“Hokum”: o medo à espreita

Hoje em dia, existem dois tipos de filmes de terror que conseguem chegar aos cinemas: os de grande apelo popular e focados em estabelecer franquias, como os produzidos pela Blumhouse, e os de forte veia do cenário independente, como os das produtoras A24 e Neon. Após dois longas de sucesso no formato mais autoral, “Caveat” e “Oddity” — este último tendo conseguido distribuição internacional através do streaming —, o diretor Damian McCarthy sai da Irlanda e, através da Neon, lança seu primeiro longa hollywoodiano, “Hokum”.

Na trama, acompanhamos um famoso escritor, Ohm Bauman, vivido por Adam Scott, que viaja para a Irlanda para se hospedar em um antigo hotel onde, uma vez, seus pais passaram a lua de mel. Ele deseja terminar seu livro no local e espalhar as cinzas de seus pais na floresta das redondezas, mas, aos poucos, se vê envolto em uma antiga lenda de que uma bruxa assombra o local.

Um elemento notável nas obras de McCarthy é que ele entende o gênero do terror não como algo explosivo, mas sim como algo à espreita nas sombras. Tendo isso em vista, “Hokum” é cheio de momentos inquietantes em que o silêncio é a antecipação de que algo macabro está prestes a acontecer — ou já aconteceu.

No entanto, o diretor, que também escreve o roteiro, não abdica dos famosos jump scares, apenas tem sua própria forma de fazê-los. Seus momentos de susto são premeditados de propósito: ele não quer pegar a gente de surpresa. Por esse motivo, nada “pula” na tela, e por isso o silêncio é tão importante. McCarthy não esconde suas criaturas; pelo contrário, elas são bem claras tanto na aparência quanto na mitologia que as cerca.

Outra diferença que o realizador de “Hokum” traz de suas obras anteriores, e do costume cultural de longas fora do grande circuito, é a de ter um protagonista moralmente questionável. Adam Scott constrói seu personagem com certa arrogância. Essa característica não é gratuita, pois, apesar de longe de ser a de um herói tradicional, ela carrega em si o motivo de o motor da trama funcionar, já que sua arrogância traz um ceticismo necessário para atitudes que, em longas mais tradicionais, seriam interpretadas como burrice e ingenuidade.

Ao termos um personagem que é cético e nada simpático, seus atos são justificados e incentivados pelo público, pois, se há algo sobrenatural para ser descoberto, que seja por alguém que não tenha nossa total simpatia. O ceticismo parece ser um tema recorrente no roteiro. Algo que enriquece os elementos sobrenaturais são todas as possíveis justificativas mais coerentes e mundanas, que dão um toque de ambiguidade ao longa e desenvolvem o protagonista ao longo da trama.

Apesar disso, ao chegar ao terceiro ato, esses elementos se perdem um pouco e quase caem na área da espetacularização. “Hokum”, além de um filme de casa mal-assombrada — nesse caso, um hotel —, também é um longa de mistério e investigação. Porém, o terceiro ato, mais expositivo, acaba quebrando um pouco da magia e da aura de mistério construída, quase como se tivesse tentado fazer um final épico como os exigidos em Hollywood.

Ainda assim, em um cenário onde existe essa divisão nos tipos de longas que temos, McCarthy se mantém fiel às suas origens. Sendo preciso em seus temas e sabendo fazer algo novo com seus jump scares, um novo tipo de terror mais silencioso chega ao grande público.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *