Em 2021 a Netflix fez algo ousado. Aproveitando do seu formato de streaming, tratou uma trilogia de filmes como se fosse uma série e lançou 3 longas adaptados da franquia de livros “Rua do Medo” de R.L Stine, um em cada semana de julho. Os filmes não são adaptações diretas dos livros, mas aproveita universo e personagens para contar uma história uma história própria, que se passa em 1994, 1978 e 1666.
Agora, em 2025, com um roteirista e diretor novos, a plataforma retorna ao universo de Stine. Dessa vez uma adaptação direto do décimo quinto livro da franquia, “Rua do medo: Rainha do Baile”. A história se passa em 1988 e acompanha um grupo de garotas candidatas ao título de rainha do baile. Uma a uma, elas passam a ser perseguidas por um assassino mascarado, transformando o que deveria ser uma noite de sonho em um pesadelo.
Eu nunca escondi que o subgênero slasher é meu favorito. Tanto que não precisa de muito pra me chamar atenção, a fórmula é simples, assassino mascarado, mortes marcantes, umas doses de comédia não obrigatórias e uma revelação final. Porém, é incrível como o longa “Rua do medo: Rainha do baile” erra em tudo que se propõe.

A começar pela narrativa, que é pobre. O roteiro, assinado pelo diretor Matt Palmer e Donald McLeary, já mostra suas deficiências logo de início, com um longo monólogo expositivo para apresentar as personagens. Além disso, nunca desenvolve temas como ganância ou fanatismo por futilidades, questões importantes da adolescência que poderiam enriquecer a trama.
O pior de tudo é o tratamento com os personagens. Aqui temos todos os arquétipos de clichês: as meninas malvadas, os atletas, os nerd, os delinquentes e os drogados. Mas, certos clichês não são sinônimos de defeitos, dependendo do longa são até esperados de forma positivas. Porém, hoje em dia é preciso trabalhar eles de forma aceitável, se não subvertendo que seja tratando com ironia. Só que não é o que ocorre: os personagens são reduzidos a um traço de personalidade e nada é feito com isso.
A direção de Palmer é muito evasiva. As mortes aqui, se não ocorrem fora da câmera, são exageradas de uma forma distante do peso da narrativa. Nem parece que estamos diante de um longa do mesmo diretor de “Calibre”, outra produção da Netflix bem mais corajosa ao abordar um acidente sofrido por uma criança. Aqui tudo é mais podado, ao mesmo tempo que a violência surge como um escapismo cômico, para nos fazer esquecer o quão fraco o roteiro é.
Agora, fora a história fraca e as mortes que vão do sem graça ao choque pelo choque em segundos, existe um pecado maior que o longa comete: o assassino é genérico e sem graça. Pense em qualquer outro filme slasher, a primeira que virá a sua mente será do assassino, seja por ser carismático ou por ter um visual marcante, o assassino em um filme slasher carrega o peso do subgênero em suas costas, por isso ele ser bem feito é mínimo que precisa ser feito.

Aqui o vilão usa uma capa de chuva e uma máscara de teatro, que sinceramente para mim é impossível saber a expressão dela. O primeiro pecado está nesse visual, que em nada conversa com a narrativa do longa, e para piorar, o roteiro estabelece um objetivo central logo de cara, eliminar as candidatas a rainha do baile, porém nesse processo outras pessoas acabam morrendo sem necessidade, o que enfraquece a coerência. Se não havia intenção de preservar a regra, então o melhor que ela não seja dita, mas sim sugerida.
Para corar o compilado de ideias não exploradas, a revelação do assassino e seu objetivo, são de revirar os olhos. Na escola, onde a trama se passa, a rainha do baile é escolhida por votos e as candidatas são aquelas que se destacam não apenas por popularidade mas também em notas e nas atividades. Então não temos apenas as meninas malvadas no páreo, temos a protagonista, que é a nerd, e temos também uma delinquente no meio delas.
Com isso estabelecido e sabendo que as vítimas são as candidatas é fácil saber que o assassino está envolvido no meio disso. Porém, o que temos aqui é uma oportunidade perdida de explorar esse fanatismo pífio, por algo que na adolescência é importante mas que no futuro não vale a pena correr atrás. Apesar de sabermos disso, o longa parece não ter noção disso e quando a revelação final é óbvia ao ponto de sabermos a motivação antes mesmo do longa começar. Ele está contribuindo para esse pensamento, de que vale tudo pelo ensino médio.
Apesar do livro também não ser lá grandes coisas. Um exemplar de apenas 250 páginas, onde personagens são jovens genéricos, pelo menos ele acerta nisso. Fazendo com que a motivação do assassino não tenha nada a ver com o baile, sendo essa a reviravolta final, que faz dele minimamente melhor que o longa.
Ser violento e ter palavrões não faz um filme ser adulto. O público da Netflix para este longa era claro. Por ter uma classificação indicativa elevada, a produção deveria tratar com seriedade os dilemas juvenis, e não esconder seus vazios por trás da violência gratuita, compactuando com esses pensamentos. No fim, Rua do Medo: Rainha do Baile é mais uma experiência esquecível da plataforma, felizmente, uma que termina rápido.
