Esse homem recebeu pizzas por causa de seu arroba

Vamos imaginar, por um momento, que você está em casa em uma noite de sexta-feira, quando um entregador de pizza aparece na sua porta. Parece algo normal, mas há um problema: ninguém pediu pizza em sua casa. “Ok, deve ter sido apenas um engano na hora de fazer o pedido e colocaram o endereço daqui”, você pode pensar. Porém, ao longo da mesma noite, outros dois entregadores de diferentes restaurantes continuam tentando fazer entregas em sua casa. Nos próximos dias, o problema persiste.

Isso pode soar suspeito ou até mesmo divertido, dependendo da situação, mas uma pessoa passou por isso e contou no episódio 97 do podcast The Darknet Diaries. Miles, o pseudônimo do protagonista, revelou que, devido ao seu nome de usuário na internet, sua vida virou um inferno. Ele é um web designer de longa data, que possui filhos com a ex-mulher e mora com a namorada – essas informações vão ser importantes mais adiante para entender os desdobramentos.

A história começa no início das principais redes sociais que temos atualmente, como Twitter e Instagram. Miles havia aproveitado o início da vida desses sites para colocar um nome de usuário simples e que, atualmente, é bastante raro. Para proteger sua segurança, o programa não revelou qual era o usuário, mas seria algo como um arroba seguido do nome de um animal, como elefante, gato ou cachorro. Como se pode imaginar, um nome de usuário como “@Rato” é algo bastante raro, assim como um domínio de nome simples. Inclusive, existe todo um negócio online voltado justamente para a criação e compra desses registros, pois há a possibilidade de que algo assim possa valer dezenas ou centenas de milhares de dólares em algum momento do futuro – a título de curiosidade, a compra de domínios simples era bastante comum nos anos 1990.

Contudo, este não era o caso de Miles. Ele era apenas alguém que, por acaso, deu a sorte de ter criado suas contas nas redes sociais quando elas ainda estavam surgindo. O convidado ainda destaca que, devido à raridade, já pediram para comprar sua conta mais de 150 vezes ao longo dos anos. Ele também admite que provavelmente nem todas as conversas que teve foram legítimas e talvez se tratassem de engenheiros sociais tentando levantar informações a respeito dele. Em meados de 2016, uma conversa por direct do Instagram parecia muito séria a respeito disso e, em dado momento, ele sugeriu que continuassem a conversa por telefone e acabou dando seu número para a pessoa.

E esse simples ato possivelmente levou toda a sua vida à situação que motivou o episódio.

Dias depois, enquanto dirigia seu carro, o celular de Miles deixou de funcionar, e ele achou isso estranho e suspeito. Ele ligou para a companhia telefônica questionando sobre a situação, e a atendente informou que havia sido solicitada a troca de informações do cartão SIM de seu celular horas mais cedo. Só que Miles não havia feito isso. Para quem não sabe o que é isso, basicamente, dentro de todos os celulares há um pequeno cartão chamado cartão SIM, que serve para ativar o telefone na rede. Muitos hackers e golpistas se aproveitam desse método para clonar o telefone de um alvo e se passar pelo verdadeiro dono. Outro risco disso é a perda de outras contas, como as de e-mail e redes sociais, uma vez que, através de seu telefone, é possível obter os códigos de verificação para redefinir senhas e assim roubar essas mesmas contas. E foi exatamente essa a situação de Miles: o hacker conseguiu roubar também a conta do Gmail dele e, logo em seguida, se apossar de seu Twitter e Instagram. Apenas sua conta bancária não foi invadida.

Devido ao fato de trabalhar como web designer, Miles tinha contato com pessoas que trabalhavam no Instagram e no Twitter, que o auxiliaram a recuperar sua conta fazendo o caminho inverso ao que o invasor tomou. Seu Gmail também foi recuperado, mas levou mais alguns dias para isso. Seu número de telefone também acabou voltando para suas mãos. No final das contas, esse problema foi resolvido dessa vez, e Miles tomou novas medidas de segurança para evitar esse tipo de problema novamente.

Porém, aquela foi apenas a primeira vez que ele teve dissabores pelo simples fato de possuir uma conta de Twitter e Instagram rara.

Em 2019, alguém tentou novamente roubar o número de telefone de Miles, mas ele foi ágil em ativar uma contramedida e, assim, não teve nenhuma das outras contas invadidas. Contudo, os criminosos estavam bastante persistentes e tentaram outras vezes ao longo daquele mesmo dia. Quando perceberam que não conseguiriam, passaram a mandar mensagens de texto com ameaças contra sua ex-esposa e seus filhos – o que indicava que eles sabiam muito a respeito de sua vida pessoal. No entanto, colocaram uma condição para que não fizessem nada: ele deveria entregar suas contas do Twitter e do Instagram. Apesar de nada de ruim ter acontecido com sua família ou com suas contas, as ameaças acabaram assustando. Ele chegou à conclusão de que diversas de suas informações estavam espalhadas na internet e resolveu limpar ao máximo todos os dados que fosse possível encontrar a seu respeito – assim, dificultando o trabalho de hackers que atuam com engenharia social.

Mas, como é de se imaginar, essa história estava longe de acabar.

No início de 2021, em uma noite de sexta-feira, Miles estava com sua namorada em casa quando recebeu uma pizza. Mas havia um problema: ninguém havia pedido nenhuma pizza. O entregador confirmou seu endereço e seu nome, mas ele novamente recusou o pedido e o pagamento. Quando o entregador informou o número de telefone que havia sido usado, Miles respondeu que aquele era seu número antigo, o mesmo que havia sido hackeado pela primeira vez em 2016. Assim, ele rapidamente percebeu que aquilo se tratava de um novo ataque, mas, dessa vez, de uma forma incomum. Naquela mesma noite, outras duas entregas de pizza de empresas diferentes foram feitas, mas Miles recusou todas elas.

Ele entrou em contato com as pizzarias no dia seguinte e descobriu que os pedidos haviam sido feitos pela internet usando aquele número de telefone antigo. Na noite do segundo dia, outras quatro entregas de pizza ocorreram. A situação pioraria ao longo daquela semana, pois até mesmo o número de sua namorada havia sido descoberto, e os pedidos passaram a ser feitos em seu nome. Além disso, as entregas de pizza no nome de Miles passaram também a ser feitas no endereço de seus pais, que sequer moravam no mesmo estado.

Neste primeiro momento, os hackers não entraram em contato com ninguém, até que uma mensagem chegou ao telefone da namorada dele: “Diga para ele liberar o Instagram ou a pizza não vai parar”.

Por mais que pareça algo inocente e inofensivo em comparação com os demais ataques, dessa vez tudo era mais palpável. Começou com pizza, mas eventualmente poderia migrar para outras coisas, como enviar os bombeiros ou a SWAT para a casa de Miles – prática conhecida como “swatting”. Ele chegou a registrar um boletim de ocorrência na polícia local, mas a coisa mais surpreendente para as autoridades foi o fato de uma conta do Instagram valer tanto dinheiro a ponto de levar um hacker a fazer algo do tipo. O fato é que Miles estava se sentindo cada vez mais desolado nessa situação, pois nem mesmo o departamento de crimes cibernéticos do FBI ajudou de alguma forma.

Durante dias, as entregas de pizza continuaram. O casal colocou uma placa na frente de casa avisando sobre o caso, mas alguns entregadores ainda assim tentaram falar com eles. Em dado momento, até mesmo sua ex-mulher e seus filhos passaram a ser assediados com entregas de pizza. Foi aí que Miles cansou dessa situação e pediu para que o Instagram bloqueasse sua conta, para que ninguém pudesse tê-la. Quando o hacker descobriu isso, passou a exigir o Twitter de Miles, e aí ele resolveu fazer uma troca: cederia a conta do Instagram (agora reativada) e o deixariam em paz no Twitter.

E é agora que a história fica ainda mais estranha.

Miles entrou em uma conversa com o hacker e, antes de entregar a senha de seu Instagram, perguntou o porquê de aquela pessoa estar fazendo aquilo, uma vez que já era o terceiro ataque desse tipo. O criminoso admitiu que não sabia das duas primeiras tentativas e que não estava envolvido nelas. Contudo, ele falou que já esperava que a polícia agisse daquela forma, pois o caso era pequeno demais para o FBI e bizarro demais para as autoridades locais. O criminoso explicou que estava interessado no Instagram de Miles porque seu arroba era mais fácil de vincular a uma conta de TikTok, onde esses nomes curtos e simples são ainda mais valiosos. Além disso, disse que havia outras formas de assediar Miles, como enviar carros com prostitutas para sua casa, mas optou pelas pizzas por ser a forma mais segura para si mesmo – afinal, caso aquela história escalasse para algo mais sério, como um assalto ou homicídio, a polícia daria mais atenção, e eventualmente sobraria para ele.

Miles ainda conta que, do jeito que a conversa seguiu, pareceu muito mais um bate-papo casual que se teria com um amigo, e não entre um hacker e uma vítima.

Ainda ao longo daquela conversa, Miles descobriu que o hacker, na verdade, fazia aquele tipo de atividade como um hobby, pois tinha um emprego em uma empresa de segurança cibernética – o que é bizarro, se parar para pensar, já que o criminoso ajudava vítimas de golpes como aquele. O designer ainda desabafou com o hacker, dizendo que havia sido colocado em uma posição difícil, e o criminoso riu, dizendo que era engraçado como as pessoas ficavam ansiosas em uma situação como aquela. Assim, no fim da conversa, Miles passou a conta para o hacker e não esperava ter mais notícias dele. Mas ele estava enganado.

Uma semana depois, o criminoso entrou em contato com Miles dizendo que iria devolver sua conta do Instagram e ainda sugeriu que eles trabalhassem juntos para fazer mais daquele tipo de ataque. Basicamente, o papel de Miles seria indicar para o criminoso contas de Instagram para que ele tentasse obtê-las através de assédio. Nesse momento, Miles percebeu que o criminoso estava enxergando tudo aquilo como uma grande brincadeira e que era quase como se tivesse se tornado amigo dele. O homem conta que ainda tentou ter um mínimo de empatia pelo hacker, que provavelmente era jovem, desajustado e sem muito convívio social.

No fim, devido à movimentação anormal da conta de Instagram de Miles – além de o fato de a Meta já ter ciência do caso –, ela acabou sendo banida permanentemente. Ele ainda tentou entrar em contato com o hacker, mas ele desapareceu sem deixar rastros. Como resultado, toda essa “brincadeira” foi em vão e completamente sem sentido.

Um comentário

  1. E triste saber como o ser humano, não usa os benefícios da tecnologia para seu bem, e os demais, sempre ficam pensando em sacanagens, sem IMPORTARSE no transtorno que vai originar a terceiros.
    Deveriam ser punido severamente, os marginais…
    Parabéns covaberta, pelos artigos !

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