“Obsessão”: desejo e amor com intensidade

Recentemente, eu comentei em uma matéria aqui sobre o advento de cineastas do YouTube em Hollywood. Estamos diante de mais uma obra de um jovem diretor promissor. Curry Barker escreve e dirige “Obsessão”. Assim como outras obras do terror contemporâneo, Barker domina a narrativa de uma premissa simples com criatividade, sem perder tempo para mostrar o que pode fazer.

Na trama, após encontrar um objeto capaz de realizar desejos, Bear, interpretado por Michael Johnston, pede para que sua amiga Nikki, interpretada por Inde Navarrette, se apaixone por ele. Não demora para que o desejo se volte contra Bear, quando Nikki desenvolve uma doentia obsessão por ele.

Honrando sua origem no YouTube, Barker opta por um visual mais cru, com as laterais cortadas na vertical e fotografia granulada, dando uma estética de vídeo caseiro. Tal decisão ajuda na atmosfera sombria, fazendo momentos de suspense e até momentos mais leves serem mais sombrios do que aparentam.

O estilo de terror do longa não está apoiado em jump scares nem em aparições sobrenaturais, apesar de o elemento estar presente no desejo realizado, mas sim em atitudes do cotidiano. Fazer terror com pouco e com coisas simples é a maior qualidade de qualquer cineasta do cenário independente, e aqui Barker mostra seu domínio no assunto.

Discussões, encontros, momentos constrangedores: toda a tensão desconfortável de um relacionamento tóxico é elevada aos extremos. Não distante de sua maestria na direção, o roteiro também tem momentos de brilhantismo. Não é incomum histórias de mulheres obcecadas no cinema; se for pesquisar por “Obsessão” no Google, vários longas com a mesma premissa vão surgir.

O foco aqui é em como a narrativa desenvolve isso. Ainda que seja uma visão masculina sobre o tema, Barker sabe dos riscos assumidos e coloca seu protagonista no pedestal da responsabilidade.

Ao nos fazer lembrar a todo momento da decisão egoísta que é controlar o sentimento de outra pessoa, o roteiro não isenta Bear de sua parcela de culpa. Isso porque um relacionamento tóxico é uma via de mão dupla: onde existe uma atitude agressiva, pode existir uma atitude conivente. Essa dinâmica coloca ambos os personagens na mesma página.

Falando nos personagens, a interpretação de Inde Navarrette é assustadoramente genial. Sua personagem perde a identidade e se torna indecifrável no decorrer do longa, colocando-a em patamares das raízes do terror, sendo tão assustadora quanto uma assombração ou possessão demoníaca que vemos em filmes mais comuns.

Mas estamos longe de um longa comum. Se, no decorrer dos primeiros minutos, é perceptível o lado que ele vai tomar, quando desce para o terceiro ato tudo fica mais visceral e violento. O roteiro abraça o absurdo e nos faz lembrar que, apesar de tudo, ainda é um longa de terror sobre relacionamentos.

Sendo violento na medida certa, “Obsessão” faz o que poucos longas de Hollywood se atrevem a fazer: reconhecer a área cinzenta de seus personagens. Quando não trata ninguém como puramente vilão ou herói, os torna humanos, e isso faz você sentir cada perda, cada mutilação e cada cena gore.

Além de explorar a área cinzenta, o roteiro ainda coloca aquela que deveria ser sua vilã como uma vítima de seus elementos sobrenaturais. Todos esses aspectos fazem de “Obsessão” uma divertida e violenta experiência assustadora, que brilha onde deveria ser mais simples e faz muito com uma premissa já ultrapassada.

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