“Faces da Morte”: o longa que chocou uma geração

Em 1978, chegava aos cinemas e às locadoras do mundo todo uma produção chamada “Faces da Morte”. O longa é um documentário conduzido pelo Dr. Francis B. Gröss, um patologista que reflete sobre a inevitabilidade da morte enquanto exibe imagens de acidentes, execuções, autópsias e práticas ritualísticas com sacrifícios.

Utilizando o choque acima de qualquer discussão filosófica, assistir a “Faces da Morte” até o fim virou um verdadeiro desafio, e o marketing boca a boca começou a torná-lo cada vez mais popular. Mas, apesar dos elementos que o fizeram tão popular, existia um detalhe escondido: era tudo falso.

O longa foi dirigido por John Alan Schwartz, sob o pseudônimo Conan Le Cilaire. Schwartz tirou proveito do marketing boca a boca, dos boatos de que o filme havia sido proibido em diversos países e da estética documental e da narração séria, que davam um tom convincente às imagens.

No que diz respeito às mortes mostradas, existem, sim, cenas reais de acidentes. Porém, a maior parte é encenada, ainda que seja uma encenação muito boa.

O legado de “Faces da Morte” fincou raízes na cultura pop, sendo o principal responsável por consolidar o falso documentário como um subgênero. Levando essas questões em conta, era questão de tempo até ocorrer uma tentativa de resgatar a marca como uma franquia. Eis que a produtora Legendary, com distribuição do streaming Shudder, consegue lançar, em 2026, “Faces da Morte”, uma nova leitura das ideias do longa original.

A trama acompanha Margot Romero, uma moderadora de conteúdo de uma grande plataforma de vídeos que passa os dias analisando publicações violentas para decidir o que deve ser removido. Sua rotina muda quando ela encontra uma série de gravações que recriam mortes famosas do polêmico filme “Faces da Morte”. À medida que investiga a origem dos vídeos, Margot começa a suspeitar de que eles não são apenas encenações e de que um assassino está usando a internet para transformar crimes reais em espetáculo. Enquanto enfrenta seus próprios traumas, ela precisa descobrir quem está por trás das gravações antes de se tornar o próximo alvo.

O grande problema de tentar trazer “Faces da Morte” para os dias de hoje é que o convencimento não funciona mais. Com acesso à internet, vender o longa como se mostrasse mortes reais não funcionaria mais. Com isso, a ideia de a protagonista ser uma moderadora de conteúdo é boa, pois discute, principalmente, a banalização da violência.

A personagem Margot, interpretada por Barbie Ferreira, de “Euphoria”, é um bom ponto de partida. Tanto pelo seu trauma quanto pelo seu relacionamento com a internet, a protagonista é distante das redes e expõe os problemas que elas podem causar.

Em contrapartida, o vilão do longa é ativo nas redes sociais e conhece muito bem como funcionam as regras e o que fazer para viralizar. Aqui, ele é interpretado por Dacre Montgomery, de “Stranger Things”, em uma atuação que flutua entre as abordagens de Ted Bundy e o vilão fictício de “O Silêncio dos Inocentes”. Apesar de ter boas ideias e de saber desenvolvê-las no primeiro e no segundo atos, “Faces da Morte”, de 2026, já nasce com uma crise de identidade.

O roteiro do longa domina muito bem a discussão em pauta. Porém, desenvolver a ideia de forma separada, alternando entre o assassino caçando uma nova vítima para viralizar e Margot investigando se os vídeos são reais ou não, funciona até certo momento, até o ponto em que o longa percebe que precisa se vender como um filme de terror.

A impressão que o terceiro ato do longa me passa é a de que os responsáveis não sabiam exatamente como terminá-lo e decidiram recorrer à convenção mais básica do gênero slasher: a de colocar um assassino mascarado contra uma final girl. Apesar de eu gostar de slashers e de alguns clichês do gênero, não deixa de soar discrepante quando, de repente, um vilão cuidadoso e analítico passa a tomar decisões burras em nome de um clímax heroico e explosivo.

Apesar de não haver exatamente nada que o filme faça de forma terrível, a sensação final é de vazio. Quando o filme cai na zona de conforto do slasher, parece operar de forma automática, mas tendo desenvolvido Margot o suficiente para torcermos por ela.

O maior pecado de “Faces da Morte” não é deixar de chocar como o original, até porque isso seria praticamente impossível em uma era em que a violência está a poucos cliques de distância. Seu verdadeiro erro é trocar uma discussão contemporânea e provocativa por um desfecho genérico de slasher. No fim, a sensação não é a de ter assistido a um filme ruim, mas a de um longa que tinha algo relevante a dizer e escolheu o caminho mais fácil justamente nos minutos finais.

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