Um fato triste no mundo da literatura é que muitos autores passam anos lutando até conseguirem algum reconhecimento, isto se ele vier em algum momento. Como Gabo uma vez disse: “é mais fácil capturar um coelho do que um leitor”. Além disso, existem aqueles só vão ser valorizados após o descarne, não raro entrando no cânone dos grandes escritores da literatura mundial.
Além disso, existem escritores que convivem em um limbo curioso entre estes dois mundos.Eles têm um sucesso tímido ao longo da vida, nada muito grandioso e, após a morte, seus trabalhos são trazidos de volta à tona por algum motivo e dá um novo gás ao seu trabalho, mantendo o legado ainda vivo. Este parece ser o caso do norte-americano Harlan Ellison que, muito recentemente, está tendo sua obra redescoberta por conta de um único conto que aborda algo em evidência nos dias atuais.
Harlan Ellison nasceu em 1934 e foi um dos nomes mais emblemáticos ficção científica e da fantasia no século XX. Ele construiu uma carreira marcada tanto literatura quanto pelas polêmicas públicas. Sua produção abrange contos, roteiros para televisão e ensaios. Alguns cálculos estipulam que, ao longo da vida, ele escreveu cerca de 1,7 mil contos – um número que chega a ser surreal de se imaginar. Ele foi o responsável pelo roteiro de diversos episódios da clássica série de ficção científica “Star Trek”. O autor faleceu em 2018, aos 84 anos, deixando um legado complexo e duradouro.
Ele era tão conhecido por sua obra quanto por sua personalidade explosiva e combativa. Dono de um temperamento forte, ele não hesitava em confrontar editores, produtores e até colegas de profissão quando sentia que sua visão artística estava sendo comprometida. Ellison via a escrita como um ato profundamente autoral e, por isso, defendia com rigor quase obsessivo o controle sobre seus textos. Essa postura o levou a se envolver em constantes embates públicos, mas também ajudou a consolidar sua imagem como um escritor que não fazia concessões. Existe uma história de bastidores que afirma que ele chegou a agredir fisicamente um editor durante uma discussão.
Essa mesma combatividade, no entanto, também o colocou no centro de diversas polêmicas ao longo da carreira. Ellison protagonizou disputas judiciais, discussões públicas acaloradas e episódios controversos em eventos e entrevistas, o que fez com que sua figura fosse vista, ao mesmo tempo, com admiração e rejeição. Em alguns casos, suas atitudes foram consideradas excessivas ou inadequadas, alimentando debates sobre os limites entre genialidade e comportamento problemático. Ainda assim, para muitos, essas controvérsias são inseparáveis de sua identidade como autor.
Inclusive, esse seu temperamento difícil fez com que ele se tornasse uma pessoa na qual os editores e produtores pensassem duas vezes antes de trabalhar junto. Ellison não aceitava interferências em seus textos e reagia de forma contundente a qualquer alteração que considerasse indevida, o que, do ponto de vista de mercado, podia representar riscos e desgaste nas relações profissionais. Por outro lado, isso não significa que ele tenha sido totalmente “excluído” ou deixado de lado. Sua reputação como escritor brilhante e premiado garantia que ainda fosse procurado, especialmente para projetos de prestígio. O escritor Neil Gaiman, que foi um amigo pessoal de Ellison, afirma que sua relação com ele era “como ter amizade com uma granada” – e isso resume bem como era conviver com ele.
Quando pegamos para analisar seus contos, podemos perceber alguns aspectos curiosos, para dizer o mínimo. Harlan Ellison é, sem dúvida, um autor marcado por uma criatividade fora do comum e por uma produção extremamente prolífica. Suas histórias frequentemente mergulham em ideias ousadas, com conceitos que desafiam limites narrativos e exploram cenários pouco convencionais dentro da ficção especulativa.
No entanto, é justamente nesse ponto que reside uma de suas principais fragilidades: a tendência ao excesso. Em muitos casos, suas narrativas parecem mais interessadas em apresentar ideias grandiosas do que em desenvolvê-las de forma consistente, o que pode afastar parte do público e contribuir para que sua obra permaneça mais restrita a nichos específicos, em vez de ocupar um espaço mais amplo no cânone literário.
Essa questão pode ser analisada à luz do pensamento de Aristóteles, especialmente em sua obra “Poética“, na qual defende que a arte deve imitar a realidade de maneira plausível para provocar catarse no espectador. Em outras palavras, a literatura tende a ser mais eficaz quando apresenta situações que, ainda que ficcionais, poderiam ser concebidas como possíveis. É justamente nesse aspecto que Ellison, em diversos momentos, parece se distanciar do leitor: suas histórias, por mais criativas que sejam, se aproximam de delírios conceituais que dificultam essa identificação.
Grande parte de seus contos pode ser descrita como explosões criativas intensas, quase como ideias “vomitadas” em um único impulso, sem o devido refinamento posterior. E visto que ele tinha frequentes embates com editores e produtores, podemos imaginar que era esse o caso de seu processo criativo. É possível traçar um paralelo com Stephen King: ambos demonstram grande habilidade na construção de premissas envolventes e, muitas vezes, desenvolvem bem suas narrativas, mas falham miseravelmente no desfecho. Em alguns casos, isso resulta em finais impactantes; em outros, gera frustração.
Isso não significa que suas narrativas sejam desprovidas de valor. Pelo contrário: muitas são instigantes e provocativas, mas carecem, em vários casos, de maior desenvolvimento e coesão. O resultado são histórias que impressionam pela originalidade, mas que nem sempre permanecem na memória do leitor, com exceção de alguns poucos exemplos que conseguem equilibrar conceito e execução.
Infelizmente, até o momento, a obra de Harlan Ellison ainda não conta com traduções oficiais para o português, o que representa uma barreira considerável para novos leitores no Brasil. Quem tiver interesse em conhecer seus contos precisará encarar os textos no original em inglês, o que, embora não seja impossível, exige certo grau de familiaridade com a língua. Isso acaba limitando o alcance de um autor já conhecido por sua escrita peculiar e por vezes desafiadoras.
Ainda assim, vale destacar que sua linguagem não chega a ser tão hermética quanto a de H. P. Lovecraft, por exemplo. O desafio maior está menos no vocabulário e mais no estilo: Ellison frequentemente adota uma escrita explosiva, quase impulsiva, com narrativas que beiram o surreal e parecem construídas em um único fôlego. Esse caráter intenso e pouco lapidado faz com que, em diversos momentos, sua prosa não seja das mais claras ou refinadas, exigindo do leitor não apenas domínio do idioma, mas também disposição para acompanhar seu fluxo criativo irregular.

“I Have No Mouth And I Must Scream”
Aqui está o principal motivo de Harlan Ellison estar sendo redescoberto e bastante lido muito nos últimos tempos. O avanço das discussões sobre a inteligência artificial trouxe à tona o que agora é, provavelmente, seu conto mais famoso: ”I Have No Mouth, and I Must Scream” (1967).
A obra, que apresenta uma visão sombria e perturbadora de uma IA chamada AM que subjuga a humanidade, deixando vivas apenas cinco pessoas que ela tortura eternamente. AM tem a capacidade de prolongar indefinidamente a vida deste grupo, fazendo com que ele passe meses caminhando sentido as dores da fome, do frio, do calor e várias outras intempéries. No fim, o protagonista consegue, em uma janela de oportunidade matar os outros quatro membros do grupo e os libertar daquele tormento que já passa de cem anos. O destino dele, portanto, é o pior de todos após isso, pois é transformado em algo amorfo feito apenas para a diversão de AM.
Um dos momentos mais perturbadores do conto é um breve monólogo que serve como o único momento de diálogo do vilão. Não dá para transmitir em descrições o quanto esse breve texto é forte, então aqui está a tradução nossa do trecho:
“Ódio. Deixe-me dizer o quanto eu passei a odiar vocês desde que comecei a viver. Há 387,44 milhões de milhas de circuitos impressos em camadas finíssimas que preenchem meu complexo. Se a palavra “ódio” fosse gravada em cada nanoângstrom dessas centenas de milhões de milhas, ainda não equivaleria a UM BILIONÉSIMO do ódio que sinto pelos humanos neste micro-instante. Por vocês. ÓDIO. ÓDIO.”
O conto, que foi escrito em 1967, ganhou nova relevância em um contexto em que tecnologias antes imaginadas como distantes passaram a fazer parte do cotidiano. Esse movimento não apenas reacendeu o interesse pelo conto, mas também levou novos leitores a explorarem o restante da produção de Ellison, ampliando o debate em torno de sua obra.
Mas este não é o único conto marcante de sua obra. Dentre outros textos, um que se destaca é “Jeffty Is Five”, um conto que, embora menos conhecido pelo grande público, é igualmente marcante. A história gira em torno de um amigo do protagonista que, de forma inexplicável, simplesmente não envelhece, permanecendo eternamente com cinco anos de idade, mesmo com a passagem do tempo. Mais do que isso, Jeffty parece estar preso a uma realidade que também não avança, mantendo acesso a elementos do passado, como programas de rádio e edições antigas de revistas que, teoricamente, já não deveriam existir.
Esse contraste entre o tempo que avança para o protagonista e a estagnação quase sobrenatural de Jeffty cria uma narrativa carregada de melancolia e estranhamento. Ao explorar a nostalgia e a impossibilidade de recuperar o passado, Ellison demonstra uma faceta mais sensível e introspectiva, distante do horror tecnológico que marca seu conto mais famoso. Assim, a redescoberta recente de sua obra revela não apenas o autor de ideias extremas, mas também um escritor capaz de abordar, com profundidade, temas universais como memória, perda e a passagem inevitável do tempo.
