É inegável que o produtor Ryan Murphy, junto à Netflix, descobriu uma fórmula para suas séries. A franquia “Monstro” surge ano após ano com a proposta de revisitar crimes marcantes da história norte-americana sob a perspectiva de seus algozes. Mas o que essas obras despertam no público é muito mais curioso do que qualquer assassinato brutal: um sentimento de falso moralismo.
Em 2022, a primeira série do que se tornaria uma antologia estreava na Netflix. “Dahmer: Um Canibal Americano” se destacou na época pela fotografia de tom amarelado e pela atuação de Evan Peters no papel do protagonista. O criminoso retratado aqui foi um serial killer que matou 17 pessoas entre 1978 e 1991. As questões levantadas nessa primeira série foram a negligência das autoridades em comunidades marginalizadas, pessoas negras e homossexuais, expondo o preconceito da época e a tentativa de procurar um culpado, seja nos pais de Dahmer ou no sistema que permitiu que alguém assim andasse livre por tanto tempo.
Ainda que levantando esses pontos e tendo alguns episódios focados em dar voz às suas vítimas, ter o serial killer no centro da história já incomodou o público. Porém, mesmo com as polêmicas, o sucesso não passou despercebido, e o que poderia ser uma minissérie se tornou uma franquia com o título de “Monstro”, dedicada a contar a trajetória de criminosos notórios. Sendo assim, em 2024, chegava ao catálogo “Monstros: Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais”.

Em 20 de agosto de 1989, os irmãos Erik e Lyle Menendez assassinaram a tiros seus pais e culparam a máfia, sem qualquer prova do envolvimento de seus genitores com organizações criminosas. Se na primeira série houve polêmicas envolvendo a romantização de um assassino em série, aqui a abordagem foi diferente.
O crime é mais pessoal, ou seja, de menor escala. Os dois jovens pertenciam à alta classe de Beverly Hills, na Califórnia. Então, a fotografia mais sombria foi substituída pelo ensolarado verão norte-americano, onde dois jovens ricos achavam que estavam acima da lei. Com isso em mente, e com a desculpa de que a acusação dos irmãos sobre os abusos dos pais nunca foi de fato provada, a série toma uma liberdade criativa muito maior e se permite ser uma paródia absurda sobre jovens inconsequentes, ao mesmo tempo que planta a semente da dúvida sobre os motivos reais do crime apresentado.
O resultado, mais uma vez, dividiu o público, que criticou o tom sensacionalista dessa série. Por mais que eu até goste dessa aura de paródia que ela trouxe, reduzir a escala do assassinato não impediu as polêmicas que o público fez questão de exaltar, mas que, ainda assim, os manteve assistindo.
Nesse cenário, como esperado, apenas um ano depois era a vez de o público assistir e se irritar com “Monstro: A História de Ed Gein”. Ed Gein foi um assassino e ladrão de túmulos nos anos 1950, conhecido pelo apelido de “Carniceiro de Plainfield”.

Na terceira temporada, voltamos a acompanhar um serial killer, mas dessa vez com uma grande diferença. A produção decidiu apostar no impacto de Ed Gein na cultura pop, destacando os filmes e personagens que foram baseados nele, a fim de conseguir uma suspensão de descrença maior por parte do público.
O resultado foi uma narrativa bagunçada e atropelada, com momentos de referências e homenagens a filmes como “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Silêncio dos Inocentes”. Aqui, eu diria que quase encontraram o meio-termo perfeito entre realidade e ficção, mas a execução foi muito ruim. Então, se nada disso bastou, a próxima tentativa teria que ser algo quase místico.
Eis então que chegamos ao momento atual e nos deparamos com um crime que é de cunho pessoal, então não poderia ofender algum envolvido; se passa há mais de 100 anos, então o tempo já tratou de suavizar sua brutalidade; a criminosa da vez foi tão mistificada que suas ações se tornaram uma cantiga para crianças pularem corda. E, entre as ideias que ajudaram a construir sua absolvição, estava uma que hoje parece absurda: a dificuldade de acreditar que uma mulher pudesse ser capaz de tamanha violência.
“Monstro: A História de Lizzie Borden” assumidamente é cheia de especulações. Em 1890, Lizzie foi acusada de matar com um machado sua madrasta e seu pai. Em determinado momento da série, o próprio roteiro admite que ninguém sabe ao certo o que ocorreu; tudo que ficou foram especulações e teorias, além do argumento de absolvição, que é claramente um produto do seu tempo.

Com isso em mente, o que acontece aqui é um paralelo com a serial killer Aileen Wuornos. Wuornos foi acusada de assassinar sete homens, e a série usa sua história como paralelo com a de Borden. Aileen aparece aqui sendo uma fã dos atos de Lizzie, e até mesmo existe uma cena em que ela a vê como uma divindade. Claro que a série faz isso depois de deixar claro o diagnóstico de esquizofrenia de Wuornos, na esperança de que seu público não entenda a visão como uma verdade absoluta.
A presença de Aileen Wuornos é justamente o que torna essa temporada ainda mais curiosa. A série não está apenas interessada em reconstruir o crime de Lizzie Borden, mas em discutir a maneira como determinadas criminosas foram transformadas em figuras quase míticas ao longo do tempo. Lizzie e Aileen acabam colocadas lado a lado como duas mulheres que, cada uma à sua maneira, foram transformadas em personagens pela cultura popular.
E é aqui que “Monstro” parece finalmente deixar de perguntar apenas “o que aconteceu?” para perguntar “por que ainda estamos tão interessados em saber?”. A resposta talvez esteja menos nos crimes retratados e mais na nossa relação com eles. A franquia passou quatro temporadas tentando encontrar diferentes maneiras de transformar assassinatos reais em entretenimento, enquanto o público passou quatro temporadas discutindo se essas histórias deveriam sequer existir.
Simplesmente não faz sentido cobrar fidelidade absoluta de uma história de ficção baseada em acontecimentos reais. O roteiro é uma dramatização e, mesmo tendo como base algo real, contém um tema sendo explorado e não é simplesmente um copia e cola de uma página da Wikipédia ou de um artigo de jornalismo da época.
Além disso, é paradoxal cobrar fidelidade e criticar a liberdade criativa, sendo que, quando a série se propôs a retratar os casos, foi acusada de exploração e desrespeito com as vítimas. Claro que isso parte da problemática da escolha de os assassinos serem a peça central, mas é exatamente essa curiosidade que fez as pessoas darem o play em primeiro lugar. Como se a internet não fosse recheada de canais e documentários de true crime, ou até mesmo de vídeos e reels de acidentes e brigas com milhões de visualizações.
E, por último, está a peça central que mantém essa franquia de pé: as pessoas que a criticam. Por mais estranho que seja a publicidade da Netflix anunciar o novo criminoso da vez como se fosse um herói novo se juntando a algum crossover de cinema, esse tipo de divulgação também atrai os moralistas de plantão, que muitas vezes sequer conhecem a história, mas se tornam especialistas no assunto na hora de criticá-la. Querendo ou não, o ódio online faz parte do processo de renovação e se tornou apenas mais uma engrenagem que mantém essa máquina de pé.
No fim, talvez o verdadeiro paradoxo de “Monstro” seja justamente esse: enquanto parte do público discute se a série deveria transformar criminosos reais em entretenimento, continua dando play, compartilhando, comentando e discutindo cada nova temporada. A franquia não sobrevive apenas porque Ryan Murphy encontrou uma fórmula para contar histórias de crimes reais. Ela sobrevive porque nós encontramos uma nova forma de consumi-las, julgá-las e, principalmente, continuar falando sobre elas.
