“Os Enforcados”: folia, jogo do bicho e Shakespeare moderno

Poucos autores conseguiram criar histórias tão resistentes ao tempo quanto William Shakespeare. Séculos após terem sido escritas, suas obras continuam sendo revisitadas porque seus conflitos raramente pertencem apenas ao período em que foram concebidos. Ambição, desejo, inveja, poder, culpa e violência são impulsos capazes de atravessar culturas, fronteiras e épocas, encontrando novas formas de se manifestar em diferentes contextos.

Por isso, os chamados temas shakesperianos seguem presentes no cinema contemporâneo, muitas vezes sem a necessidade de adaptações literais. Em vez de reis, castelos e batalhas por coroas, surgem empresários, criminosos, políticos e disputas por influência. Os cenários mudam, mas as tragédias humanas permanecem as mesmas. É justamente nesse espaço que “Os Enforcados” encontra sua força, reinterpretando elementos que remetem diretamente a Macbeth por meio de uma narrativa enraizada na realidade brasileira.

No longa de Fernando Coimbra, acompanhamos Valério e Regina, um casal do Oeste do Rio de Janeiro que se envolve numa espiral de violência. Estimulados pela ambição, eles executam um plano para resolver uma dívida que envolve o controle do jogo do bicho da região, mas o plano toma novas proporções na medida em que se afundam cada vez mais no crime e na violência.

A direção de Coimbra se destaca por mostrar um outro lado do Rio de Janeiro. Ao invés de seguir para o tradicional contraste entre belas paisagens e o crime organizado, ou mostrar o dia a dia das favelas como contraponto à imagem que se tem da dita “cidade maravilhosa”, o diretor vai para um lado quase fantasioso.

A cidade é fechada e escura, comprimindo-se em duas camadas de realidades fechadas, mostrando a hostilidade dentro da própria hostilidade. É o lado ruim do lado ruim. Essa visão é destacada pelo fato de que os criminosos sempre se revelam como mais uma peça dentro de um jogo do qual é impossível sair.

E é nesses enquadramentos fechados de suspense que o roteiro do longa nos apresenta os personagens sempre em situações equivocadas. Essa decisão transforma o longa em uma “tragédia de erros”, o que acaba misturando a violência com pequenos tons de humor ao longo da trama.

Porém, é nessas tragédias que mora seu principal trunfo: a influência de Shakespeare na narrativa. Apesar de muitas vezes o roteiro sugerir mais do que mostra, e de o universo da máfia ser muito maior na teoria do que na prática, Coimbra está mais interessado na espinha dorsal da história do que na trama principal.

O ponto principal é desenvolver os temas. Assim como a história original, “Macbeth” é mais lembrado pelos temas do que por ser uma trama complexa. Em “Os Enforcados”, o foco está na degradação moral do casal, muito mais do que em ser um thriller criminal tradicional. Nessa questão, as atuações de Leandra Leal e Irandhir Santos são imprescindíveis para deixar claro o declínio psicológico e moral dos personagens.

Regina, a fim de fazer com que seu marido assuma o controle do império do jogo do bicho, influencia o esquema de assassinato para que ele suba na hierarquia. Assim como Lady Macbeth e seu marido fizeram por acreditar que aquilo fazia parte de seu destino. Mas essa decisão carregou consigo não apenas o peso da culpa, mas também situações e cenários dos quais era impossível escapar, fazendo com que o casal afundasse cada vez mais.

Existem histórias que atravessam gerações não por seus cenários ou personagens, mas porque compreendem algo essencial sobre a natureza humana. A busca pelo poder, a ambição que ultrapassa limites morais e a culpa que surge como consequência inevitável de certas escolhas são temas que continuam ecoando séculos após terem sido explorados por William Shakespeare em “Macbeth”. Em “Os Enforcados”, esses mesmos elementos reaparecem sob uma nova perspectiva, transportados para uma realidade profundamente brasileira.

Entre disputas de influência, relações marcadas pelo desejo de ascensão e a presença constante da violência, o filme constrói uma tragédia contemporânea que dialoga com a obra clássica ao mesmo tempo em que encontra sua própria identidade. Mais do que uma história sobre crime ou poder, “Os Enforcados” revela como certas paixões humanas permanecem capazes de conduzir indivíduos à ruína, independentemente da época ou do contexto em que vivem.

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