Se os super-heróis existissem, o mundo seria um inferno

Certa feita, estava conversando com meu amigo Cristiano William em uma sexta-feira qualquer, quando começamos a filosofar sobre super-heróis. Tudo começou quando comentei a respeito da crescente curiosidade dos internautas acerca do personagem Gamma Jack, da franquia “Os Incríveis”. Caso não lembre desse nome, não se preocupe, pois quase ninguém se ligava nele até poucas semanas atrás. O fato é que revisitaram os extras do DVD do primeiro filme e descobriram que este era quase uma versão Pixar do Homelander, de “The Boys”. Gamma Jack era um super-herói babaca, com potencial de ser um vilão, pois era egocêntrico, acreditava na superioridade de quem tinha superpoderes e só salvava mulheres bonitas – negligenciando homens, crianças e idosos. No filme mesmo, ele só aparece por dois segundos, na cena em que o Sr. Incrível estava vasculhando os arquivos de Síndrome.

Bom, nossa conversa começou a respeito de como o universo de “Os Incríveis” é rico e fascinante, apesar de não ter sido bem explorado até o momento. Para um desenho infantil, ele propõe debates bem maduros sobre diversos temas, como problemas conjugais e até mesmo se devemos seguir leis injustas que desrespeitam algum grupo. Porém, quando começamos a engrossar o caldo e pensar em como seria o nosso mundo caso super-heróis existissem, cheguei a uma conclusão: tudo viraria um inferno digno de um apocalipse. Vamos por partes.

É importante dizer que diversas obras de ficção tentam demonstrar, de uma forma ou de outra, isso que quero dizer. Ninguém aqui está reinventando a roda. Mas a intenção é deixar tudo mais claro e irei pinçar alguns cenários.

Caso, do nada, fossem descobertos humanos que possuem superpoderes e que, porventura, poderiam se tornar super-heróis, podemos traçar algumas possibilidades do que viria a seguir. Para começar, isso iria atrair a atenção dos governos e, por consequência, das forças armadas. Isso acarretaria, de uma forma ou de outra, em humanos com habilidades especiais sendo usados como algum tipo de arma militar de determinado país, mesmo que apenas como trunfo. Isso é mostrado, de certa forma, em “Watchmen”, com a situação do Dr. Manhattan na Guerra do Vietnã.

Dessa forma, podemos ver que a situação dos superpoderes seria muito parecida com a das armas nucleares durante a Guerra Fria. Seria muita ingenuidade pensar que, se os Estados Unidos, por exemplo, descobrissem isso primeiro, a Rússia não iria querer também. A China não ficaria para trás, o que levaria a Índia a procurar seus próprios super-heróis, o que também criaria atritos com o Paquistão. Nem precisamos entrar no mérito das tensões que seriam criadas entre as duas Coreias e no Oriente Médio…

Mas aqui estamos falando de superpoderes que são “descobertos” ou surgem de forma orgânica entre a população. E se os poderes fossem criados através de experimentos, como no caso do Composto V em “The Boys”? A própria série mostra também o que poderia acontecer.

Caso o processo de adquirir superpoderes fosse algo arriscado e doloroso, dificilmente os mais ricos se submeteriam a esse tipo de procedimento – apesar de não ser improvável que muitos pudessem criar clãs grandes, com muitos filhos, para garantir alguns superpoderosos na família. Neste caso, o que se veria seria algo próximo de um comércio de filhos por parte da população mais pobre. Em outra alternativa, esta poderia ser uma forma de tentar ascender social e economicamente, com pais pobres submetendo os filhos a esse tipo de experiência. Mas, como seria perigoso dar muito poder a esse tipo de pessoa, certamente haveria algum tipo de controle para evitar qualquer revolta ou algo que se voltasse contra quem detém a forma de criar pessoas com superpoderes.

E por falar nisso, este é outro grande problema que poderia acontecer: nada impediria que os super-heróis acabassem formando facções, ou algo semelhante, para interferir em questões políticas. Aliás, o simples fato de existir a possibilidade de serem usados como armas de guerra já seria um jogo geopolítico. O ponto aqui é que os próprios “indivíduos” poderiam acabar causando esse tipo de problema.

Para usar a Guerra Fria como parâmetro mais uma vez, diferente de uma arma nuclear – que exige toda uma “burocracia” para ser usada ou não – é como se cada super-herói fosse uma pequena arma de destruição em massa unitária. Mas, como o próprio indivíduo é a bomba, a coisa já muda de figura. Não é mais um Estado detendo um poder gigantesco, e nada impediria que muitos deixassem o poder subir à cabeça e quisessem governar, usando suas habilidades como forma de opressão. Ou então o super-herói até tivesse boas intenções e quisesse ajudar, mas sua interferência acabaria piorando uma situação política já delicada. É claro que se poderia argumentar que o próprio Estado não é uma instituição confiável para deter tanto poder, e eu concordo que é um debate razoável, mas, nessa situação, é como se diversos pequenos potenciais “mini-Estados” estivessem se formando. Afinal, uma das prerrogativas estatais é justamente o monopólio do uso da força, o que já não estaria assegurado neste caso.

Outro ponto, desta vez trazido pelo Cristiano na conversa, é que os super-heróis poderiam ser “glamourizados” com o tempo – o que vemos em “The Boys” também. Ou seja: não seria nada difícil vermos “influencers” salvando o dia para publicar nas redes sociais. Seria até comum ver alguns deles gravando stories enquanto enfrentam vilões. Poderiam até surgir situações em que um super-herói publicasse um vídeo no qual vence facilmente um oponente, mas outras câmeras mostrariam que ele levou uma surra e só venceu com dificuldade. Ou sequer venceu, e o adversário apenas foi embora. Isso poderia acarretar em uma crise de relações públicas, com o super-herói em questão tendo problemas de imagem e precisando adotar medidas como vencer outros vilões ou apelar para coisas como “silenciar testemunhas”. O céu é o limite.

Daria para elencar outros cenários, o que de fato cheguei a fazer, mas acho que já deu para entender. Lembro bem que, quando todos essas possibilidades começaram a se desenhar na minha mente, eu me peguei pensando: “acho que o mundo é melhor sem super-heróis mesmo”. Seria legal só no início, ou nem isso. E será que seria a mesma coisa se tivéssemos algum tipo de “magia”? Bom, isso fica para outro dia.

Um comentário

  1. Gostei.!
    Quando vejo no dia a dia a situação do país, penso em casos similares e me reporto, para as FF.AA, com suas FORÇAS ESPECIAIS, os quais são preparados para defender as fronteras, enemigos externos e internos, me as com tristeza vejo que o seu JURAMENTO, na fez muito efeito, já que não tem como demonstrar as sua capacidade, por falta de autonomia…

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