Ero guro raiz: o lado sutil de “A Besta nas Sombras”

Nos últimos anos, o público brasileiro tem tido o privilégio de ter acesso a muitas obras de horror e mistério de autores japoneses. Devido às barreiras linguísticas, alguns títulos com décadas de existência, e que por lá são considerados clássicos da literatura, chegam ao Brasil quase como se fossem completamente desconhecidos. E isso é curioso, pois é uma satisfação peculiar essa sensação de “descobrir algo que já é velho”.

Essa é a sensação de folhear as páginas de “A Besta nas Sombras”, de Edogawa Ranpo (pseudônimo de Taro Hirai). A obra, lançada originalmente em 1928, é considerada um dos maiores clássicos da narrativa policial japonesa, mas o público brasileiro só teve acesso a ela em 2025 – quase 100 anos depois!

Ao terminar a última página, o leitor pode ter sensações mistas. Por um lado, é uma história bastante previsível e sem grandes reviravoltas. Porém, é um básico bem feito e que pode entreter bastante quem quer descobrir mais sobre a literatura japonesa. Mas também é importante observar alguns aspectos peculiares desta obra, que é considerada um expoente do chamado “ero guro nonsensu”. Só que, se o leitor está esperando algo grotesco, característico do gênero, não vai encontrar nada muito escatológico. Mas vamos por partes.

Previsível e peculiar

A história gira em torno do protagonista, um famoso autor de histórias de mistério, que conhece uma mulher casada chamada Shizuko Oyamada. Porém, conforme o tempo vai passando, ela confessa que está sendo perseguida por um antigo namorado que a está ameaçando de morte, assim como seu marido. Esse homem é Shundei Oe, que também é escritor de mistério e um “rival” literário do protagonista.

As ameaças são feitas por meio de cartas enviadas pelo vilão a Shizuko, que são assustadoras, pois narram coisas íntimas que só pessoas muito próximas poderiam saber. Assim, o protagonista, que já está apaixonado e seduzido pela mulher, decide empenhar diversos esforços para desvendar o mistério. Mas logo ele se torna bastante complexo, pois Shundei Oe aparentemente “desapareceu”, e ninguém mais soube de seu paradeiro nos momentos que antecedem a história.

A “Besta nas Sombras” é um livro curto, mas que exige do leitor uma atenção pouco comum para obras de sua extensão. A leitura não deve ser feita de forma apressada, tanto pela linguagem menos fluida quanto pelo risco de se perder detalhes fundamentais que ajudam a construir a essência do mistério. Cada elemento narrativo parece cuidadosamente posicionado, convidando o leitor a desacelerar e observar com atenção, sob pena de deixar escapar pistas importantes para a compreensão da história.

Essa proposta dialoga com uma característica marcante da literatura de mistério japonesa, que costuma tratar a leitura como um verdadeiro “jogo” entre autor e leitor. Nesse tipo de narrativa, pistas são distribuídas ao longo do texto de forma estratégica, permitindo que o leitor tente desvendar o enigma por conta própria. Esse conceito foi amplamente difundido por Edogawa Ranpo e acabou sendo incorporado por diversos autores que vieram depois, como Soji Shimada, consolidando um estilo que valoriza tanto a inteligência do leitor quanto a construção minuciosa da trama.

O livro apresenta uma característica curiosa ao conseguir ser, ao mesmo tempo, previsível e imprevisível. Um leitor mais atento e experiente é capaz de identificar rapidamente o possível rumo da narrativa e até mesmo seu desfecho. Esse tipo de construção não é incomum no gênero de mistério, já que autores habilidosos utilizam essa aparente obviedade como uma ferramenta para enganar o público mais calejado, criando uma expectativa de reviravolta que nem sempre se concretiza.

Ao longo da leitura, essa sensação se intensifica: a impressão inicial de que “está óbvio demais” leva o leitor a duvidar da própria conclusão e a buscar explicações alternativas — movimento que também é refletido pelo protagonista. No entanto, é justamente aí que reside a força da obra: ao final, descobre-se que a solução mais simples, aquela que parecia evidente desde o início, era de fato a correta. Isso pode acabar fazendo com que toda a narrativa, como um todo, soe bastante clichê.

Erotismo sombrio

Um dos fatores mais marcantes de “A Besta nas Sombras” são os elementos de ero guro nonsensu – ou só guro, para os íntimos. Este foi, e ainda é, um movimento artístico e literário muito popular no Japão no século XX, que buscava mesclar elementos eróticos e macabros, como mutilações corporais e violência extrema em momentos íntimos. Em outras palavras, seria como um nível extremo de BDSM representado na arte, no qual apenas um nicho muito peculiar (e doentio) costuma sentir atração.

Mas, caso o leitor ache que vai encontrar cenas extremas de guro nas páginas de “A Besta nas Sombras”, lamento desapontar. Sim, existem momentos bastante violentos em contextos eróticos, mas nada que seja demasiadamente escatológico, como é comum ver em obras do tipo – em especial, mangás e visual novels. Porém, para a data de publicação original do livro, esses elementos foram bastante ousados e muito peculiares.

É importante notar, porém, que tanto Edogawa Ranpo quanto outros artistas de sua época usavam o guro como uma espécie de crítica social. O Japão do século XX, principalmente após a Restauração Meiji, passou por momentos complexos, como a dualidade de se viver entre o passado e o futuro. Portanto, notam-se essas sutilezas na narrativa do autor, e não algo apenas “jogado” na história por motivos fetichistas.

Além disso, conforme o tempo foi passando, a estética frequentemente adotou apenas o lado mais pervertido da coisa toda, perdendo quase que em sua totalidade as intenções e usos originais. Portanto, é importante ter todas essas questões em mente ao pensar em “A Besta nas Sombras”: não é um livro para satisfazer gostos eróticos bizarros, mas sim quase um livro de mistério padrão e até mesmo clichê – porém divertido ao mesmo tempo.

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