“Insaciável”: a cultura do emagrecimento no horror contemporâneo

Desde o sucesso de “A Substância”, estamos vivendo uma tendência: a de usar o body horror como mensagem subjetiva voltada para a estética feminina. A cineasta Natalie Erika James, que já usou o terror para falar sobre demência em “Relic”, agora utiliza essa tendência para abordar a cultura do emagrecimento em “Insaciável”.

Na trama, acompanhamos Hana, uma estudante de medicina que, na busca para perder peso, passa a consumir pílulas milagrosas. Tudo muda quando ela descobre que o ingrediente dessas pílulas são cinzas humanas e passa a ser assombrada por uma entidade faminta.

Como normalmente o foco está no envelhecimento, ao passar para o emagrecimento a diretora se permitiu explorar novas nuances do terror corporal. Tirando proveito do design de som, o longa foca bastante na angústia que o ato de comer se torna diante da ansiedade da protagonista. Em nenhum momento, o alimento é fonte de prazer, mas sim de compulsão.

Essa visão ganha força com o desenvolvimento de Hana ao longo da trama, à medida que o longa explora seu passado e sua personalidade. Apesar de sacrificar a duração da obra, tornando-a mais longa que o necessário.

No que diz respeito à assombração, temos aqui uma ousada decisão de fazê-la a única ameaça do filme, tendo em vista que a metáfora muitas vezes se sobrepõe ao terror, mas que utiliza uma imagem obesa e grotesca que representa tudo aquilo de que Hana deseja escapar. Algumas decisões questionáveis tiram um pouco o foco, como maquiagens e próteses grosseiras e a falta, na direção, de explorar mais o que poderia ser um terror psicológico ou aquilo que poderia ser real.

Fora isso, o longa se beneficia da inteligência de sua protagonista e da consistência do tema apresentado. Uma vez que Hana levanta suas próprias teorias e as coloca em prática, isenta-se a necessidade de personagens que seriam apenas recursos expositivos de roteiro ou da famigerada cena de pesquisa na internet, em que se encontram todas as respostas. Tal decisão é acertada para manter a dinâmica do longa, mas abre espaço para certas conveniências, seja por acertos ou erros de Hana.

“Insaciável”, como um body horror, fica devendo nos requisitos de gore e de modificação extrema, mas segue para um lado mais aflitivo ao se aproveitar de seu tema central. Como um filme de assombração, ele cria suas próprias regras, fugindo de clichês de outros fantasmas. Ainda que priorize a metáfora acima da consistência, acompanhar a protagonista em fuga de um fantasma que representa não apenas o medo da obesidade, mas também de seu passado e futuro, é uma forma original e divertida de se contar essa história.

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