Quando a internet começou a ficar mais popular, na segunda metade dos anos 2000, circulou em fóruns e comunidades um tema que, hoje em dia, é bastante manjado: a deep web. Dentre as diversas histórias que se ouvia, algumas verídicas e outras fantasiosas, uma das que transitava entre estes dois mundos era a dos snuff movies. Porém, é um ledo engano pensar que esse tipo de coisa surgiu com o advento do digital, pois esse tipo de coisa já existia na época das mídias analógicas. Ou quase isso.
Uma das franquias mais emblemáticas (e cheias de mitos) com relação ao uso (ou não) de cenas reais de mortes é a “Faces da Morte”. Hoje em dia, sabe-se que, tirando algumas polêmicas envolvendo maus-tratos a animais e imagens de arquivo, não havia nada de “real” naquelas antologias. Porém, as décadas passadas eram mais “românticas”, e as pessoas acreditavam mais facilmente que algumas coisas do audiovisual eram reais ou ficcionais.
E é justamente essa maior dificuldade de o grande público mais antigo não saber o que é real ou falso que quase fez com que eu nunca tivesse nascido.

Desde que meus pais se conheceram, até o meu nascimento, levou aproximadamente sete anos. Foram quatro anos de namoro e três anos de casamento até que eu nascesse. E o caso aqui aconteceu pouco tempo depois que eles juntaram os trapos.
Meu pai era um grande fã de filmes de terror, tanto que eu tenho a quem puxar. Aliás, algumas das melhores memórias que tenho com ele são justamente de nós assistindo, nos finais de semana, a vários títulos clássicos do gênero.
Contudo, apesar de ele não ser um homem proibitivo com relação ao que podia ou não assistir, ele colocava alguns limites sutis. Alguns deles eram com relação à franquia “Hellraiser”, pois, por algum motivo, ele considerava que assuntos sexuais ou eróticos eram mais tabus do que um gore ao estilo “Jogos Mortais”. E uma franquia que ele me proibia de assistir era a “Faces da Morte”. Como ele não colocava quase nenhum filtro no que a gente via, eu não questionava a decisão dele, pois, por algum motivo, sabia que ele tinha bons motivos para isso.
Anos depois, eu entendi o porquê de meu pai ser traumatizado com esse título e fui descobrir isso através da minha mãe.
Ela contou da vez em que, poucos meses depois de estarem casados, meu pai alugou para assistir a um dos volumes de “Faces da Morte” (não sei dizer qual, mas talvez seja o primeiro). Diferente do meu pai, minha mãe até hoje odeia filmes de terror, e não era algo que eles assistiam juntos por conta disso. Porém, por alguma razão do cotidiano, minha mãe acabou passando pela sala no momento em que ele colocou a fita VHS.
Segundo o que ela conta, no momento em que passou, a cena mostrava um porco sendo queimado com um maçarico até “virar carvão”. Conhecendo meu pai, ele certamente deve ter feito alguma expressão de perplexidade ao ver aquilo, mas não deve ter dito nada. O mesmo não pode ser dito de minha mãe, que, segundo ela, ficou horrorizada a ponto de ter uma reação nada saudável.
Ela relata ainda que, naquele dia, e por culpa daquele filme (e daquela cena, a única que ela viu), eles tiveram sua primeira briga séria. Por um momento, ela pensou que tinha se casado com algum tipo de maluco sádico que iria sair nas capas dos jornais como um serial killer. Além disso, ela ainda afirma que, naquele momento, cogitou o divórcio pelo fato de ter ficado assustada com a situação.
Não sei o que meu pai disse e qual foi sua reação (além de tirar a fita do aparelho quando percebeu que a coisa tinha esquentado). E também não tenho mais como perguntar, pois ele morreu em 2010, quando eu tinha 12 anos, e, caso questionasse minha mãe, a visão dela seria filtrada pela perspectiva dela. Só que, como deu para ver, ela às vezes tem a tendência a exagerar em algumas de suas reações — por mais que antigamente as coisas fossem diferentes.
Nunca vi nenhum dos filmes da franquia, tirando alguns trechos soltos que se encontram na internet. E, para ser sincero, não sinto qualquer vontade, pelo simples fato de que a premissa não me agrada. Tampouco conheço a cena que quase causou o divórcio precoce de meus pais, o que também teria acarretado na possibilidade de eu não estar aqui para contar essa história. Às vezes, fico apenas pensando no quão bizarro seria explicar para a família e amigos a razão do fim desse casamento.
Relembrei dessa história curiosa ao conversar com meu amigo Cristiano William sobre a notícia do remake contemporâneo dessa franquia. A sinopse fala sobre uma personagem que trabalha na moderação de conteúdo de redes sociais que, por consequência, em sua grande maioria são vídeos de violência real, com direito a todo tipo de cena asquerosa.
Do ponto de vista pessoal, essa premissa me pareceu muito mais interessante do que a clássica, sendo que até tive curiosidade de ir atrás para ver. Não sei qual seria a opinião de meu finado pai sobre isso, mas eu tenho a vantagem de não ser casado para correr os riscos que ele correu.
