No início dos anos 2000, a marca do monstro múmia foi associada à franquia de ação e aventura de sucesso, estrelada por Brandon Fraser: “A Múmia”. Agora, em 2026, a produtora Blumhouse tenta revitalizar a figura da criatura de volta ao terror, associando-a ao nome do realizador Lee Cronin, em “Maldição da Múmia”.
Após oito anos do desaparecimento da menina Katie, sua família descobre que ela foi encontrada com vida dentro de um antigo sarcófago. Logo após isso, o emocionante encontro se transforma em um pesadelo, pois a menina está possuída por uma antiga entidade egípcia demoníaca.
A primeira vez que vi o trailer do longa, achei a premissa um tanto quanto genérica e não me surpreenderia se fosse o caso de um lançamento para manutenção dos direitos autorais da marca Múmia. Porém, a direção e o roteiro foram postos nas mãos de Lee Cronin. Cronin, conhecido pelo seu trabalho anterior em “A Morte do Demônio: A Ascensão”, pega essa premissa e consegue colocar camadas nela, fazendo do projeto muito mais profundo do que aparenta.
A presença de Katie na casa, muito debilitada por ter passado oito anos presa e afetada pela possessão, é tratada como se fosse alguém com deficiência ou alguma limitação mental, o que força a família a se unir e a se levar ao máximo para direcionar seus esforços aos cuidados dessa pessoa. Sendo assim, a presença sobrenatural vai além dos jump scares e representa uma desestruturação familiar, o que provoca uma ruptura conforme os elementos sobrenaturais ganham força.

O terror de Cronin é gradual e visceral. Começa pequeno, mas logo vai ganhando escalas maiores até se tornar grotesco e aflitivo. Aqui, vamos do body horror ao terror de possessão, tudo com muitos close-ups, o que faz tudo parecer mais nojento.
Apesar de o foco ser na figura de uma múmia como vilã, na prática sua influência cai para um filme de possessão, com forte influência em “O Exorcista”, o que me leva a crer que o diretor gostaria, ou tinha em mente, sua própria versão do longa de 1973. Ainda que fosse mais um remake ou uma tentativa de copiá-lo, seria o melhor até então, pois redireciona seus esforços para a temática da família.
Porém, como o longa é focado no núcleo familiar, quando ele leva a trama para o macro da história, não sabe lidar com outros personagens. Todos que são apresentados para amarrar algumas pontas soltas, após cumprirem esse objetivo, apenas desaparecem na trama, seja um investigador que encontrou Katie ou um professor universitário que desvenda escritas antigas que remetem à origem do demônio. Além disso, todas as tentativas de levar a trama para fora da casa, do ninho familiar, são também descartadas rapidamente para que tudo fique no foco central já estabelecido pelo roteiro.
Ainda assim, com decisões questionáveis, onde realmente interessa, o roteiro brilha, e é sempre bom ver uma obra que explore o terror em diversas vertentes, entendendo que pode ir além de apenas monstros e demônios, mas também de questões reais levadas à exaustão.
