Recentemente, na internet, me deparei com uma campanha viral de um programa infantil chamado “Buddy”. A campanha consiste em um canal no YouTube e perfil em redes sociais, com vídeos e shorts de um programa educativo ao estilo de “Barney e seus amigos”.
Porém, a grande questão é que essa campanha se trata do marketing de um filme chamado “Buddy”, um longa de terror slasher que em breve trataremos aqui para vocês. Mas isso me fez pensar em como o terror se beneficia desse tipo de imersão e também em como não é exatamente algo recente.
Antes das redes sociais e das campanhas virais modernas, alguns filmes descobriram que uma das formas mais eficientes de assustar o público era convencê-lo de que aquilo que estava vendo poderia ser real.
“Holocausto Canibal”: o documentário proibido

O caso desse longa de 1980 é curioso, pois não precisou de campanhas voltadas para o marketing para convencer o público.
Na história, vemos o que aconteceu com uma equipe de documentaristas desaparecidos na Amazônia e de uma segunda equipe que foi até o local e encontrou as filmagens do ocorrido.
O aspecto cru das filmagens e o deliberado “desaparecimento” dos atores na mídia ajudaram a sustentar o mito de que as filmagens eram reais, chegando ao ponto de o diretor, Ruggero Deodato, precisar provar em tribunal que os atores estavam vivos.
O filme construiu sua própria ficção de maneira tão convincente apenas com a sua execução, sem precisar de internet, apenas se aproveitando do formato documental.
“A Bruxa de Blair”: o golpe de marketing perfeito

Aqui, sim, nós temos uma estratégia de divulgação que ajudou a espalhar o mito. O marketing começou antes de o filme se tornar um fenômeno. Os criadores desenvolveram uma mitologia completa para a Bruxa de Blair e criaram um site que não funcionava simplesmente como uma página promocional; funcionava como um arquivo de divulgação.
Com isso em mente, quando o público foi ao cinema ver uma história sobre jovens desaparecidos em uma floresta e se deparou com um longa no estilo found footage, tudo culminou no convencimento de que aquilo era real.
“Ghostwatch” e “Alien Abduction”: a era da TV

Esses dois casos são muito parecidos.
Ghostwatch foi um especial da televisão britânica, exibido pela BBC, em que apresentadores reais investigavam uma casa mal-assombrada.
Enquanto isso, Alien Abduction foi uma produção norte-americana da UPN. Aqui, acompanhamos a fita de uma família desaparecida e seus contatos com supostos alienígenas.
Os dois casos se tratam de especiais televisivos que se aproveitaram da confiança do público na TV aberta. O mais engraçado é que, nos dois casos, os programas apresentaram cartelas de conteúdo ficcional, levando a crer que os boatos de que eram reais vieram de um público que surfava pelos canais.
De Holocausto Canibal até as campanhas virais modernas, a forma como o terror tenta borrar a linha entre ficção e realidade mudou junto com os meios de comunicação. O que antes podia ser feito através de um formato documental ou de uma transmissão televisiva, hoje encontra nas redes sociais um espaço ainda maior para construir essa ilusão.
Afinal, quando uma história ultrapassa a tela e passa a existir em sites, programas de televisão, redes sociais ou até mesmo em conteúdos aparentemente inocentes do YouTube, o público deixa de apenas assistir ao terror e passa a participar dele. Talvez seja justamente esse um dos maiores poderes desse tipo de campanha. Por alguns instantes, não importa se sabemos que existe um filme por trás de tudo. A dúvida já foi plantada.
E no terror, às vezes, basta uma pequena dúvida para que a ficção pareça muito mais assustadora do que deveria.
