dois parasitas, um chamado Marlon e outro que crescia dentro de mim, haviam destruído tudo o que eu tinha sonhado. Deus, por que não enfiei uma rolha até o fundo do meu útero? Ou melhor, que nascesse sem essa porcaria. Afinal, só serve para destruir tudo ao nosso redor. Deus, por que isso comigo?
Contei cerca de quatro noites sem dormir. Trabalhava no modo mais automático possível, sem nenhuma vontade de viver. Cada vez mais sentia aquele parasita dentro de mim, querendo crescer e ser expelido para então arruinar de vez minha vida.
Então, depois de uma semana, como uma mensagem de um anjo, veio a resposta para o meu problema.
Eu estava olhando o meu Facebook para ver se conseguia tirar isso da cabeça por alguns minutos, pelo menos. Dezenas de links inúteis que fazem você gastar tempo de vida, mas dos quais ninguém mais vive sem. E um desses links era para um podcast de um site feminista que eu acompanhava frequentemente, sobre uma discussão a respeito da legalização do aborto e das clínicas clandestinas.
Ouvi-o inteiro, por quase uma hora e meia, e pude concluir duas coisas. A primeira delas era que o aborto ainda era um assunto muito delicado, o que fazia com que ninguém tivesse uma opinião forte sobre isso. Todos gostavam de uma polêmica, mas, quando se tratava da vida de uma criança, era mais perigoso dizer a verdade, apesar de não se importarem muito com isso.
A segunda era que essa era a solução para o meu problema.
Passei horas e horas do meu tempo livre pesquisando, levantando preços e locais. Depois de cinco dias, julguei estar bem informada e decidida. Eu havia guardado cerca de mil e quinhentos reais para minhas férias, mas agora esse dinheiro tinha outro destino. Um procedimento desses custava entre cento e cinquenta e dois mil reais. Eu tinha consciência do risco que estava correndo, mas, se eu morresse ou ficasse estéril, pelo menos não iria mais ter que me preocupar com nada.
Separei mil reais da minha reserva e marquei um horário em uma clínica na cidade vizinha. O endereço era bem difícil de encontrar, pois ficava em uma parte bastante suburbana da cidade, mas consegui. Era uma casa aparentemente sem nada demais, com pintura verde-limão e um pequeno pátio de entrada. Em frente ao lugar, havia o que eu julgava ser o maior pastor-alemão que vi em toda a minha vida. Ele estava deitado tranquilamente e apenas me observou tocar a campainha. Quem me atendeu foi uma mulher baixinha e gorda, com um longo vestido florido e Crocs brancos. Ela sabia quem eu era, e aposto que estava me esperando. Adentrei o lugar.
Casa por fora, clínica médica por dentro. Era um lugar muito limpo, com uma temperatura gelada e um leve aroma de lavanda. A mulher me conduziu a uma sala onde havia uma maca e toda aquela parafernália médica de que não faço ideia do que seja. Fiz o pagamento para ela ali mesmo, então ela me deu uma bata verde para vestir.
Depois de cinco minutos, a mesma mulher gorda e baixinha veio com duas pessoas. Uma delas era o que eu julgava ser um cirurgião, alto e com o rosto coberto pela máscara cirúrgica e aquela touca que sempre achei engraçada. A segunda era uma mulher impressionantemente formosa, com os seios fartos e a cintura fina. Essa devia ser a auxiliar.
Novamente, isso parecia roteiro de filme pornô.
Então eles me cumprimentaram e mandaram que eu me deitasse. Eu li durante minhas pesquisas que esse procedimento dura, em média, vinte minutos, mas contei cerca de quarenta e cinco. Talvez estivessem tendo alguma complicação, ou então estivessem fazendo um trabalho caprichado. Esperava que fosse a segunda opção.
Depois daquele tempo em que fui violada pela segunda vez, ouso me lembrar de algo saindo aos pedaços de dentro de mim. Tentei ignorar isso, mas, a cada parte que saía, eu me sentia estranha.
Então, o homem alto disse que tinha terminado. O procedimento tinha ocorrido sem complicações e tudo estava acabado. Eu podia mandar um e-mail se tivesse alguma dúvida ou se ocorresse alguma complicação depois, que eles me dariam instruções em menos de duas horas.
Aparentemente estava acabado. Enquanto tomava o ônibus para minha cidade, fechei os olhos e tentei relaxar. Poderia deixar tudo isso para trás e seguir em frente. O vestibular para a federal seria em breve, e eu estava perdendo tempo de estudo. Agora não tinha nada com que me preocupar.
Tudo isso só tinha sido um grande pesadelo de algumas semanas.
Como eu me enganei pensando nisso…
Naquele mesmo ônibus, tive meu primeiro pesadelo. Aquele cachorro no pátio da casa, o mesmo pastor-alemão colossal, estava comendo em um pesado pote de ferro. Seu focinho estava sujo de um molho vermelho, e sua fúria ao devorar a refeição era assustadora. Aproximei-me passo a passo do cachorro, então ele saiu de perto. Recostou-se em sua casinha e adormeceu quase instantaneamente. O pote estava banhado em sangue grosso e, a princípio, tive dificuldade de reconhecer o que era aquilo que ele comia. Havia vários pedaços de uma pasta de carne que começou a chorar entre os vincos quando cheguei perto do pote! Acordei engolindo um grito, e os poucos passageiros do ônibus me olharam rapidamente. Faltavam apenas duas paradas para descer, então me pus de pé.
Meu pai estava trabalhando, e minha mãe usava o banheiro quando cheguei em casa. Disse a eles que provavelmente iria demorar, mas cheguei pouco antes das seis e meia da tarde. Só estava preocupada em não ter febre ou alguma hemorragia, pois, em minha covardia, acabaria contando o que fiz.
O que, de certa forma, não me arrependia até então.
Sentia um pouco de desconforto, como se tivesse entrado um cabo de enxada em mim, mas não tive nenhum dos sintomas que me disseram. Nem febre, nem sangue. Os caras eram bons, valeu a pena gastar mil reais nisso. Porém, algo não estava certo.
O segundo sonho ruim veio naquela mesma noite, mas não sei dizer se era um pesadelo. Eu estava no banheiro. A luz estava fraca, pois minha mãe se esqueceu de comprar lâmpadas novas. O que eu mais temia naquele momento era que aquela porcaria queimasse e me deixasse no escuro. Resolvi me apressar para que isso não acontecesse.
Ao me levantar do vaso, notei uma pequena gota de sangue na água. Verifiquei, mas não havia sangue nenhum em mim. Olhei novamente para o vaso e, dessa vez, havia três gotas. Pisquei, e havia uma pequena poça de sangue. Pisquei novamente, e o sangue escorria de onde saía a água da descarga, manchando a porcelana branca e fazendo tudo borbulhar.
Pedaços de um feto começaram a emergir do cano, boiando em todo aquele sangue que transbordava. Um pequeno projeto de tronco e cabeça, sem o abdômen para baixo, abriu aqueles olhos asquerosos e alienígenas para mim e começou a chorar. Um choro de bebê que mais parecia um grito horrendo e gutural, que se misturava aos meus.
Meus pais vieram logo em seguida e me encontraram caída no chão. Ajudaram-me a levantar e, quando olhei para o vaso, não havia nada lá! Meu pai me olhou com a cara torta, como se soubesse que havia alguma coisa de errado comigo. Esse é o grande problema dos pais: eles te fizeram e te conhecem melhor do que você mesma. Mas aquele jeito que meu pai me olhava fazia com que eu quisesse confessar tudo.
Disse que tinha dormido enquanto usava o banheiro e que devia ter tido um pesadelo. Eles me deram um calmante e voltaram para o quarto. Acho que eu cortei o clima deles de alguma forma, pois era raro meu pai estar sem camisa.
Dormi sem nenhum sonho naquela noite. Quando acordei, parecia que minha cabeça estava do tamanho de uma caixa-d’água, com meu cérebro em estado líquido e chacoalhando. Verifiquei mais uma vez lá embaixo e, aparentemente, estava tudo em ordem. Mas, se estava tudo bem fisicamente, por que isso ainda me atormentava? Eu ainda estava com a mesma sensação de estar grávida, mas senti aquela coisa saindo aos pedaços de mim.
Deus do céu, eu precisava tirar isso da cabeça.
Agora que o colégio tinha acabado, eu podia trabalhar em tempo integral. Embora meus pais quisessem que eu focasse mais nos estudos, queria ajudar em casa mesmo assim. Eu era inteligente, podia conciliar as coisas. Ou não. Uma semana depois daquilo, estava estudando biologia no meu quarto. Eram nove e quarenta da noite, e o sono estava chegando. Resolvi ler mais um pouco e ir dormir, mas o que eu vi em meio aos meus cadernos me tirou o sono.
Virei uma página para fazer uma observação, mas aquela folha estava ocupada. Em grandes letras infantis, com giz de cera vermelho e com um rosto triste logo abaixo:
“POR QUE FEZ ISSO COMIGO?”
Depois de conferir aquilo dezenas de vezes, puxei as folhas e as joguei na privada. O que era aquilo, meu bom Jesus?! A sensação de pavor me acompanhou por dias, e não somente por aquela mensagem dos infernos. Toda vez que tentava dormir, algo terrível vinha ao meu ouvido e gritava. Era uma voz infantil, rouca e chorosa que tentava conversar comigo. Eu sentia que era uma menina falando, mas apenas podia ouvi-la na escuridão do meu quarto. Tudo o que ela falava era entre um choro apavorante e angustiado. Só fazia perguntas, às quais eu não conseguia responder.
“Por que você tem medo? O que é esse vidro?”
No começo, achei que fosse apenas um pesadelo. Um grande pesadelo acordada, mas então meus ouvidos zuniam em agonia com os gritos. Aquilo não era um simples pesadelo.
Depois de um tempo, eu só conseguia dormir dopada ou depois de beber muito. Todo dia, depois do trabalho, eu passava em um mercado próximo e comprava alguma bebida, da mais barata e da mais forte. A dor de cabeça no outro dia era terrível, e minha garganta parecia que tinha degustado cera de depilação. Eu arrotava azedo o resto do dia, mas essa era a única forma de conseguir algum descanso.
Antes, aquela voz apenas vinha quando eu estava prestes a dormir, mas, depois de algum tempo, suas mensagens passaram a vir durante o dia também. Como havia dito, passei a ter o costume de ir ao mercado comprar bebida na saída do trabalho. Em uma dessas ocasiões, minha mãe ligou e pediu que eu trouxesse molho de tomate, que havia faltado para a janta. Alguns de nossos parentes iam passar em casa, mas eu não estava nem um pouco animada com isso.
Enquanto saía do mercado, um maldito cachorro passou correndo por mim e quase caí no chão. Deixei cair as sacolas, e todo o molho de tomate se esparramou na calçada. Daquela pasta vermelha e grossa, como em um teste de borrão de tinta, um rosto triste e distorcido se formou no meio daquele vermelho. Aquele mesmo rosto triste do giz de cera.
Não me dei ao trabalho de juntar minhas coisas e saí a passos rápidos. Todos ao meu redor me olhavam com expressões de dúvida. Queria que um raio caísse na cabeça de todos eles! Não bastava rezar para meu Deus; afinal, aquilo era o inferno. Acho que só o diabo podia me salvar daquela loucura.
Cheguei em casa e corri para o quarto. Tranquei a porta e tentei ligar as luzes, mas elas não estavam funcionando. Deitei-me e pus os fones de ouvido, sabendo que aquela maldita voz iria começar a me sussurrar, mas foi inútil, pois ela veio falar comigo pelos fones desta vez! Estava tão em choque que não tive forças para tirá-los. Apenas fiquei ouvindo o choro rouco de menina me encher de perguntas.
As horas se passaram, e meus ouvidos estavam zunindo. Às vezes, meus pais vinham até a porta e tentavam falar comigo, mas eu os mandava embora logo em seguida. Isso iria me complicar, mas pouco importava. O que eu mais queria era ficar sozinha naquele momento, mas havia um choro na minha cabeça.
“Por que você tem medo? Por que você bebe?”
Eram duas da manhã quando eu acordei de um sono leve. Senti na pele do rosto e no nariz o que parecia ser o próprio diabo vindo até mim. Um hálito quente como um forno e cheirando a ferro e podridão. Isso me rendeu um grito de desespero, e corri para fora do quarto e de casa.
Eu estava descalça e somente com uma roupa leve, mas fazia frio para uma noite de verão. Andei e andei pelas ruas, como uma drogada e delinquente. Já tinha se passado uma hora desde que saí de casa e não sabia mais como voltar. Estava em uma grande avenida deserta, com poucos carros passando de vez em quando.
Sentei-me no chão e chorei. Fazia muito tempo que eu não chorava, nem mesmo quando tudo isso aconteceu. Não sou fraca a esse ponto. As lágrimas escorreram de meus olhos como uma cachoeira. O que eu tinha feito, meu Deus?
Ouvi passos vindos em minha direção. Olhei para o lado e lá estava ele. Aquele mesmo pastor-alemão colossal e com o olhar gentil. Ele trazia na boca uma sacola plástica, como aquela que derrubei na saída do mercado. Nunca tive cachorros ou gatos, mas eu sentia por aquele cão algo estranho. Era como se ele fosse o único que me entendia.
Então verifiquei o que havia dentro daquela sacola. Estava fresco e ainda conservava algum calor. Eram apenas pedaços, e não sabia dizer o que era o quê naqueles pequenos cotocos de corpo.
Por mais estranho que pareça, não me assustei. Na verdade, foi um certo conforto ver aquilo. Parecia ser a única coisa real naquele inferno. E aquele cachorro era o diabo que veio me julgar, e o projeto de corpo aos pedaços naquela sacola plástica, o meu pecado.
Um carro estava vindo muito rápido pela avenida. Em um momento de delírio, acreditei que o motorista estivesse bêbado. Agarrei com força a sacola e esperei. Não demorou muito, mas pareceu uma eternidade.
Mas eu esperei. Fechei os olhos e apenas o som do motor me conduziu. Ouvi o som de uma buzina e a sensação de uma coisa pesada batendo e me arrastando pelo asfalto, mas meus olhos continuaram fechados. Não tenho como explicar como era a dor que escorria por todo o meu corpo, mas era algo que eu precisava sentir. A sacola ensanguentada ainda estava em minha mão; eu não conseguia me soltar dela nem diante da morte. Ela era meu tributo, como as moedas que os gregos colocavam nos olhos dos defuntos nos funerais.
Esperava o barqueiro vir me buscar, em um rio de sangue e lágrimas, para lhe pagar com meu crime e o castigo que havia naquela sacola plástica de mercado. Estava tudo escuro, mas esperei, esperei e esperei. Levou algum tempo, mas continuei esperando, como quando segui o som do carro.
…
Nota do autor: sim, eu tenho consciência de que o “Gabriel Mattos do Velho Testamento” era meio estranho. Mas mesmo assim quis reaproveitar essa história.
