Se você se irrita com spoilers, então você é um otário

É incompreensível. Uma das artérias da cultura brasileira, para o bem ou para o mal, são as novelas. E, ao longo de décadas de teledramaturgia, outro conteúdo que sustentava essa cultura eram as revistas e cadernos de jornais que revelavam os desdobramentos dos próximos capítulos. Em outras palavras, as pessoas pagavam para saber spoilers.

Com esse histórico cultural que o Brasil tem, não dá para entender como existem pessoas que se irritam com spoilers, quando os spoilers fazem parte da cultura das terras tupiniquins. E digo mais uma coisa: em pleno 2025, na era das informações rápidas que brotam em qualquer timeline, fica quase impossível se esquivar de qualquer tipo de spoiler. A não ser que você se abstenha completamente de qualquer tipo de rede social, não é algo com o qual você tenha sequer o direito de se irritar. É a mesma coisa que passear em um tiroteio e achar ruim ter levado uma bala perdida.

Vamos ser sinceros: tirando alguns poucos casos de histórias específicas (e BEM específicas, vale dizer), nas quais algumas informações podem atrapalhar um pouco a experiência, a maioria esmagadora de todas as mídias não é corrompida caso você saiba uma informação ou outra com antecedência. E mesmo nesses casos específicos, seja sincero e responda: esses spoilers que abalaram sua experiência mudaram alguma coisa em sua vida? Quer dizer: você não conseguiu extrair mais NADA daquela obra a não ser a informação de quem morre ou deixa de morrer? Lamento dizer que, se a resposta for “sim”, então o problema não são os spoilers.

Você deixou de falar com um amigo por causa de spoilers? Caso a resposta também seja “sim”, lamento dizer que você é, no mínimo, um otário. E talvez até tenha sido bom que tais laços tenham sido cortados — para esse seu agora inimigo, vale destacar.

Acho que o mais absurdo é o fato de esse problema ser tão peculiar que foi tema de um dos capítulos de “Cultura da Convergência“, de Henry Jenkins. Esse é um autor bastante abordado nas faculdades de comunicação, então acaba se tornando um nome bem familiar no meio. Para Jenkins, spoilers são parte de um fenômeno maior ligado à “cultura participativa” e à “inteligência coletiva”. Vale destacar que ele não trata spoilers como algo negativo, mas como um elemento que revela muito das mudanças na forma como consumimos conteúdos hoje. A ideia é que, em ambientes convergentes, público e produtores interagem de maneiras mais complexas, e os fãs participam ativamente dessa circulação de informações.

O autor também chama atenção para os dilemas que os spoilers trazem nesse contexto de convergência. Ele reconhece que há tensões entre quem quer descobrir tudo logo e quem prefere experimentar a narrativa “sem saber antes”. Jenkins observa que as práticas de spoiler dependem de canais de comunicação (fóruns, redes sociais, comentários), das relações entre fãs e da indústria midiática, que às vezes tenta tanto monetizar quanto controlar essas trocas.

Notem bem essa parte: “as práticas de spoiler dependem de canais de comunicação”. Isso, na época em que Jenkins escreveu o livro, em 2006, era um cenário bem diferente do que temos hoje em dia. Aliás, chega a ser bizarro pensar que antigamente era possível “sair da internet” e também se dizia coisas como “vida real” e “vida virtual”. Hoje, com as redes sociais sendo hegemônicas, a circulação de informação e conteúdo ocorre de forma muito mais “passiva”, assemelhando-se ao que se tem nas mídias de massa, como TV e rádio.
Com tudo isso em jogo, é natural que as pessoas queiram discutir sobre as obras que consomem e, por consequência, os spoilers sejam quase inevitáveis nesse contexto. Por isso, já passou da hora de as pessoas amadurecerem nesse ponto.

Eu sei muito bem que existem algumas pessoas que dão spoilers por pura sacanagem. Já vi gente assim. Porém, há algo curioso em relação a isso: nenhum desses sequer conseguiu me atingir. O motivo? Eu estou pouco me lixando para receber spoilers ou não. Nem mesmo aqueles que, em teoria, poderiam estragar a minha experiência. E sabe qual é o motivo disso? Minha experiência com qualquer mídia, seja um livro ou anime, é bastante consolidada e pessoal. Preciso ver tudo com meus próprios olhos para tirar minhas próprias conclusões, pois a leitura individual que cada um faz de uma obra é única. E não é um spoiler que vai estragar isso.

Será que não está na hora de começarmos a olhar para as obras para além das informações que elas contêm? Inclusive, é isso que faz com que títulos clássicos da literatura sigam sendo lidos e editados. Todos sabemos que Aquiles morre com uma flechada no calcanhar, então por que ler a Ilíada? Certamente existem coisas infinitamente mais importantes do que um spoiler — e são essas coisas que fazem uma história ser memorável.

Por fim, o que tenho para dizer aqui é: relaxe, sua vida não vai mudar por saber com antecedência quem morre ou deixa de morrer no final. Nem mesmo sua experiência. Ela é única e está além dos spoilers. E, se você leva tudo isso a sério, lamento dizer que você certamente é um otário. Sua mãe e avós estariam decepcionadas com você, pois elas compravam os spoilers nas bancas de jornal.

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