Incel Horror: o novo subgênero ou apenas um rótulo da internet?

Recentemente, com o sucesso de “Obsessão”, um novo termo vem surgindo entre usuários de plataformas de cinema e críticos da internet: incel horror. Embora ainda não seja reconhecido como um subgênero oficial do terror, o termo está sendo usado para se referir a longas que exploram a obsessão masculina, a misoginia e o sentimento de rejeição transformado em violência.

Para entender melhor, vamos partir da origem da palavra incel. Trata-se da abreviação de involuntary celibate, ou “celibatário involuntário”. O termo surgiu na década de 1990, criado por uma jovem canadense conhecida apenas como Alana, que desenvolveu um site para reunir pessoas que se sentiam solitárias e tinham dificuldade em estabelecer relacionamentos amorosos. A proposta inicial era acolhedora e incluía homens e mulheres.

Com o passar dos anos, porém, comunidades online passaram a adotar o termo com um significado muito diferente. Em alguns fóruns, “incel” passou a identificar grupos de homens que atribuíam a culpa de sua solidão às mulheres ou à sociedade, desenvolvendo discursos marcados por ressentimento, misoginia e, em casos extremos, pela defesa ou glorificação da violência. Diversos ataques cometidos por indivíduos que se identificavam com essa ideologia fizeram com que o termo adquirisse uma conotação bastante negativa.

Então, basicamente, o incel, que hoje em dia virou uma ideologia, encontrou seu espaço na sociedade online, sendo usado de forma pejorativa para identificar indivíduos com problemas sociais, especialmente em relação às mulheres. A inclusão desse movimento no terror vem de um processo natural. O terror sempre usou medos sociais para se reinventar e se manter atual. Ameaças demoníacas, epidemias, fanatismo religioso e tecnologia são alguns dos elementos que surgiram no gênero ao longo dos anos.

Mais recentemente, devido a uma mudança de tendência nas narrativas da cultura pop, passaram a surgir mais histórias sobre masculinidade tóxica ou que retratam mulheres vítimas dessa masculinidade. Porém, isso não quer dizer que seja algo recente. Longas como “Taxi Driver”, de 1976, “O Rei da Comédia”, de 1982, e até mesmo “O Operário”, de 2004, nos mostram protagonistas masculinos com problemas psicológicos e alienação social.

O que traz um problema para esse termo é reduzir personagens complexos a um único rótulo. Definir tudo como incel, mesmo quando o filme não aborda essa ideologia, é suavizar as nuances da essência dos personagens. Se todo vilão que persegue uma mulher for chamado de incel, o termo perde precisão.

Falando dos longas que estão sendo associados ao incel horror, o precursor seria “Obsessão”. O que faz bastante sentido, pois a falta de coragem do protagonista é o que o leva a retirar a autonomia de Nikki, o que acaba resultando em violência.

Outro filme seria “Acompanhante Perfeita”. Aqui também temos o controle como um dos temas, mas também a masculinidade tóxica e a objetificação, que são temas que se cruzam com o universo incel, mas acabam indo além. Isso expõe outro problema: se tudo for rotulado como incel, as discussões ficam muito simplificadas.

Outros longas que entram na discussão seriam:

“O Homem Invisível” (2020)

Este longa talvez seja o caso mais sólido. O vilão, Adrian Griffin, acredita que possui direito sobre a vida da ex-companheira. Quando ela decide ir embora, ele transforma essa rejeição em perseguição, controle e violência psicológica. O personagem em si, Griffin, eu não considero um incel, mas sua motivação, sim, pois enxerga a protagonista como uma propriedade.

“A Garota da Vez” (2024)

Aqui temos a história verídica de um serial killer que participou de um programa de namoro na televisão norte-americana. O filme é associado ao termo pela objetificação; porém, nesse contexto, ela surge também como uma crítica à mídia da época. O personagem é um predador sexual, não um incel. A associação acontece porque ambos compartilham uma visão desumanizada das mulheres.

Fresh” (2022)

Embora seja um terror satírico, o longa apresenta um homem extremamente manipulador que transforma mulheres em objetos de consumo. Faz sentido? Mais ou menos. O filme critica a objetificação feminina, mas não aborda diretamente a ideologia incel.

No fim das contas, talvez a maior contribuição do chamado incel horror não seja criar um novo subgênero, mas oferecer uma nova lente para analisar determinados filmes. Obras que exploram obsessão, controle e misoginia ganharam uma nova camada de interpretação conforme essas discussões passaram a fazer parte do cotidiano da internet e da cultura pop.

Ao mesmo tempo, é preciso cautela. Nem todo homem violento, obsessivo ou emocionalmente instável pode ser reduzido ao rótulo de incel. Quando o termo é aplicado de maneira indiscriminada, ele perde seu significado e acaba simplificando personagens e histórias que discutem questões muito mais amplas do que apenas essa ideologia.

Talvez o futuro diga se o incel horror realmente se consolidará como um subgênero do terror ou se será apenas mais uma expressão passageira criada pela internet. Independentemente disso, seu surgimento demonstra que o horror continua fazendo aquilo que sempre fez de melhor: transformar os medos e as tensões de cada época em histórias capazes de provocar, assustar e gerar discussão muito depois dos créditos finais.

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