Nem sempre de uma trama complexa se vive um bom filme. Eu até diria o contrário: muitas vezes, as melhores narrativas da sétima arte estão nas premissas mais simples. Isso porque, com um ponto de partida fácil, a habilidade de se contar uma boa história é elevada.
André Øvredal já mostrou antes que pode fazer muito com pouco, assim como em “Caçador de Troll” e “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro”. Porém, seu novo longa, “Passageiro do Mal”, vai além de uma premissa simples: ele tem uma premissa básica e se contenta com ela.
Na trama, acompanhamos um jovem casal que, após presenciar um terrível acidente fatal na estrada, passa a ser perseguido incansavelmente por uma entidade demoníaca. O espírito milenar, conhecido como “O Passageiro”, ancora-se no trauma do evento e passa a assombrar os viajantes, tornando a fuga praticamente impossível.
Até certo momento, Øvredal tenta nos convencer de que estamos diante de uma mistura de terror psicológico com um road movie, aqueles longas em que os personagens estão em constante movimento na estrada. A presença da entidade vilã, no primeiro momento, brinca com a noção espacial, fazendo com que suas vítimas percam o senso da realidade.

Nesse quesito, a direção sabe bem como conduzir o suspense, brincar com as sombras, com o ambiente e até mesmo com jogadas de luz de um projetor em determinado momento. O grande problema é que o longa tem apenas isso para nos mostrar.
Seus protagonistas passam dias na estrada sem qualquer contexto, apenas para fazer com que cheguem ao ambiente da trama. A mitologia por trás da entidade é apresentada da forma mais preguiçosa possível: uma simples pesquisa na internet e pronto, todas as lendas que a cercam são tidas como verdade. Isso quando um personagem qualquer faz questão de expor tudo aquilo que já havia sido mostrado.
Até temos menções interessantes, como símbolos na estrada e referências a São Cristóvão. Mas, infelizmente, o roteiro não está interessado em aprofundar esses elementos, muito menos a história — pelo menos não de forma que faça sentido e movimente a trama.
O interesse aqui é criar situações que posicionem os personagens em momentos em que o diretor possa fazer uso do jump scare. E aqui ele é usado sem moderação, de forma repetitiva e telegrafada, podendo ser previsto com mais ou menos uma hora de filme.
Uma pena que um ambiente vazio e grandioso como uma estrada aberta seja usado em uma narrativa que tenha interesse em saltar sua criatura exageradamente escandalosa repetidas vezes, até chegar a um final literalmente explosivo. “Passageiro do Mal” é o tipo de longa que já deveria ter chegado aos cinemas há tempos. Tem toda a cara de filme de descarte de início de ano que, por mais que tente, não consegue desviar de seus clichês e derrapa na conclusão.
