Conteúdos sobre serial killers são tão comuns na cultura popular que fica até difícil escolher o que e quando consumir. Existem diferentes biografias completas, escritas por jornalistas de mão cheia, que nos ajudam a compreender a vida e os crimes desses nomes tão infames da história. Também há documentários, em volume único ou serializados, que são tão competentes quanto na tarefa de investigar tais casos. Mais recentemente, também podemos contar com podcasts que possuem as mesmas propostas.
Porém, uma coisa pouco comentada é sobre os conteúdos produzidos pelos próprios criminosos. Mais especificamente, livros. E sim: muitos dos criminosos mais infames do mundo deixaram como legado algumas obras literárias que transitam pelos mais variados gêneros. Mas é importante notar que, apesar de curiosos, tais obras são e devem ser vistas mais como um objeto de estudo criminológico e psicológico do que como trabalhos literários e políticos. Por vezes, a própria existência de tais livros é perturbadora por si só.
No Brasil, tais trabalhos são muito difíceis de se conseguir, uma vez que não estão disponíveis em português. Porém, é possível garimpar algumas traduções não oficiais na internet, que dão uma ideia do conteúdo dessas obras.
John Wayne Gacy

“A Question of Doubt” é um livro de poesias escrito por John Wayne Gacy enquanto cumpria pena de morte nos Estados Unidos. Publicada oficialmente em 1993, a obra reúne poemas produzidos na prisão e foi lançada em tiragem limitada, voltada principalmente a colecionadores e interessados em true crime. O livro se tornou um objeto controverso, tanto pelo conteúdo quanto pela autoria, sendo hoje considerado raro no mercado editorial.
No plano literário, o livro apresenta textos de tom confessional e reflexivo, nos quais Gacy tenta construir uma imagem de introspecção, dúvida existencial e, em alguns momentos, arrependimento. Críticos e pesquisadores, no entanto, apontam que os poemas funcionam mais como uma estratégia de autopromoção e controle de narrativa do que como um exercício genuíno de autocrítica. A recepção sempre foi marcada por desconforto ético: até que ponto um assassino em série pode ou deve ter sua produção artística publicada e consumida?
O livro nunca foi lançado por editoras de língua portuguesa e tampouco figura em catálogos comerciais nacionais. Eventuais traduções encontradas em circulação informal na internet não são reconhecidas como publicações editoriais legítimas. Assim, o acesso à obra permanece restrito a edições em inglês, geralmente negociadas a preços elevados no mercado internacional.
O peso simbólico do livro está diretamente ligado aos crimes de Gacy, condenado pelo assassinato de ao menos 33 jovens e adolescentes, muitos deles enterrados no espaço sob sua casa, nos anos 1970. Conhecido como o “Palhaço Assassino” por se apresentar em festas infantis, Gacy se tornou um dos serial killers mais notórios da história dos Estados Unidos. Nesse contexto, “A Question of Doubt” é frequentemente analisado menos como poesia e mais como um documento perturbador da tentativa de um criminoso de reescrever sua própria imagem diante da história.
Jack Unterweger

Aqui temos um caso curioso. “Purgatory” é um romance autobiográfico escrito por Jack Unterweger enquanto ele cumpria pena de prisão na Áustria. Publicada originalmente nos anos 1990, a obra foi apresentada como um relato de redenção pessoal, mesclando elementos ficcionais com experiências reais. O livro alcançou considerável repercussão no meio cultural austríaco, sendo elogiado por intelectuais e jornalistas que passaram a enxergar Unterweger como um exemplo de reabilitação por meio da literatura.
No aspecto literário, “Purgatory” constrói uma narrativa introspectiva, centrada na culpa, no sofrimento e na suposta transformação moral do protagonista. O tom confessional e o estilo elaborado ajudaram a consolidar a imagem de Unterweger como um escritor sensível e regenerado, a ponto de o livro ser usado como argumento em campanhas públicas que defendiam sua libertação antecipada. A obra, nesse sentido, extrapolou o campo literário e passou a ter impacto direto no debate jurídico e social em torno do autor.
Assim como no item anterior, não existem edições oficiais em português de Purgatory, nem no Brasil nem em Portugal, permanecendo restrito ao alemão e a algumas traduções para outros idiomas europeus. Assim como ocorre com outras obras escritas por assassinos em série, o interesse editorial fora de seu país de origem sempre foi limitado, em parte por questões éticas e pelo perfil de público bastante específico.
A história de Purgatory tornou-se ainda mais chocante quando Unterweger, após ser libertado em liberdade condicional, voltou a matar. Ele foi acusado e condenado pelo assassinato de pelo menos nove mulheres em diferentes países, incluindo Áustria, Alemanha e Estados Unidos, crimes cometidos com o mesmo modus operandi. Preso novamente, ele cometeu suicídio na cela em 1994. Diante desse desfecho, o livro passou a ser reinterpretado não como prova de reabilitação, mas como um caso emblemático de manipulação narrativa.
Charles Manson

“Manson in His Own Words” é uma obra construída a partir de entrevistas, poemas, cartas e reflexões escritas por Charles Manson ao longo de sua prisão. Publicado no fim dos anos 1980, o livro foi organizado por editores, mas o conteúdo é integralmente autoral, preservando o discurso fragmentado, provocador e, por vezes, delirante que marcou a figura de Manson. A proposta da obra não é literária no sentido clássico, mas documental: apresentar o pensamento do líder da chamada “Família Manson” sem mediações.
Do ponto de vista do conteúdo, o livro reúne textos que transitam entre poesia, comentários filosóficos e declarações confusas sobre sociedade, poder, violência e espiritualidade. O livro evidencia a capacidade retórica de Manson e sua habilidade em manipular narrativas, traço que foi essencial para exercer influência psicológica sobre seus seguidores. Por essa razão, a obra costuma ser analisada mais como material de estudo criminológico e sociológico do que como produção literária propriamente dita.
O livro nunca foi lançado comercialmente em língua portuguesa por editoras reconhecidas. Eventuais trechos traduzidos que circulam na internet aparecem de forma esparsa, geralmente em reportagens, artigos acadêmicos ou fóruns, sem constituírem uma edição editorial formal.
A relevância e a controvérsia do livro estão diretamente ligadas aos crimes associados a Manson. Embora ele não tenha cometido pessoalmente os assassinatos, foi condenado como mandante e mentor das mortes brutais cometidas por seus seguidores em 1969, incluindo o assassinato da atriz Sharon Tate e de outras vítimas em Los Angeles. Nesse contexto, “Manson in His Own Words” é frequentemente lido como um documento perturbador da mente de um manipulador que transformou discurso, carisma e delírio em instrumentos de controle e violência.
Ted Kaczynski

Por fim, talvez o caso mais famoso de livro produzido por um criminoso.“Industrial Society and Its Future” é o manifesto escrito por Ted Kaczynski, conhecido como o Unabomber. O texto foi redigido enquanto ele ainda estava em liberdade e ganhou notoriedade em 1995, quando trechos integrais foram publicados em grandes jornais norte-americanos como parte de uma negociação para cessar os atentados. O livro se apresenta como uma crítica radical à sociedade industrial e tecnológica, defendendo que o avanço científico inevitavelmente destrói a liberdade humana e a autonomia individual.
No conteúdo, o livro mistura argumentos filosóficos, sociológicos e políticos com uma retórica extremista. Kaczynski, denuncia a dependência tecnológica e propõe uma ruptura violenta com o sistema industrial. Embora o texto tenha sido debatido em meios acadêmicos por sua coerência interna e estilo lógico, ele é amplamente visto como um exemplo de racionalização ideológica da violência, servindo mais como documento histórico e criminológico do que como obra política.
Diferentemente de outros livros escritos por assassinos em série, este manifesto possui traduções em português. No Brasil, circula sob o título “A Sociedade Industrial e Seu Futuro”, tanto em edições impressas lançadas por editoras de pequeno porte quanto em versões digitais. Também existem traduções não oficiais disponíveis online.
Contudo, a obra não pode ser dissociada dos crimes de Kaczynski. Entre 1978 e 1995, ele realizou uma série de ataques com bombas enviadas pelo correio, que mataram três pessoas e feriram dezenas nos Estados Unidos. Os atentados tinham como alvos universidades, companhias aéreas e profissionais ligados à tecnologia e à ciência. Preso em 1996, Kaczynski foi condenado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
