Começou quando acordei no meio da madrugada. Ainda deitado, olhei para a fresta da janela e não vi nenhuma luz. O relógio do celular marcava três e cinquenta da manhã. Era um inverno rigoroso, tanto que eu estremecia de imaginar ter que levantar da cama quando chegasse às seis horas, mas teria que fazer isso antes do despertador tocar. Minha garganta estava seca ao ponto de sentir um arranhão em meu esôfago quando engolia. Tentei ignorar isso, mas não consegui. Meu corpo quase que implorava por água e não foi preciso muito para que ganhasse essa luta.
No momento em que tirei as cobertas para o lado, minha sede passou por alguns décimos de segundo. Estava tão frio que cheguei a choramingar. Por um instante, pensei em puxar as cobertas de volta para cima, mas a sede ganhou novamente.
Não sou uma pessoa que tem medo de escuro, mas não abro mão de minha lanterna. Havia-a comprado há algum tempo e deixado do lado da minha cama sempre, para caso de faltar energia, mas acreditava que esse não era o caso naquele momento. O problema era que o interruptor da luz ficava muito longe de minha cama, então usei a lanterna mesmo para me guiar pelo quarto. Dei-me ao luxo de ser preguiçoso.
Primeiro procurei na mesa do meu computador uma garrafinha de água que sempre deixava ali. Realmente, ela estava no lugar, mas vazia. Olhei para a porta do quarto e considerei não ir até a cozinha. Acabei cedendo.
Quando comecei a caminhar, percebi que estava muito sonolento. Meu corpo respondia lentamente, apesar da sede. Acho que esse foi o principal motivo para que eu demorasse tanto a chegar. Minha mente estava tão devagar que fiz todo o trajeto com a lanterna acesa na mão e não tive a mínima noção de ligar as luzes.
Abri a torneira e nem me dei ao trabalho de pegar um copo. Pus a boca na água que caía e bebi pelo que pareceram horas. Ela saía tão gelada que doía meus dentes, mas, aos poucos, me acostumei com esse desconforto. O blusão de lã que estava usando acabou ficando com vários respingos úmidos, dos quais não me importei. Depois que desliguei a torneira, senti meu corpo renovado. Estava ainda muito sonolento, mas não me sentia fraco como antes. Recomecei lentamente o caminho de volta para o quarto, sem prestar muita atenção em nada.
Nesse trajeto, acabei percebendo que já estava caminhando há no mínimo dois minutos e não havia chegado ao meu quarto. Quando me dei por conta disso, já estava na porta. Ri sozinho.
Quando abri a porta…
Meu sono foi arrancado com um choque de realidade. O que estava vendo à minha frente não era meu quarto. Era, sim, mais um corredor. Procurei um interruptor de luz que ficava do lado de fora da porta, mas não havia nada. Iluminei com a lanterna o caminho por onde havia vindo e percebi que não havia mais a sala, e sim um grande corredor.
Decidi voltar o caminho, pois alguma hora teria que dar na sala novamente, não é mesmo? Como fui tolo!
Caminhei sem parar por quase três minutos até que vi duas portas – uma à minha frente e outra à minha direita. Elas eram idênticas às portas que havia na minha casa.
Comecei a suar frio e a me desesperar.
Olhei para trás e só via a imensidão do escuro que me encarava como se zombasse de meu desespero. Abri a porta que estava logo à minha frente e ela virava em uma curva para a direita, em direção a outro corredor infinito, escuro e frio. Abri a porta da minha direita e ela dava a uma escadaria que seguia em frente.
Eu não parava de suar, apesar do frio. Aqueles corredores não emitiam nenhum som. A única coisa que ouvia era minha respiração e meus passos.
Retornei por onde tinha vindo sem saber muito bem o que faria em seguida. Depois de alguns minutos, cheguei onde deveria ser o meu quarto. A porta ainda estava aberta, com o mesmo corredor sinistro me encarando. Olhei mais adiante, onde era suposto estar a porta para o quarto de minha irmã, e segui em frente, mas dessa vez encontrei uma curva para a esquerda no final do corredor. Tremendo e com os passos cautelosos, olhei lentamente para onde ele se seguia. Como eu deveria saber, havia mais um grande corredor iluminado apenas pela lanterna.
Pela primeira vez, olhei para o chão e percebi que era o mesmo piso laminado que havia em minha casa e tinha até mesmo algumas manchas de umidade que haviam surgido devido a uma infiltração. Aquilo me fez perceber que talvez eu ainda estivesse em casa.
“É claro!”, eu pensei. Só poderia ser um sonho. Não dizem que, quando a gente está dormindo, é só dar um beliscão no próprio braço que acordamos?
Pois não deu certo, como em todos os filmes e desenhos animados. Patético. Normalmente a gente ri de uma situação dessas, mas naquele momento eu ficava mais desesperado ainda. Se não era um sonho, só poderia ser real. Como eu havia parado naquele lugar? Recapitulei rapidamente, porém a última coisa de que me lembro era da cozinha e que bebi bastante água.
Quando pensei nisso, comecei a sentir a bexiga reclamar. Não sei se era pelo medo, pelo frio ou por causa da quantidade absurda de água que havia bebido. Olhei adiante naquele corredor escuro e um calafrio subiu pelo meu corpo. Percebi que estava parado havia vários minutos e que precisava fazer algo. A única coisa que me restava era seguir em frente. Seja pela minha sanidade mental ou pela urina que ansiava sair.
Depois de algum tempo, portas e corredores frios, não aguentei e urinei no chão. Um detalhe importante era que pisos laminados normalmente não absorvem líquidos. Quando me dei por conta, as pontas dos meus dois pés estavam molhadas. O pior disso era que estava de meias de lã, o que deixava tudo mais nojento na hora de caminhar. Com uma mistura de medo e raiva, comecei a rir sozinho enquanto prosseguia.
Às vezes, começava a balbuciar algumas coisas enquanto caminhava. O silêncio era uma coisa tão enlouquecedora que fazia com que eu ouvisse coisas no meio da caminhada. Frequentemente olhava para trás, certo de que não havia nada nem ninguém me seguindo, mas minha mente estava pregando peças em mim mesmo. Talvez esse labirinto (não consigo mais não pensar nesse lugar como outra coisa) também seja uma traquinagem do meu próprio cérebro. Chegava a ser irônico como a humanidade tinha inventado tantas coisas para melhorar a própria vida, mas não tinha criado nenhuma defesa contra a própria imaginação.
Eu não tinha mais nenhum senso de tempo; contudo, calculei que já estava andando e abrindo portas e mais portas por, no mínimo, duas horas. Minhas pernas estavam bambas e acabei caindo sentado no chão. Minhas meias agora estavam geladas onde foram molhadas, e isso fazia meu corpo estremecer. O corredor não era largo o suficiente para que eu esticasse as pernas por completo, então me sentei na diagonal. Verifiquei a lanterna e percebi que a luz tinha ficado mais fraca. As pilhas alcalinas eram novas, mas, mesmo assim, eu havia usado por muito tempo.
Acabei me lembrando dos jogos amadores de terror que eram uma febre há alguns anos. Joguei vários deles, mas todos tinham o mesmo problema: depois de um tempo, o medo passava e você via o quanto aquilo era ridículo. Aquela minha situação era tão semelhante à de um jogo de terror que chegava a ser engraçado.
Existia alguém jogando um jogo comigo; essa era a única explicação.
Nesse momento, comecei a me lembrar das histórias da mitologia grega que meu pai lia para mim quando eu era criança. Não sei por que fui me lembrar disso, pois um pânico sem sentido começou a tomar conta de mim – pânico também tem origem no grego, mais precisamente no deus dos bosques e florestas, Pã. Eu simplesmente sabia que o Minotauro estava atrás de mim! O lado mais racional da minha mente — como se ainda existisse um lado racional — dizia que isso era uma grande bobagem, que não havia nada além de escuridão e silêncio naqueles corredores que formavam aquele labirinto.
Mas isso não importava, pois eu só queria sair correndo para que aquela besta bovina e furiosa não me matasse! Corri atravessando várias portas e curvas até que minhas pernas cedessem e eu caísse no chão. Não consegui me levantar, então fiquei deitado em posição fetal, abraçado à minha lanterna desligada. Fechei os olhos. Achei que, se não pudesse me ver, ele não me mataria. Fiquei assim por vários minutos, talvez uma hora, até que a razão começou a voltar. Não existia nenhum Minotauro, pois, se houvesse, eu pelo menos o ouviria, mas a única coisa que emitia som eram meus passos, minha respiração e, vez ou outra, minha própria voz.
Nossa mente é uma coisa interessante quando exposta a certas situações. Por exemplo, eu não ouvia nada havia várias horas e, no meio desse silêncio, havia imaginado ouvir um monstro que não existe. Também tinha o fato de que eu não via nada além de réplicas do corredor principal de minha casa, escadarias bizarras e portas pelo mesmo tempo. Eram mais ou menos como as miragens em um deserto. Na escuridão e no silêncio, nosso cérebro agia como uma folha de papel em branco, onde qualquer coisa pode ser feita.
Liguei a lanterna e comecei a andar novamente. No meio desse pequeno momento que tive, acabei por me perguntar se estava no caminho certo. Acreditava que havia uma saída daquele lugar, mesmo sabendo que poderia não haver. Mas, assumindo a possibilidade de ter uma saída, será que eu estava no caminho certo? Eu poderia estar andando em círculos, poderia estar no caminho errado ou simplesmente não havia saída. Havia tantas portas e corredores com vários caminhos que ficava difícil saber se eu estava onde achava que estava.
O maior problema era que não havia como eu marcar os lugares por onde eu passava, pois não havia nada comigo a não ser a lanterna, que, por sinal, estava começando a ficar fraca. Minha única alternativa era apostar alto e seguir em frente aonde eu acreditava que deveria ir. Quer dizer, isso antes de a lanterna morrer de vez.
Depois de algum tempo, comecei a sentir fome e sede. Pensava que poderia desmaiar pela fraqueza a qualquer momento, mas isso não chegou a acontecer. A lanterna estava começando a piscar e sabia que iria apagar de vez em alguns minutos. Quando a minha fonte de luz veio a ficar cada vez mais fraca, comecei a andar com ela desligada. Quando esbarrasse em alguma parede ou porta, eu a ligaria rapidamente para decidir aonde ir.
Ri em determinado momento. Até que a lanterna tinha durado bastante tempo e talvez tivesse durado muito mais se eu soubesse como administrar melhor a bateria, mas o que me fazia rir era o fato de que me lembrei de quando era criança e brincava de cabra-cega com os meus amigos. Eu tinha medo de acabar sendo o que ficava vendado e nunca fui, embora tenha brincado poucas vezes. Parece que o destino vinha cobrar seu preço em algum momento da vida, pois nunca fui a “cabra” quando pequeno, mas acabei virando quando mais velho.
Já estava caminhando no escuro por poucos minutos, comparado ao tempo que fiquei com a lanterna ligada. Atravessei por quatro portas e três corredores curvos e, por sorte, nenhuma escada. O que eu mais temia naquela escuridão era esbarrar em uma dessas e cair, porém sabia que isso era quase impossível. As escadas só apareciam logo depois de uma porta, mas, ainda assim, esse padrão poderia mudar.
Eu ia cruzar pelo quarto corredor com curva quando vi algo. Não estava escuro como de costume, mas havia vários pontos brancos e brilhantes ao fundo. Minhas pernas ficaram bambas. Já estava há horas sem ver nada além de paredes frias. Havia alguma coisa no final daquele corredor e corri para ver o que era. Mostrou-se ser mais longe do que eu imaginava, mas não me importei.
Quando cheguei ao que deveria ser o final, tudo mudou. Eu reconhecia aquele lugar apenas de fotografias e filmes. Havia uma esfera azul colossal ao longe, no meio daquela imensidão negra. Estava vendo a Terra do espaço. O mais bizarro era que não deveria haver gravidade de onde eu estava; contudo, meus pés estavam firmes no chão e eu também estava respirando. Parecia alguma nave espacial de algum filme de ficção científica.
Algo se moveu ao redor da imensa esfera. Era rápido e gracioso, apesar de ser maior do que o planeta. Meu coração parou por um instante quando me dei conta do que era. Uma mão!
Ela não tinha cor definida e parecia ser transparente em alguns momentos. Aquilo segurou a Terra na palma, como se fosse uma bolinha, e começou a apertar…
Normalmente, o som não se propaga no espaço, mas parece que as leis da física haviam deixado de existir. Um barulho estrondoso se fez quando aquela mão colossal pegou a Terra e a esmagou sem nenhuma dificuldade, fazendo oceanos e pedaços gigantescos de rocha se espalharem no espaço. Pude ver pessoas sendo esmagadas contra prédios e casas e também várias coisas à deriva no meio do espaço.
Comecei a gritar enquanto assistia a cidades inteiras sendo destruídas, junto com pessoas e animais… Gente que não tinha a menor noção do que acontecia estava sendo morta brutalmente por algo que ninguém era capaz de definir. No meio desse meu desespero, algo me empurrou do corredor onde estava e comecei a cair.
Eu iria morrer por último apenas para ver meu mundo ser destruído.
Quando achei que não houvesse mais o que ser feito, aquilo aconteceu.
Minhas cobertas estavam tão molhadas que parecia que tinham sido tiradas do tanque. Não conseguia me mexer, nem raciocinar o que estava acontecendo. Peguei o celular após alguns instantes e ele marcava três e cinquenta da manhã. Estava com sede. Levantei rapidamente e peguei a lanterna do lado da cama, que, por sinal, estava com a bateria cheia. Não havia nada de anormal no meu quarto, mas eu sentia que tinha algo de errado.
Estava certo de que aquilo não foi um sonho. Não. Não havia como ter sido um sonho. Alguém estava jogando comigo, como em um jogo amador de terror, e havia perdido. Essa era a segunda chance. Só poderia ter sido isso. Ou então tudo aquilo foi um presságio. Uma visão do que aguardava, ou para o mundo ou para mim.
Quando saísse do quarto, iria entrar novamente naquele pesadelo de corredores, portas e escadas infinitas, para, no final, morrer de uma forma trágica ou então enlouquecer.
Resolvi dormir com sede.
…
Nota do autor: não lembro quando escrevi esse conto, mas faz parte da safra de obras curtas que escrevi entre a adolescência e início da vida adulta. Estava revisitando esses textos e achei que talvez fosse interessante de compartilhar por aqui.
