À medida que nos aproximamos do cinema contemporâneo, começo a perceber como o terror se torna cada vez mais íntimo e passa a flertar com outros gêneros. O medo deixa de estar apenas naquilo que desconhecemos e começa a surgir também daquilo que escondemos de nós mesmos.

Dia 21. Trabalhar Cansa (2011)
Helena decide realizar o sonho de abrir um minimercado e contrata uma empregada doméstica para ajudá-la com a casa e a filha. Quando seu marido perde o emprego, a família enfrenta dificuldades financeiras, enquanto acontecimentos estranhos começam a ameaçar o negócio.
Dia 22. Thelma (2017)
Criada em uma família religiosa e rigorosa, Thelma se muda para Oslo para estudar na universidade. Ao se apaixonar por uma colega, começa a experimentar fenômenos inexplicáveis e descobre que possui habilidades que não consegue controlar, colocando em dúvida tudo o que aprendeu sobre si mesma.
Dia 23. Attachment (2022)
Maja, uma atriz dinamarquesa, se apaixona por Leah, uma jovem britânica que sofre uma convulsão misteriosa. Quando Leah retorna para Londres, Maja vai com ela e conhece sua mãe superprotetora. Aos poucos, descobre segredos familiares e acontecimentos sobrenaturais que ameaçam o relacionamento das duas.
Dia 24. The Lure (2015)
Duas irmãs sereias carnívoras chegam à Polônia dos anos 1980 e passam a trabalhar como cantoras em uma boate. Enquanto conquistam a atenção do público, uma delas se apaixona por um humano e precisa lidar com o conflito entre o desejo de pertencer àquele mundo e sua natureza predatória.
Dia 25. The Deeper You Dig (2019)
Após atropelar e matar uma adolescente, um homem tenta esconder o crime. Porém, a mãe da vítima, uma mulher com habilidades mediúnicas, começa a entrar em contato com a filha por meios sobrenaturais. O que deveria permanecer em segredo se transforma em um pesadelo marcado por culpa, luto e vingança.

Olhando para os filmes dessa leva, fica evidente como o terror passou a explorar, cada vez mais, o medo de perder o controle sobre aquilo que escondemos, seja dos outros ou de nós mesmos.
Em Trabalhar Cansa, a ameaça surge de um cotidiano reconhecível. O medo de perder tudo e a angústia de manter a estabilidade financeira são levados ao extremo, revelando novas facetas dos protagonistas. É justamente aí que reside a tensão do longa: na forma como a busca por aquilo que deveria representar um sonho começa a corromper as pessoas envolvidas.
Já em Thelma, o terror está na descoberta. Ao fazer do desejo o elemento que desperta o sobrenatural, o filme explora o conflito entre aquilo que aprendemos a temer e aquilo que existe dentro de nós. A descoberta de habilidades incontroláveis se transforma, assim, em uma reflexão sobre identidade, repressão e a dificuldade de compreender a própria natureza.
Attachment foi um dos meus favoritos dessa semana, principalmente pela forma como concilia terror e romance. A narrativa faz com que a ameaça sobrenatural se torne cada vez mais presente à medida que a intimidade entre as protagonistas também cresce. Dessa forma, aquilo que deveria trazer segurança passa a alimentar a desconfiança, transformando o amor em mais uma fonte de inquietação.
The Lure é um dos filmes mais ousados dessa seleção. O longa abraça a proposta de construir uma versão sombria dos contos de fadas, com direito a sequências musicais que contrastam com o tom pesado da história. Embora também explore a identidade, o filme se aprofunda no desejo e na adaptação social, usando a monstruosidade das sereias para questionar os sacrifícios envolvidos na tentativa de pertencer a um mundo que não foi feito para elas. Afinal, até que ponto vale a pena abandonar a própria natureza para ser aceito pelos outros?
Diferentemente dos anteriores, The Deeper You Dig coloca as ações dos personagens em primeiro plano. Quando o sobrenatural atravessa as consequências de um crime, o medo de ter de responder pelos próprios atos vem à tona. No entanto, o que realmente alimenta o terror são a culpa e o luto, sentimentos que mantêm o passado presente e transformam uma tentativa de esconder o erro em uma perseguição da qual não há como escapar.
Seja pela identidade, pelo desejo de pertencimento ou pela culpa, esses filmes demonstram como o terror pode nascer do nosso próprio íntimo. Afinal, existe algo de desconhecido dentro de cada um de nós, e perceber que nem mesmo nós nos conhecemos por completo pode ser assustador.
O terror não precisa inventar nossos medos para nos assustar. Às vezes, basta dar um rosto, um corpo ou uma presença àquilo que já nos angustia. A insegurança financeira pode se tornar uma ameaça inexplicável; a repressão pode assumir a forma de poderes incontroláveis; o amor pode esconder algo monstruoso; o desejo de pertencer pode exigir que abandonemos quem somos; e a tentativa de enterrar um erro pode se transformar em uma perseguição sobrenatural. O monstro muda, mas permanece a sensação de que perdemos o controle sobre algo que deveria estar em nossas mãos.
