Vez ou outra, gosto de destacar a versatilidade da arte. O cinema, em especial o terror, tem uma capacidade curiosa de transformar discussões delicadas em histórias capazes de entreter, assustar e provocar reflexão ao mesmo tempo.
Um dos exemplos mais recentes dessa capacidade é “Leviticus”. Lançado em 2026, o filme ainda não chegou ao Brasil, mas já conquistou grande repercussão após passar pelo Festival de Sundance, onde se tornou o terror mais bem avaliado do ano até a estreia de “Obsessão”. Escrito e dirigido por Adrian Chiarella, na trama acompanhamos dois jovens que, após passarem por um ritual de conversão sexual, passam a ser perseguidos por uma entidade maligna.
A primeira coisa que é importante pontuar é a complexidade nada óbvia do roteiro de Chiarella. Apesar de o título do longa ser o nome do terceiro livro da Bíblia, mais especificamente Levítico 20:13, a intenção não é apontar o dedo para as práticas religiosas, mas sim para a forma como as pessoas as utilizam para fins egoístas.

Não é por acaso que a perseguição assume a forma de uma entidade demoníaca. Existe uma ironia evidente em utilizar um símbolo associado ao mal para representar uma violência cometida em nome de uma suposta moral cristã.
Quando falamos da fonte de terror do filme, é possível notar influências do longa “Corrente do Mal”. As duas obras lidam com uma ameaça visível apenas para a vítima e que assume formas diferentes, colocando o elemento da paranoia no suspense.
Porém, Chiarella foca muito no isolamento e na culpa como fontes do medo, trazendo a dor como principal catalisadora. A dor se torna o principal instrumento do horror. Dela nasce a mutilação, utilizada como punição, enquanto qualquer demonstração de afeto passa a ser convertida em violência.
Sim, existe o horror físico. Apesar de “Leviticus” ser um pouco lento e arrastado, quando decide chocar com a violência ou apresentar um único e excelente jump scare, consegue causar desconforto, embora o terror psicológico seja muito mais explorado.
No que diz respeito ao sofrimento interno, temos uma ótima performance dos dois protagonistas. Naim, interpretado por Joe Bird, de “Fale Comigo”, é introspectivo e calado, mas Bird consegue transmitir suas angústias somente com o olhar quando necessário. Já Ryan, interpretado por Stacy Clausen, de “Ataque Brutal”, é o típico jovem rebelde que transforma a opressão em revolta. Os dois são ótimos contrapontos um para o outro.
O terror é um gênero que consegue materializar com facilidade pautas sociais. Ao abordar um tema tão sensível quanto este, “Leviticus” consegue ter drama, suspense e ser assustador sem nunca deixar de lado sua mensagem central. Uma prova cabal da versatilidade do gênero e do quão longe ele pode chegar.
