Em 2020, o cineasta polonês Jan Komasa ganhou destaque quando um de seus longas, “A Rede do Ódio”, chegou ao catálogo da Netflix. Anos depois, agora em 2026, seu primeiro longa em terras hollywoodianas é uma pérola que chegou tímida ao Prime Video. “O Aniversário” contém uma crítica sociopolítica nada sutil, mas não menos desconfortável.
Durante o aniversário de casamento de seus pais, o jovem Josh os apresenta sua nova namorada, Liz. Com o passar do tempo, Liz se torna o pivô de uma revolução política no país, e acompanhamos a deterioração da família em várias datas comemorativas através dos anos.
Antes de mais nada, o elenco é estelar demais para se deixar passar em branco. Cada membro da família representa um posicionamento diferente. O foco aqui é na matriarca Ellen, vivida por Diane Lane, e em sua nova nora, Liz, vivida por Phoebe Dynevor.

Logo no início, nos é revelado que Liz já foi aluna de Ellen na faculdade. Liz foi reprovada, pois apresentou uma tese considerada antidemocrática por parte de Ellen. A tese em questão é sobre os benefícios de um partido único.
Nessa questão política, Komasa acerta em não ser muito claro para evitar posicionamentos. Nada é tão simples quanto direita e esquerda. O mesmo personagem pode ter ideias divergentes e não ser tratado como furo de roteiro, apenas como a complexidade da reflexão de ideias. Também se evitam aqui bandeiras partidárias, para que a identificação não seja imediata e nos foquemos nas consequências do extremismo.
É nesse ponto que chegamos ao tema do filme: o mal do extremismo. Liz é tratada como a personificação de como o extremismo entra na vida das pessoas, de maneira sorrateira, inofensiva, plantando pequenas ideias para que se deem soluções simples para problemas complexos e apontando o dedo para possíveis causas de um mal coletivo, para que as pessoas tenham o que odiar.
É nessa ideia que o longa consegue buscar o desconforto. Ao acompanharmos a vida da família em determinadas datas, ano após ano, vemos, a longo prazo, as consequências de tais pensamentos. O discurso de ódio e a propagação de fake news são tratados como algo gradual, com a desculpa de que o mal será expurgado.
Nesse momento, o cenário é quase apocalíptico. Conforme o longa avança, a casa da família vai ficando vazia, o comportamento mais paranoico e conseguimos acompanhar esses efeitos de larga escala através de nossos protagonistas.
“O Aniversário” é um daqueles filmes de terror psicológico em que algo pequeno se torna maior até suas consequências serem irreversíveis. De fato, o que ele tem de mais perturbador é o fato de pensar que algo se infiltra na vida das pessoas de forma tão elegante e pode corromper qualquer um, destruindo uma família unida ou instaurando um regime totalitário em um país.
A comparação pode parecer exagerada, mas o longa traça esse paralelo danoso em larga escala e em algo mais íntimo, como o seio familiar.
