“Mapas Estranhos”: quando a ambição do autor pesa contra a história

Há algo particularmente interessante na maneira como Uketsu transforma coisas banais em fontes de estranheza. Uma planta de uma casa, um desenho, uma fotografia ou até mesmo um mapa podem esconder informações que passam despercebidas à primeira vista. É explorando essa ideia que o autor japonês construiu uma série de livros que brinca com o suspense, a investigação e a interpretação de pequenos detalhes. Depois de “Imagens Estranhas” e “Casas Estranhas”, “Mapas Estranhos” dá continuidade a esse universo, mas também tenta ampliar seus horizontes.

Desta vez, o leitor reencontra Kurihara, já conhecido pelos livros anteriores, em uma história que mistura uma investigação no presente com acontecimentos ocorridos décadas antes. O que começa como uma análise comum de mapas e documentos antigos gradualmente se transforma em uma trama envolvendo memórias familiares, segredos enterrados e acontecimentos cuja verdadeira natureza só pode ser compreendida quando diferentes peças são colocadas lado a lado.

Como nos trabalhos anteriores de Uketsu, a diversão está menos em receber respostas imediatamente e mais em tentar descobrir o que existe escondido nos detalhes.Mapas Estranhos”, porém, também representa uma mudança para o autor, principalmente por dedicar mais espaço ao desenvolvimento de seus personagens e às relações entre eles. O resultado é uma obra que mantém a identidade peculiar da série, mas que também expõe algumas das virtudes e limitações dele como escritor.

A juventude do arquiteto Sherlock Holmes

Em “Mapas Estranhos”, reencontramos Kurihara, o arquiteto-detetive que já havia aparecido em “Imagens Estranhas” e “Casas Estranhas” volumes 1 e 2. Desta vez, porém, Uketsu volta no tempo para apresentar uma versão mais jovem do personagem, recém-formado em arquitetura e ainda lidando com sua personalidade excessivamente sincera. Inicialmente, parece que essa característica poderia ter criado uma relação complicada com sua família, mas o autor quebra essa expectativa ao mostrar que Kurihara possui uma boa relação com a família. Seu pai, apesar de ter uma personalidade bastante diferente, admira a inteligência do filho, enquanto Kurihara reconhece no pai uma habilidade que ele próprio não possui: a capacidade de lidar com outras pessoas. É uma dinâmica familiar surpreendentemente saudável para um livro desse tipo e uma demonstração de que Uketsu tem potencial para construir relações humanas com mais sutileza do que seus trabalhos anteriores faziam parecer.

Essa evolução também aparece na própria forma de escrever. Embora “Mapas Estranhos” preserve algumas características reconhecíveis de Uketsu, a narrativa adota uma estrutura de prosa mais tradicional. Em seus outros livros, as descrições são econômicas e os diálogos frequentemente começam com o nome do personagem, dando à leitura uma aparência próxima de um roteiro ou peça de teatro. Aqui, o autor trabalha com uma narrativa mais convencional, dividida principalmente entre a investigação conduzida por Kurihara e as memórias de sua avó materna, Kimiko Okigami — ou, pelo menos, é isso que somos levados a acreditar durante boa parte da história. A economia de palavras continua presente, mas, na maior parte do tempo, as descrições são suficientes para construir as cenas sem prejudicar o ritmo.

O problema é que Uketsu continua recorrendo a uma de suas maiores fraquezas narrativas: a conveniência do roteiro. Em diversos momentos, “Mapas Estranhos” transmite a sensação de uma espécie de visual novel na qual existem vários caminhos possíveis, mas o autor já sabe exatamente quais acontecimentos precisam ocorrer para conduzir o jogador até o final desejado. Um exemplo evidente acontece quando Kurihara visita as ruínas do vilarejo onde sua avó cresceu e, quase por acaso, encontra justamente a casa onde ela viveu e livros que carregam seu nome. Pouco depois, surge outra pista indicando que há algo errado com as memórias da mulher, que supostamente havia cometido suicídio. Esse tipo de coincidência se repete ao longo da história e acaba reduzindo justamente aquilo que Uketsu costuma fazer melhor: a sensação de tensão e estranheza. Em alguns momentos, o leitor simplesmente deixa de temer pelo destino dos personagens porque percebe que o roteiro sempre encontrará uma maneira conveniente de colocá-los no caminho certo.

A estrutura da investigação também lembra “Os Assassinatos do Zodíaco de Tokyo”, de Soji Shimada, principalmente por envolver a reconstrução de um acontecimento ocorrido décadas antes. Uketsu, entretanto, acrescenta uma segunda camada ao conectar essa investigação com acontecimentos no presente. A ideia é interessante, mas a ligação entre as duas linhas narrativas novamente depende mais de conveniências do roteiro do que de uma construção realmente orgânica. Ainda assim, “Mapas Estranhos” continua sendo uma leitura divertida e mostra um Uketsu disposto a experimentar mais com seus personagens. Até o posfácio segue essa brincadeira: o autor faz uma espécie de autoinserção e afirma que escreveu a história a pedido do próprio Kurihara, que supostamente existiria no mundo real, acrescentando que o relato talvez contenha “muitos exageros”. É uma maneira bem-humorada de encerrar o livro, mas também soa como uma desculpa despretensiosa para as próprias liberdades narrativas que o autor tomou ao longo da história.

Um livro consideravelmente mais limitado

Ao contrário de outros livros em que Kurihara aparece, aqui temos uma noção muito maior de como ele se relaciona com as outras pessoas. Embora não seja exatamente uma pessoa ruim, sua frieza e sua lógica fazem com que aqueles ao seu redor se afastem. Em determinado momento, por exemplo, ele não demonstra o menor tato ao dizer a uma garota que acredita que seu pai seja um assassino. O próprio Kurihara percebe que foi insensível, relacionando esse comportamento a um trauma de infância: sua mãe morreu durante o parto da irmã caçula, e ele passou a temer que, em algum momento, pudesse acabar culpando a própria irmã pelo ocorrido. É uma informação interessante para compreender o personagem, mas o problema é que esse núcleo é apresentado de maneira muito rápida, quando poderia ter recebido um desenvolvimento muito maior.

Há, portanto, um esforço evidente de Uketsu para acrescentar complexidade ao psicológico dos personagens, mas esse esforço também revela algumas limitações de sua escrita. Dentro da personalidade fria e obstinada de Kurihara, seus momentos de fragilidade e exposição acabam soando quase piegas e não convencem tanto quanto deveriam. Por outro lado, é interessante perceber que o autor demonstra consciência dos clichês que poderiam surgir dessa construção. A relação entre o protagonista e uma das personagens secundárias, por exemplo, poderia facilmente ter se transformado em um romance água com açúcar, mas Uketsu evita esse caminho e mantém a dinâmica entre os dois muito mais interessante.

Uma das principais fragilidades de “Mapas Estranhos”, especialmente quando comparado a “Imagens Estranhas” e “Casas Estranhas — vol. 1”, está na construção da trama. Nos dois livros anteriores, as histórias são complexas e angustiantes, mas funcionam porque, por mais absurdos que sejam os acontecimentos, eles seguem uma sequência relativamente simples e lógica. Já aqui, a história é cheia de curvas, reviravoltas e mudanças de direção. O curioso é que essa complexidade, em vez de aumentar a tensão, muitas vezes produz o efeito contrário: a narrativa deixa de ser angustiante e passa a ser cansativa.

Ainda assim, seria injusto considerar “Mapas Estranhos” um fracasso. O maior desenvolvimento das relações interpessoais representa uma novidade dentro da série e mostra que Uketsu está tentando expandir seus personagens para além das engenhocas narrativas que sustentam suas histórias. O problema é que, ao tentar fazer isso ao mesmo tempo em que constrói uma trama mais ambiciosa, o autor acaba sobrecarregando o livro. Talvez “Mapas Estranhos” funcionasse melhor se fosse um pouco menos ambicioso: uma história mais simples, mas igualmente estranha, permitiria que seus personagens respirassem e que suas reviravoltas tivessem o impacto que o autor claramente pretendia alcançar.

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