Entre muitos altos e baixos em sua carreira, o cineasta Eli Roth encontrou na violência gráfica uma forma de consolidar seu público. Claro que, vez ou outra, algumas joias surgem, como “Feriado Sangrento” e “O Albergue”. Infelizmente, seu último longa não é uma delas. Em “O Sorveteiro”, um verão tranquilo em uma cidade litorânea se transforma em um pesadelo sangrento quando um vendedor misterioso passa a distribuir picolés e sorvetes amaldiçoados.
Roth já havia dito que este seria o projeto mais brutal de sua carreira, e, de fato, violência ele entrega. O longa está cheio de cenas violentas com mortes inventivas, fruto de crianças manipuladas pelo tal sorvete.
Entre próteses, sangue falso e um pouco de CGI nesses segmentos, existe uma necessidade de afirmação no tema infantil. Ou seja, a partir disso, torna-se obrigatório que brinquedos se transformem em armas fatais, fazendo sentido ou não.
Aliás, sentido é algo que o longa parece buscar. No meio de tantas cenas de morte, que mais parecem esquetes seguidas umas das outras, temos o absurdo de uma pilha de corpos onde um personagem morre, outro chega para ver o que aconteceu e morre no mesmo instante. Isso acontece umas três vezes na mesma cena. Roth parece esquecer que precisa de uma história para amarrar tudo.
História e roteiro, já que seus personagens são verdadeiros robôs unidimensionais que, quando não servem apenas para apresentar um traço de personalidade ou fazer uma piada fora do tom, são claras exposições baratas.
A trama do longa se apresenta por volta dos 50 minutos de rodagem. Até então, o que temos são sequências de morte seguidas de exposição. Quanto a isso, o roteiro faz algo quase inédito: consegue ser expositivo justamente durante as cenas de morte, que são o principal ponto de sustentação do filme. Em determinada parte, uma menina atira com uma arma de água em seu pai, que prontamente nos informa: “Você está me molhando com gasolina”.

Como se todos esses percalços não fossem suficientes, tudo piora com o uso de inteligência artificial. Eu diria que o recurso é até aceitável em uma curta sequência de animação que temos aqui, mas, quando é usado para ilustrar acontecimentos que um personagem narra, não passa de pura preguiça, algo que, em nenhum nível, deveria ser tolerado.
O que impede “O Sorveteiro” de ser uma nota zero é o final, que possui uma reviravolta interessante. Ainda assim, mesmo que você se divirta com as cenas de gore, a violência sem sentido acaba sendo apenas vazia. Tão vazia quanto a visão artística de um realizador que não se importa em corrigir o prompt para sua IA não fazer um coveiro cavar uma cova do lado errado da lápide.
Podemos estar diante do primeiro longa feito por IA. Sem alma e sem vida, um enorme buraco negro de falta de criatividade.
