Existe uma cena de “Berserk” que me acompanha há algum tempo. Não é uma batalha monumental, não é uma demonstração espetacular de força e tampouco envolve alguma revelação capaz de mudar o destino do mundo. É uma conversa.
Guts vai visitar Godo, o ferreiro que, durante parte de sua jornada, serviu como uma espécie de figura paterna. Godo está velho, doente e próximo da morte. É um homem que já compreendeu que não terá muito mais tempo por aqui e que, justamente por isso, parece ter adquirido certa clareza sobre algumas coisas.
Em determinado momento, ele oferece a Guts um último conselho: “o ódio é para onde um homem vai quando não consegue lidar com a tristeza.”
A frase não precisa de grandes explicações. Talvez seja justamente essa a razão pela qual ela me marcou tanto. Godo não está tentando apresentar uma teoria complexa sobre a natureza humana, muito menos oferecer uma solução milagrosa para os problemas de Guts. Ele apenas observa um homem que passou boa parte da vida transformando a própria dor em violência e lhe diz, em poucas palavras, aquilo que talvez ninguém tivesse conseguido dizer com tanta simplicidade.
O ódio é um destino possível para quem não sabe o que fazer com a própria tristeza.
E, quanto mais penso nessa frase, mais acredito que ela ultrapassa os limites da ficção. Há alguma coisa profundamente humana nessa observação, especialmente quando pensamos naqueles homens que atravessam a vida carregando uma melancolia que raramente conseguem explicar, muito menos compartilhar.
O que aprendi nesses meus quase 30 anos é que um homem destruído por dentro não é necessariamente um homem incapaz de fazer alguma coisa grandiosa.
Essa talvez seja uma das ideias mais equivocadas que temos sobre a tristeza. Imaginamos que a pessoa triste será, inevitavelmente, alguém paralisado, incapaz de trabalhar, produzir, construir ou realizar qualquer coisa digna de reconhecimento. Como se a dor emocional precisasse se manifestar sempre na forma de imobilidade, como se um sujeito que carrega o mundo nas costas não pudesse, ao mesmo tempo, ser perfeitamente capaz de levantar pesos, escrever livros, criar projetos e realizar coisas que outros considerariam admiráveis.
A realidade é consideravelmente mais complicada.
Existem homens infelizes que trabalham doze horas por dia. Homens que estudam, treinam, empreendem, escrevem, constroem empresas, produzem obras de arte e perseguem objetivos que exigem uma quantidade considerável de esforço. Alguns chegam a realizar coisas extraordinárias. O mundo está cheio de pessoas que conseguiram construir alguma coisa apesar da própria miséria interior. E talvez existam outras tantas que fizeram isso, em alguma medida, por causa dela.
Nem sempre é a disciplina que as mantém em movimento. Nem sempre é uma vontade serena de melhorar, uma convicção filosófica sobre o valor do trabalho ou uma compreensão madura de seus próprios objetivos.
Às vezes, o sujeito simplesmente não suporta mais a própria condição.
Ele não quer necessariamente ser alguém melhor. Quer deixar de ser quem é naquele momento. Não está interessado em descobrir o que a vida tem de bom a oferecer; quer apenas provar que aqueles que o desprezaram estavam errados. Não trabalha porque aprendeu a amar o próprio ofício, mas porque ficar parado significa ter de encarar uma existência que lhe parece insuportável.
A diferença é sutil, mas importante.
Existe uma distância considerável entre construir alguma coisa porque se deseja vê-la existir e construí-la porque não se consegue suportar a ideia de continuar vivendo sem ela.
O resultado, às vezes, pode ser exatamente o mesmo. Um livro continua sendo um livro, um corpo treinado continua sendo um corpo treinado, um projeto bem-sucedido continua sendo um projeto bem-sucedido. O mundo não costuma investigar as motivações íntimas de quem apresenta uma obra pronta. Ele olha para aquilo que foi produzido, não para as noites em que seu autor esteve perto de desistir de tudo.
Mas há uma diferença entre o que se constrói e aquilo que se precisa sacrificar para continuar construindo.
E é aí que o ódio entra na história. O ódio possui uma vantagem perversa sobre a tristeza: ele oferece uma direção.
A tristeza pode ser difusa. Pode ser a sensação de ter perdido alguma coisa que nunca se teve, de ter sido privado de oportunidades que outros receberam naturalmente, de perceber que os anos estão passando sem que a vida tenha se tornado aquilo que imaginávamos. Pode ser a acumulação de pequenas humilhações, de fracassos que não conseguimos esquecer e de palavras que continuamos ouvindo muito depois de terem sido pronunciadas.
É difícil agir contra uma sensação tão abrangente.
Contra quem você luta quando o problema é a própria existência? A quem você responsabiliza quando não consegue identificar exatamente o que deu errado? Como transforma em ação aquela espécie de cansaço que não desaparece depois de uma noite de sono?
O ódio oferece respostas, ainda que nem sempre sejam respostas honestas.
Ele escolhe um culpado. Transforma a confusão em acusação, a impotência em hostilidade e o sofrimento em uma espécie de missão pessoal. De repente, o sujeito já não precisa compreender tudo aquilo que sente. Ele apenas precisa encontrar alguma coisa contra a qual lutar.
E lutar é, de muitas maneiras, mais fácil do que lamentar.
Um homem que se sente derrotado pode passar anos remoendo a própria situação. Mas, quando essa derrota se transforma em raiva, ele talvez encontre forças para levantar da cama, voltar a treinar, estudar durante a madrugada ou dedicar os próximos anos à construção de um projeto.
A raiva lhe fornece uma tarefa. A tarefa lhe oferece uma rotina. A rotina lhe dá uma sensação de controle. Pela primeira vez em muito tempo, ele sente que consegue fazer alguma coisa.
Isso não significa que o ódio seja necessário para realizar grandes feitos. Tampouco significa que a tristeza seja uma virtude secreta, uma espécie de matéria-prima indispensável para quem deseja construir algo importante. Seria absurdo romantizar o sofrimento dessa maneira.
Mas seria igualmente ingênuo fingir que emoções desagradáveis nunca podem ser transformadas em energia para a ação.
Às vezes, a raiva é o que sobra quando todas as outras coisas parecem ter sido retiradas de um homem. E, se ele conseguir direcioná-la para alguma coisa construtiva, talvez encontre nela o primeiro impulso de que precisava para mudar a própria vida.
Pode começar a construir um corpo do qual se orgulhe. Pode dedicar-se a um ofício, escrever um livro, desenvolver uma habilidade ou tirar do papel um projeto que passou anos adiando. Pode olhar para aquilo que o destruiu e decidir que não vai permanecer naquela condição para sempre.
Há alguma dignidade nessa transformação. Não porque o sofrimento seja bonito, mas porque existe algo de admirável em conseguir produzir alguma coisa a partir de uma experiência que parecia capaz de consumir tudo.
O problema é que o ódio não vem acompanhado de um manual de instruções. E nem sempre o homem que consegue utilizá-lo como combustível sabe quando deve parar de alimentá-lo.
O primeiro perigo é relativamente evidente: o sujeito pode simplesmente destruir a si mesmo.
Pode passar tantos anos tentando provar que é forte que se torna incapaz de reconhecer as próprias limitações. Pode transformar o treinamento em punição, o trabalho em penitência e qualquer momento de descanso em motivo de culpa. Pode alcançar alguns de seus objetivos sem perceber que continua sendo governado pelas mesmas humilhações que o colocaram em movimento.
Ele muda de corpo, de emprego, de círculo social e de posição na vida. Mas continua discutindo com os fantasmas de pessoas que talvez nem se lembrem mais dele. O homem acredita que está avançando porque percorre uma distância cada vez maior. Não percebe que, em seu íntimo, continua tentando escapar do mesmo lugar.
Ainda assim, existe um problema mais grave do que aquele que afeta somente o próprio indivíduo: o momento em que ele decide que a causa de seu sofrimento está em outras pessoas e que essas pessoas precisam pagar por isso. É nesse ponto que a tristeza pode se transformar em algo perigoso.
Não estou falando apenas de crimes, agressões ou dos casos extremos em que alguém decide fazer da própria revolta uma ameaça concreta à vida alheia. Essas coisas existem, evidentemente, mas o mecanismo que nos interessa aqui não precisa chegar a esse ponto para produzir estragos.
Basta que o sujeito encontre outras pessoas dispostas a compartilhar seu ressentimento.
A internet tornou essa possibilidade particularmente visível. Homens frustrados descobrem comunidades nas quais suas experiências são tratadas como provas de que o mundo inteiro está contra eles. A solidão deixa de ser uma circunstância dolorosa e passa a integrar uma identidade. A rejeição deixa de ser uma experiência cruel, mas particular, e se transforma em uma acusação contra uma categoria inteira de pessoas.
Os incels são um exemplo bastante conhecido desse processo. Em certos espaços dessa subcultura, a frustração afetiva e sexual é convertida em hostilidade contra as mulheres. Uma dor que poderia ser enfrentada como parte da experiência individual passa a justificar uma visão de mundo na qual mulheres deixam de ser indivíduos e se tornam responsáveis por uma suposta injustiça coletiva.
O homem já não precisa compreender a si mesmo. Ele encontrou um culpado. E existe um conforto terrível nisso.
É mais fácil odiar uma categoria inteira de pessoas do que admitir que a vida afetiva é complexa, que a rejeição nem sempre pode ser explicada por uma única causa e que ninguém possui uma obrigação automática de corresponder aos sentimentos de outra pessoa. É mais fácil encontrar uma comunidade que confirme suas piores suspeitas do que se expor à possibilidade de estar errado.
A tristeza, nesse ambiente, não desaparece. Ela é organizada, compartilhada e alimentada até adquirir a aparência de uma convicção.
O homem passa a acreditar que sua raiva é uma forma de lucidez.
Mas os incels são apenas um exemplo particularmente evidente. O mesmo mecanismo pode aparecer em comunidades políticas, movimentos ideológicos, grupos de ressentidos ou qualquer ambiente no qual a frustração individual seja convertida em uma narrativa sobre inimigos coletivos.
Um sujeito pode passar anos sentindo que foi humilhado, ignorado ou privado de alguma coisa. Em algum momento, encontra uma explicação abrangente para todas essas experiências. Descobre que, segundo determinada narrativa, seus problemas seriam culpa da burguesia, dos fascistas, dos ricos, dos pobres ou de qualquer outro grupo que possa ocupar o lugar de inimigo da vez.
Algumas dessas categorias correspondem a grupos reais; outras podem ser empregadas de forma tão vaga que passam a designar qualquer pessoa de quem o sujeito não goste. O problema não está necessariamente em criticar uma classe social, uma ideologia ou uma estrutura de poder. Essas críticas podem ser legítimas e necessárias.
O problema começa quando a conclusão vem antes da investigação, quando a pessoa deixa de examinar comportamentos concretos e passa a enxergar rótulos em todo lugar.
O colega que discorda dele já não é um sujeito com uma opinião diferente: é um fascista. O indivíduo que tem mais dinheiro não é alguém cuja trajetória precisa ser compreendida: é um inimigo de classe. A mulher que o rejeitou não é uma pessoa com preferências próprias: é a representante de um sistema que o oprime.
O homem encontra pessoas reais, com histórias, contradições e motivações próprias, mas as enxerga através de personagens que já estavam prontos antes mesmo de conhecê-las. É uma forma conveniente de organizar o mundo. E também uma maneira eficiente de evitar o exame de consciência.
Afinal, se todos os seus problemas são provocados por um inimigo externo, você nunca precisa perguntar o que pode fazer a respeito da própria vida. Não precisa distinguir o que lhe foi imposto daquilo que escolheu. Não precisa aceitar que algumas injustiças são reais, algumas derrotas poderiam ter sido evitadas e outras simplesmente fazem parte de uma existência que não oferece garantias.
Basta continuar lutando contra o inimigo. E, quanto mais se luta, mais necessário se torna acreditar na existência dele.
Talvez seja esse o aspecto mais cruel do ódio: ele pode começar como uma tentativa de escapar da própria tristeza e terminar como uma maneira de preservá-la.
O sujeito encontra no ressentimento uma fonte de energia, mas também uma explicação para continuar sofrendo. Sua infelicidade passa a fazer parte de sua identidade. Ele não sabe mais exatamente quem seria sem aquilo que odeia, porque passou tanto tempo organizando a vida em torno de seus inimigos que a possibilidade de abandoná-los se torna quase assustadora.
O que aconteceria se conseguisse aquilo que tanto desejava?
E se construísse o corpo que queria construir, realizasse o projeto que parecia impossível, conquistasse a independência financeira ou encontrasse algum reconhecimento pelo próprio trabalho?
E se, depois de tudo isso, descobrisse que as pessoas que o humilharam continuavam dormindo tranquilamente, que o mundo não estava acompanhando sua trajetória e que ninguém lhe devia uma reparação pelo tempo que passou sofrendo?
Talvez sentisse orgulho. Talvez experimentasse algum alívio. Mas também poderia descobrir que passou anos esperando que suas conquistas resolvessem um problema que nunca esteve inteiramente ao alcance delas.
Porque é possível mudar a própria vida sem conseguir mudar retroativamente aquilo que nos aconteceu.
Nenhum corpo, por mais forte que seja, pode apagar todas as humilhações. Nenhum projeto, por mais grandioso, pode garantir que seremos compreendidos pelas pessoas de quem gostaríamos de receber reconhecimento. Nenhuma vitória obriga o mundo a admitir que estávamos certos. E talvez um dos maiores desafios de um homem triste seja aceitar justamente isso: que sua vida precisa adquirir algum valor para além da necessidade de responder a quem o feriu.
Não há nada de errado em querer provar que alguém estava errado a seu respeito. O problema é quando essa necessidade se transforma na única razão para continuar.
Um homem pode passar a vida inteira tentando vencer uma discussão que ninguém mais está tendo.
Penso novamente em Godo, velho e doente, conversando com Guts.
A frase faz sentido porque não tenta convencer Guts de que ele precisa simplesmente deixar de sentir raiva. Seria uma exigência absurda diante de tudo o que aquele homem sofreu. Não é possível olhar para uma vida atravessada por violência, perdas e brutalidade e esperar que alguém resolva tudo isso com uma mudança de perspectiva.
Godo parece apontar para algo mais profundo. O ódio pode ser uma reação à tristeza, uma maneira de suportá-la quando não se conhece outra. Mas isso não significa que seja a única maneira de viver.
Talvez o verdadeiro desafio não seja eliminar a raiva, mas impedir que ela se transforme na única linguagem por meio da qual conseguimos compreender o mundo.
A raiva pode nos mostrar que alguma coisa está errada. Pode nos dar coragem para sair de uma situação insustentável, estabelecer limites, abandonar um ambiente nocivo ou começar a construir aquilo que sempre desejamos. Não precisamos fingir que somos criaturas perfeitamente serenas para reconhecer que determinadas emoções podem nos colocar em movimento.
Mas existe uma diferença entre usar o ódio como combustível e fazer dele a própria casa. O combustível serve para levar você a algum lugar. A casa é onde tu permanece.
Se a raiva lhe deu forças para começar, talvez chegue o momento em que você precise aprender a continuar sem ela. Se a humilhação lhe mostrou que já não queria viver de determinada maneira, talvez seja necessário descobrir o que deseja construir depois de deixar de ser definido pela humilhação.
E, se um dia você conseguir aquilo pelo qual lutou, talvez precise aprender a desfrutar da conquista sem transformar sua existência em uma cobrança permanente contra o passado.
Isso não é simples. Superar a tristeza não é uma decisão que se toma numa tarde, muito menos um dever moral que alguém possa impor a outra pessoa. Há dores que exigem tempo. Não há vergonha nenhuma em reconhecer que certas batalhas não podem ser vencidas apenas com força de vontade.
Mas há uma coisa que me parece importante lembrar: você não precisa continuar sofrendo para justificar aquilo que fez enquanto sofria. Não precisa preservar a raiva que o colocou de pé. Não precisa permanecer ressentido para demonstrar que foi ferido. Não precisa encontrar um novo inimigo toda vez que o anterior deixa de fazer sentido.
E, sobretudo, não precisa transformar a sua tristeza em uma sentença contra o restante do mundo.
Talvez o ódio consiga salvar um homem de permanecer imóvel. Talvez lhe forneça o impulso necessário para começar uma transformação que, em outras circunstâncias, ele sequer teria coragem de tentar.
Mas ele não precisa acompanhá-lo até o fim.
Se tiver de odiar alguma coisa, que esse ódio ao menos lhe sirva para identificar aquilo que você não deseja mais aceitar em sua própria vida. Use a fúria para sair do lugar, se for o que lhe resta. Construa alguma coisa com ela. Torne-se capaz de olhar para o que fez e sentir orgulho, ainda que ninguém mais reconheça o seu esforço.
Depois, quando puder, aprenda a abandoná-la. Porque talvez a maior vitória de um homem triste não seja destruir aquilo que o fez sofrer. Talvez seja chegar a um ponto em que já não precise viver em função disso.
No fim, o ódio pode até ser o lugar para onde um homem vai quando não consegue lidar com a tristeza. Mas não deveria ser o lugar onde ele decide passar o resto da vida.
